terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Lições sobre a Dor - Parte 2


O pé esquerdo estava cada dia mais machucado, em carne viva. E o resto do corpo começou a acompanhá-lo nesse caminho. Aos poucos, foi descamando o couro cabeludo, o umbigo, as dobras atrás dos joelhos e na frente dos cotovelos, a região genital, as mãos. Eu convivia com a dermatite há dezesseis anos, e nunca tinha tido tantas feridas pelo corpo ao mesmo tempo. E eu continuava na fazenda, fazendo trilhas pela Serra do Roncador e contando apenas com a babosa para aliviar tanta ferida. Sem dormir direito, porque com o perdão do trocadilho, à noite, ronca-a-dor...

***

Durante a viagem, três amigos cujo nome começava com a letra M, por acaso (?), me ajudaram a compreender minhas vivências. Neste relato, para simplificar, irei juntá-los no mesmo personagem: M.

Estávamos almoçando e jogando conversa fora quando M. falou que o ser humano precisa transmutar a dor. Na noite seguinte, enquanto eu sincronizava a respiração com o corpo latejante, ouvia a minha voz dentro de mim, dizendo: "transmuta a dor... transmuta a dor..." E perguntei: "certo, mas vou transmutar em quê?". Não tive resposta.

Dias depois, M. falou sobre Tarô, enquanto comíamos espetinhos, tomávamos cerveja e cantávamos no caraoquê. Comentou brevemente que o Arcano 12 está relacionado ao 21, um é apenas o inverso do outro. Sinceramente, eu não me lembrava qual era o Arcano 21 e nem cheguei a perguntar na hora.

***

O Arcano 12, esse sempre me lembro bem, é o Sacrifício. Geralmente é representado por um homem preso pelo pé a uma forca. No Tarô Mitológico, o personagem é Prometeu, aquele que roubou o fogo e o entregou à humanidade. Prometeu tinha o dom de prever o futuro e sabia das consequências que seu ato teria: seria castigado pelo poderoso deus Zeus, permanecendo acorrentado a uma rocha. Todos os dias, uma águia viria comer seu fígado, órgão que se regenera, perpetuando a tortura diária. E mesmo sabendo do martírio a que se sujeitaria, Prometeu concretizou seu plano, sacrificando-se pela humanidade, para que esta evoluísse.

O Enforcado, portanto, representa todos os seres que se deram em holocausto pela humanidade. Inclusive o mais conhecido em nosso meio ocidental: Jesus Cristo. Algo interessante sobre o homem enforcado pelo pé é que ele pode, a qualquer momento, libertar-se, mas não o faz. Sacrifica-se por vontade própria, acreditando em um bem maior. Paradoxalmente, seu martírio é provocado por si mesmo, mas infligido pela divindade.

O Enforcado, Arcano 12 do Tarô Mitológico

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Na noite seguinte, como em todas as outras, o corpo todo latejando e eu não conseguia dormir. E como em todas as outras noites, consegui relaxar sincronizando a respiração com o ritmo pulsante da dor. Foi quando ouvi minha própria voz repetir a frase de alguns dias atrás: “transmuta a dor... transmuta a dor...”. De repente, inesperadamente, a frase prosseguiu: "Transmuta a Dor em Liberdade...".  Essa nova ordem me trouxe um conforto gostoso, como se fosse colo de mãe. Adormeci com a sensação de que havia ingressado em uma nova fase...

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Só no dia seguinte é que percebi que a frase fez muito sentido. "Assim como nós liberamos o pecado dos demais", dizia o Pai Nosso em Aramaico, que surgiu na minha cabeça algumas noites atrás. Liberar, libertar, liberdade. "Transmuta a Dor em Liberdade". É mais ou menos o que eu pensava sobre o Arcano 12, certo? Um ato de sacrifício pessoal que liberta a humanidade... Um por Todos!

***

Na manhã seguinte, em um hotel de Barra do Garças, peguei o notebook e abri a pasta em que guardo diversas imagens de tarô. Um dos conjuntos é muito especial. Foi criado por um artista, a partir das imagens relatadas por um homem que regressou de uma viagem bastante significativa, na qual teve a oportunidade de ver cada lâmina de tarô apresentar-se a ele como se fosse uma cena viva e em movimento.

Foi por essas imagens que comecei minha jornada, clicando logo no misterioso número 21. Meus olhos se arregalaram e sorri com a surpresa, quando li:

A LIBERTAÇÃO.

O título encabeçava a imagem de um jovem sentado sobre um cavalo branco, jogando moedas para cima com uma mão e apanhando-as no ar com a outra. Moedas, dinheiro, matéria. Como se o jovem recolhesse as experiências da matéria, que após dar uma voltinha pelo ar, retorna ao ponto inicial, embora em um plano mais avançado do espaço.

No Tarô de Marselha e no Esotérico, é O Louco, ou seja, aquele ser que se lança ao abismo, em uma viagem com paradeiro desconhecido, iniciando um novo ciclo de aventuras... libertando-se, portanto, de um ciclo passado, já apodrecido e gasto. Já no Tarô Egípcio, o Arcano 21 se chama A Transmutação. "Transmuta a Dor em Liberdade"...

O Louco, no Tarô Esotérico

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O Sacrifício no 12, a Libertação no 21. Tudo se encaixava com as intuições e sincronicidades das conversas com o amigo M. Essa descoberta veio no último dia em que estive no Roncador, como se fosse o encerramento do processo de descobertas sobre a Dor que se iniciou quando cheguei.

Tive dois dias para pensar nisso ao longo da estrada, viajando com os pés por cima do painel, porque se ficassem para baixo, a dor era ainda maior. Surgiam manchas sobre o polímero, formadas pelas minhas secreções amareladas. O assoalho e o banco do veículo cobriram-se todos de casquinhas descamadas do meu pé e da minha cabeça. O corpo todo pulsando de dor, e as lesões já estavam quentes, febris.

Do Mato Grosso a São Paulo, passando por Goiás e Minas Gerais e procurando compreender que sacrifício é esse, e como a Dor pode ser transmutada em Liberdade. Foi assim que regressei, na esperança de que as feridas iriam regredir quando eu chegasse a Santo André. Mas eu estava enganada. O processo estava em pleno andamento e bem longe do fim...

(Continua)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Lições sobre a dor - Parte 1

Livrei-me de um peso danado no dia 25/01/2013, quando finalmente terminei de escrever a Tese. E agora sobra tempo para viver e para escrever coisas mais importantes, como as postagens do blog. Mas esse assunto fica para outro dia. Antes, quero continuar do ponto em que parei as aventuras no Mato Grosso, vivenciadas em novembro de 2012. E a continuidade passa por muita dor...

***

Quando cheguei na fazenda, na ponta da Serra do Roncador, meu pé esquerdo estava em retalhos. A pele descamou e ressecou, abrindo fendas que sangravam. Minava da ferida um líquido amarelado, que atraía os mosquitos. Se eu fosse uma pessoa normal, talvez tivesse desistido de ir a uma fazenda onde eu dificilmente teria acesso a serviços de saúde e onde esperava fazer trilhas de horas montanha acima. Mas nunca fui normal...

Eu usava meias o tempo todo, para evitar os mosquitos. Ou melhor, usava meia, no singular: como estava muito calor, decidi cobrir apenas o pé esquerdo. E andava assim, de meia em um pé só e calçando cróquis cor-de-rosa, como se faz em um local em que você não espera, de forma alguma, que sua aparência seja levada em consideração por qualquer pessoa que você venha a encontrar ou conhecer.

Mal cheguei à fazenda, e já estava me coçando. Observava os mosquitos cobrirem de pontos escuros a meia azul do meu pé esquerdo. De repente, surgiu uma moça na qual eu ainda não tinha reparado. Não sei o que foi que me deu a impressão (mais tarde confirmada) de que era uma pessoa muito especial. Talvez fosse o jeito que ela andava e o olhar, que me passavam a confiança de alguém que já conheceu o seu melhor e o seu pior, e agora está sendo simplesmente autêntica. Simplesmente ela mesma... Disse que estava no chalé e teve uma "comunicação" de que eu estaria com algum problema de pele no pé.

Trouxe um pedaço de folha de babosa, aquela planta também conhecida como aloe vera. Ensinou-me a fazer uma espécie de curativo com a planta, fixando-a na pele por baixo da meia. Foi assim que sobrevivi nos próximos oito ou dez dias: enquanto eu usava a babosa, não sentia dor, nem coceira. Chegava a me esquecer da ferida, enquanto andava pelas trilhas montanha acima.

Interessante que, três dias antes, eu havia visitado um casal de amigos. E outra moça muito especial me trouxe uma babosa...

***

Usando babosa, a dor desaparecia durante o dia, mas não deixava de me acompanhar à noite. Aliás, a escuridão e o silêncio a fortaleciam... Eu sentia o pé esquerdo latejar, como se fosse um machucado que alguém limpou com álcool. O corpo todo pulsava, numa agonia viva. Claro que não era possível dormir, e eu morria de inveja do Daniel, que já estava fazia tempo no mundo dos sonhos... Foi assim que passei minhas noites durante pelo menos duas semanas. Talvez umas três ou quatro...

O que fazer quando não se pode dormir, no meio do mato, pulsando de dor? Não há analgésicos, nem televisão, nem videogame, nem computador para distrair a cabeça. Lembrei-me da professora de yoga. Quando fazíamos aqueles asanas complicados, retorcendo todo o corpo, ela dizia: "encontre conforto na dor! Respire!". Resolvi sincronizar minha respiração com o pulso latejante da dor. A dor é só um sentimento como os outros. Como o frio, como o calor, como o tato. Não é melhor, nem pior que outros sentimentos. Então, o melhor aproveitá-la. Respirar, respirar e relaxar.

***

"Uachpoclan raubén uartarréin". Essa frase entrou na minha cabeça, e eu a repetia como se fosse um mantra. Sabia que era parte do Pai Nosso em aramaico, que eu havia aprendido com o Grupo que encontramos na fazenda. Mas não conseguia lembrar o significado, muito menos de madrugada e com dor. Dormi ao som de minha própria voz, que repetia: "Uachpoclan raubén uartarréin" a cada expiração sincronizada com a dor pulsante.

No dia seguinte, é que fui investigar. Se entendi corretamente, a frase significa algo como: "assim como nós liberamos os pecados dos demais". Lembrei-me dos ensinamentos que aprendi com o Grupo: devemos parar de julgar os outros, de falar mal, porque isso os prende aos próprios pecados e acaba por nos prender nos nossos também. O que isso tem a ver com a dor? Talvez muito mais do que eu possa imaginar...

(continua)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Os 14 piores jeitos de viajar de ônibus

1. Ao lado de uma pessoa fedida.

2. Ao lado de uma pessoa gorda.

3. Ao lado de uma pessoa gorda com uma criança no colo.

4. Ao lado de uma pessoa gorda com uma criança irrequieta no colo.

5. Em um ônibus com janelas que não abrem e sem ar condicionado.

6. Em um ônibus com ar condicionado estilo estou-transportando-pinguins.

7. Ao lado de uma pessoa funkeira sem fone de ouvido.

8. Ao lado de uma pessoa bulinadora.

9. Ao lado de uma pessoa bêbada.

10. Ao lado do banheiro.

11. Em um ônibus vomitado.

12. Perto de um menino peidorreiro.

13. Em um banco quebrado.

14. Sem banco, ou seja: de pé em um ônibus de viagem, porque as passagens se esgotaram.

E aí, qual é o pior?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Lições sobre o medo

Muita gente tinha medo de muita coisa lá no Portal do Roncador: a Sra. J. tem medo de gafanhoto, outra senhora tem medo de onça, Daniel tem medo de cobra, eu tenho medo de lugares fechados (que por lá, se traduziam em cavernas). Sim, o cerrado tinha muitos elementos tenebrosos para nós, habitantes da selva de pedras. Mas para alguns habitantes da região, perigoso é viver em São Paulo. Perguntavam sempre dos ataques do PCC, que passavam com frequência nos telejornais, e me pareciam imaginar que basta você sair na esquina de casa para ser assaltado, ou sequestrado para roubarem seus rins.


Maurinho parecia não ter medo de uma coisa, nem de outra. Fazia trilha de bermuda e chinelo. Disseram-nos que ele anda no mato como um índio, sem sequer deixar rastro. Nunca o vi ter medo de cobra, inseto, onça ou qualquer outra coisa. Também não tem medo de gente, como fica claro nas histórias que ele conta sobre suas atuações em fiscalização ambiental. E não tem medo da selva de pedra, pois já esteve em São Paulo e não obedeceu aos conselhos de seu amigo, que recomendou que ele trancasse a janela do quarto ao dormir em uma casa nas quebradas de São Mateus, e que não levasse sua sofisticada máquina fotográfica para passeios de metrô na Praça da Sé. Disse ele que o que tiver que acontecer, vai acontecer e pronto, então não vale à pena ter medo. Mas no meio de uma história sobre um lago dentro de uma caverna, confessou que tem medo de águas profundas e imagina que um bicho pode puxá-lo para baixo.

Bem, é claro que o elemento assustador não está no gafanhoto, nem na cobra, nem na onça, nem na caverna escura e fechada, nem no PCC, nem nas águas profundas... O medo está na gente, e a gente o coloca onde quiser. Geralmente, nosso inconsciente gosta de colocá-lo em elementos pouco conhecidos, como os animais selvagens para o homem urbano e a violência das facções criminosas para o morador de região rural.

E a gente sempre atrai aquilo de que tem medo, talvez para que se torne conhecido. Para nós, bichos de cidade, a natureza arma suas peças e se diverte às nossas custas.

Uma senhora me contou que durante um trabalho de oração, sentiu um "bicho enorme" andar nas costas dela, e ardia muito. Ela ficou desesperada, pensando que bicho seria aquele, mas sem poder verificar, porque estava de mãos dadas com os outros membros do grupo, em plena oração. Ao final, pediu para verificarem o que era e encontrou uma minúscula formiguinha. Quando ela me contou, imaginei um saci-pererê escondido na copa de uma árvore, gargalhando sem parar.

Mas a história mais legal foi a da famosa Sra. J., que tinha medo dos gafanhotos. Enquanto ela esteve por lá, encontrávamos nuvens de gafanhotos por toda a fazenda, e os bichos batiam no rosto da gente, nas mãos, pernas, pés, nariz, olhos, acasalavam sobre a lona da nossa barraca, entravam nos copos de suco e nas panelas de sopa, pulavam no nosso prato de comida e a gente simplesmente tirava os gafanhotos e continuava comendo. A Sra. J. passava o tempo todo assustada e dizendo: "mamãe! mamãe!", enquanto dava saltinhos. Ela partiu aos primeiros raios de sol de segunda-feira. No jantar do mesmo dia, praticamente não víamos gafanhotos na cozinha. Pensando melhor, eles haviam sumido da fazenda toda. Pareciam ter se recolhido na selva. E o saci-pererê dormiu satisfeito lembrando de sua travessura, com a sensação de missão cumprida!


Imagem: André Koehne (http://en.wikipedia.org/wiki/File:Saci_perere.jpg)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O Rio do Ouro

No dia seguinte, fomos para outra trilha, a do Rio do Ouro. Saindo da fazenda e pegando a BR 158, seguimos por uma estradinha de terra na vila de Vale dos Sonhos, passamos do lado do cemitério e seguimos adiante. Subimos a montanha, continuamos rodando por mais uns bons quilômetros, até chegarmos a uma fazenda onde compramos mussarela fresca e comemos muitas amoras.

Amora, para mim, lembra muito a Escola Cooperativa Curumim, onde estudei dos quatro aos sete anos de idade. Era uma chácara, as salas de aula eram chalés, tinha um pomar e uma amoreira belíssima. Eu e meus amigos gostávamos de subir na amoreira durante o recreio, ficávamos com a boca e os dedos roxos, sem contar as roupas.

Esse lugar em que paramos era a sede da fazenda onde fica o Rio do Ouro. Obtivemos permissão para prosseguir e continuamos andando de carro, agora pelo meio dos pastos, e até por cima de rochas. Por fim, chegamos a um lugar onde Maurinho disse que poderíamos estacionar e seguir a trilha a pé.

Logo vimos a nascente. Fomos descendo por trilhas e pedras, até chegarmos em um dos locais mais impressionantes que já conheci. As fotos não mostram muito bem o panorama, então fiz um vídeo (muito amador, é claro), que anexo a seguir.

video

O solo parece lunar, de tantas crateras. Na verdade, creio que as rochas são magmáticas de formação relativamente recente, e os geógrafos e geólogos (Samuel?!) me corrijam se eu estiver errada. A cachoeira corre pela fenda entre as pedras, caindo num abismo e continuando, lá embaixo, o rio. Mais à frente, a água forma uma represa natural, um lago calmo e de água transparente. Mesmo nas regiões mais profundas, é possível enxergar a terra por baixo da água. No outro lado do lago, uma pequena praia de areia.

A água é simplesmente deliciosa. O lago é bastante profundo em alguns pontos, não consigo imaginar o quanto, mas acho que caberiam duas ou três de mim empilhadas e submersas. Maurinho nos conduziu pela fenda, o local por onde corre a água que cai das cachoeiras. Claro que nesse ponto, não era possível levar a máquina fotográfica, a menos que eu tivesse capa a prova d'água. Uma pena.

Lago visto de cima

Fomos adentrando pelo meio das rochas, ora nadando, ora subindo pelas pedras. Em alguns pontos, encontramos lindos peixinhos. Em outros, aranhas gigantescas subiam pelo paredão de pedra. Não costumo ter medo de aranhas, mas fiquei bastante atenta para não encostar acidentalmente em nenhuma delas.

Outras pessoas do grupo estavam conosco, inclusive uma das senhoras. Achei bastante interessante quando ela perguntou: "mas espera aí, isso não é o trabalho?". Maurinho respondeu: "isso também é o trabalho!". Mas ela se referia às orações, que seriam feitas na parte rasa do lago. E acabou retornando para lá, pouco depois. Achei engraçada a pergunta, porque do meu ponto de vista, tudo é "o trabalho". O que está fora é como o que está dentro, e entrar em trilhas desconhecidas me coloca em contato com o meu Eu, tanto quanto orar. Mas orar me põe em contato com algo conhecido, enquanto entrar em fendas de pedra por onde correm águas de cachoeiras me põe em contato com o desconhecido. Bem, por isso mesmo é que dá medo, certo? Não importa, o gosto da aventura e da descoberta superaram qualquer receio que eu pudesse estar sentindo.

Em um ponto bem adiante, Maurinho nos mostrou que a pedra formava uma caverna. Havia uma janelinha, por onde ele entrou. Eu era a próxima da fila, mas cavernas são meu ponto fraco. Percebi que a altura era tal que Maurinho conseguia ficar em pé, e ainda sobrava um vão entre a cabeça dele e o teto rochoso. Percebi que era bem arejada. Mas não me senti pronta para enfrentar os sentimentos claustrofóbicos, principalmente considerando que depois que as outras pessoas entrassem, eu não iria conseguir sair rapidamente, se precisasse. Fiquei na janela, olhando meus amigos, que destemidamente curtiam a nova descoberta. Interessante que na parte de baixo da caverna, havia um buraco submerso na água. Entrar por ali é praticamente impossível, por causa da correnteza, mas as pessoas saíram por lá, dando um pequeno mergulho, e imagino que essa sensação deve ter sido maravilhosa.

Voltamos para o lago, quase que sem esforço, porque a correnteza ia nos empurrando de volta. Os colegas que não sabiam nadar ou que por outro motivo não quiseram entrar na fenda nos aguardavam para o trabalho à moda deles. De mãos dadas, oramos, cantamos mantras e sentimos o contato com a água, com o sol, com a natureza. Legal também sentir o contato com o grupo, com as pessoas que estavam lá e que nos acolheram, sem preconceitos, em seu trabalho.

Lago visto de baixo

Ainda seria possível descer ao longo do rio, mas ninguém tinha lembrado de levar comida e todos estavam com fome. O grupo decidiu voltar. Porém, quando subimos, Maurinho percebeu que faltavam algumas pessoas, que eram de outro grupo, também estavam conosco e haviam descido a trilha. Foi buscá-los e ficamos esperando lá em cima.

Sentei para ver a cachoeira e decidi meditar. Fiquei olhando para as águas, fui me tornando muito calma, tranquila, serena. Algumas imagens apareceram nos meus olhos, que a essa altura já estavam fechados. A luz do sol nas pálpebras formavam mandalas. Depois, vi algumas serpentes, ou seriam larvas? Esverdeadas, me lembravam um sonho que tive meses atrás... E uma voz me disse que o problema da ferida que tenho no pé seria "o apego à doença. Desapegue-se... deixe ela ir... como as águas, como a cachoeira, deixe fluir...".

Retornamos à fazenda, compartilhamos novamente de uma boa refeição vegetariana, no meio dos gafanhotos e besouros, que surgiam em grandes nuvens. Estávamos bastante cansados, mas também alegres, serenos. Senti que se ainda havia em mim algum traço da habitual ansiedade, ele dormiu naquele dia e só acordou vários dias depois. E findou o segundo dia aos pés do Roncador.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Pássaro passageiro


Um pássaro passageiro,
um passo no espaço,
passeando,
eu peço.
Um ponto, um compasso,
eu passo.
Estou de passagem,
eu peco.
Meu pé descalço,
bagaço.
Muita bagagem,
bobagem.

Uma parte está lá,
estou partida.
Jogar outra partida?
Eu passo.
Estou de partida.
Cada encontro com outra parte
é um parto.
Por isso parto.
Busco um porto,
é perto?
Faz parte.

É fogo,
não dá folga
meu pé no fogão.
Precisa afago,
fogueira fagueira,
figueira, figa, fuga,
fé.

Medito no ardor,
conforto na dor.
Leite de pedra,
a unha da fera
raspando o pé
da montanha ferida.
Estou de férias.

O fogo que arde
neste fim de tarde
transmuta a Dor em Liberdade.

(É um parto.)

Um pássaro passageiro
comprou passagem,
um passo no espaço,
neste compasso
eu passo.
Estou de passagem...

Amén!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

As primeiras lições do Portal do Roncador

No dia seguinte à nossa chegada a Barra do Garças, fomos ao Parque Nacional da Serra Azul, onde já estive em 2010. Lugar lindo, seja pela vista do alto da serra, ao lado do Cristo Redentor, ou pelas trilhas e cachoeiras. O tempo estava meio nublado, nem levamos a máquina fotográfica para a trilha, com medo de chover. Mas mesmo sem sol, o rio não estava gelado e pudemos curtir umas quedas d'água nas costas.

Na volta, custamos a achar um restaurante aberto. Tentamos novamente compreender o fuso horário, que é bem confuso (ver post explicando os horários na região do Roncador), e conseguimos concluir que era preciso atrasar o relógio em uma hora, pelo menos na maior parte das situações. Também concluímos que talvez os restaurantes fechem para o almoço. Visitamos um amigo à noite e decidimos, por fim, seguir para o pé da Serra do Roncador.

As formações rochosas características do início da Serra do Roncador

Nesse lugar muito especial há o Portal do Roncador, onde o Maurinho recebe viajantes de todos os cantos. Esse é um local que recomendo para algumas poucas pessoas. Penso que, para ir para lá, é fundamental preencher alguns requisitos. O principal é gostar de mato. Mas também é preciso que a pessoa não entre em pânico facilmente; não se importe com luxos como ventilador, ar condicionado, chuveiro quente, arrumadeira, camareira, copeira...; não se desespere com a presença dos insetos, mesmo que sejam muitos; não seja ansiosa a ponto de querer antecipar as situações que irá enfrentar, porque é preciso viver os momentos; não se importe com os longos silêncios, nem com o rebuliço das maritacas e com a sinfonia ininterrupta dos grilos e sapos durante a madrugada; não faça questão de bebidas alcoólicas quando sai para viajar, porque isso não é permitido no local; não tenha medo da profunda escuridão da noite... enfim, é preciso que a pessoa vá com vontade de permanecer alguns dias consigo mesma, do jeito que é, sem máscaras ou muletas.

Se você acredita que se encaixa nos requisitos, é muito fácil de achar o local. Basta seguir pela BR 158, no trecho entre Barra do Garças e Nova Xavantina. Passando o povoado de Vale dos Sonhos, a fazenda fica poucos quilômetros a frente, bem embaixo das formações rochosas inconfundíveis da figura acima.

Lá chegando, encontramos pessoas ligadas a um grupo esotérico, que estavam em retiro. Engraçado que faz cerca de um ano que encontramos pessoas desse grupo em vários locais. No final da tarde fizemos com eles um "trabalho", coisa que para eles parece que significa orar e para mim, significa caminhar pela trilha e entrar em contato comigo mesma, através da natureza.

A nossa casa

O grupo era bastante diversificado. Tinha homens, mulheres, pessoas mais jovens, mais idosas e até um incrível garoto. De forma geral, as pessoas caminhavam tranquilas. Mas a senhora J. parecia apavorada com o desafio, e não conseguia dar um passo sequer sem ser praticamente arrastada pelo guia ou por outra pessoa do grupo. Logo percebi que o que a impedia de prosseguir não era uma dificuldade física, porque bastava lhe dar a mão para que caminhasse sem problemas. A questão era a falta de confiança, o medo de ingressar na trilha, o pavor que sentia ao dar cada passo para o meio do mato e da montanha.

Outra característica inesquecível da senhora J. era o medo dos gafanhotos. Esses animais apareciam em nuvens pela fazenda, e batiam em nós o tempo todo: nas pernas, braços, rosto, olhos... com tanta força que compreendemos de onde tiraram a modalidade de kung fu louva-a-deus! Fora serem os bichos mais chatos que encontrei por lá, superando até mesmo os infelizes pernilongos, eles não mordiam e nem machucavam ninguém. Mas a senhora J. perdia a cabeça quando se aproximavam, dando engraçados gritinhos de "mamãe! mamãe!".

Claro que os gritinhos, as constantes paradas para descansar e as frequentes perguntas de "já estamos chegando? Falta muito?" incomodavam um pouco. Mas percebi em mim um pouco de admiração pela senhora J. Ela era a que mais estava se enfrentando naquele momento. Apesar de todos os medos e da idade avançada, se dispôs a entrar na trilha para fazer um trabalho. Acho que ela não sabe que o trabalho maior foi ter se enfrentado.

Eis que, no meio do caminho, nos deparamos com uma belíssima cascavel! Grande, rajada, vagarosamente deslizando por uma rocha. O guia Maurinho, que ia na frente, imediatamente nos pediu para parar. De longe, fiquei admirando a belíssima serpente, que parecia nem ter notado nossa presença. A essas alturas, se eu estivesse sozinha, certamente daria meia volta e iria embora para a fazenda, antes que ela resolvesse sentir o meu cheiro na ponta daquela língua flamejante. Mas Maurinho se aproximou, junto ao maravilhoso garoto, e tiraram fotos bem de perto. De longe, também aproveitei para tirar fotos, aproveitando o zoom da câmera. Em seguida, Maurinho fez algo que, do meu ponto de vista, é ainda mais espantoso: mantendo uma certa distância, atirou alguns pedaços de pau e pedras, com um certo cuidado para não machucá-la ou matá-la. Afinal, nós é que entramos na casa dela, e não ela na nossa, certo? Ele apenas derrubou a cobra da rocha, para o outro lado, e ainda olhou para ela com cara de deboche. Em seguida, mandou que passássemos pela trilha. Me borrando de medo, passei correndo e sem olhar para trás, nem para os lados.

A cascavel

Prosseguimos na trilha e passamos pela pedra popularmente chamada de "dedo de Deus". De perto, ela me pareceu um enorme obelisco, como se tivesse sido fabricada por mãos humanas. Lembra muito as construções em pedra feitas pelos incas, no Peru. Mas não paramos por lá, subimos mais um pouco, até uma pequena caverna.

Lidar com uma cobra, para mim, é coisa pequena perto de uma caverna. Tenho claustrofobia e quando chego em um lugar fechado, começo logo a pensar em um monte de bobagens: as paredes vão se fechar comigo dentro, vou morrer sufocada, algo vai obstruir a saída e vou ficar presa aqui dentro, vai ter um terremoto, etc. O grupo decidiu que aquele seria um bom lugar para o trabalho. Enfileiraram-se e dei um jeito de ficar bem perto da saída. Seguiram-se orações à Mãe Divina, os mantras... E participei da minha maneira. Todas as formas de se chegar à divindade são válidas, tudo depende da (in)consciência.

A descida foi por uma trilha um pouco diferente, algo que por lá se chama "risadinha". Não, não é um pequeno sorriso, é um caminho pela serra, íngreme e cheio de pedregulhos redondos, como se por lá já tivesse passado algum rio. E eu de papetes, tentando manter o equilíbrio sobre aquelas pedrinhas redondas! O sol já se punha, a trilha estava cada vez mais escura e algumas pessoas começavam a sacar as lanternas. Não tenho ideia de como a senhora J. desceu a trilha, porque eu estava muito preocupada em tentar não rolar de vez lá para baixo. Bati o traseiro no chão umas três ou sete vezes, grata por ele ser bem recheado.

Pôr do sol visto da risadinha

Por fim, chegamos à fazenda, onde tomei meu desejado banho frio e fui à cozinha compartilhar do jantar vegetariano feito pelo grupo. Jantar repleto de besouros e gafanhotos, que batiam no nosso rosto, pulavam para dentro dos pratos e das panelas, enquanto a senhora J. gritava: "mamãe!" e dava saltinhos, e eu sorria por dentro. Depois, fomos à nossa barraca, que já estava armada embaixo de uma mangueira e ao lado de alguns belíssimos cogumelos, cercada por besouros e gafanhotos que insistiam em bater fortemente contra a lona, em busca da luz da nossa lanterna. Foi a primeira noite ao pé da Serra do Roncador, em contato muito próximo com o solo. Escuridão, calor, uma excelente companhia ao meu lado e a sensação de que os músculos todos estavam relaxados. Boa noite, Roncador!