quinta-feira, 21 de outubro de 2010

San Matias - Parte I

San Matias, 19 de outubro de 2010

Estou enfrentando a primeira dificuldade na viagem e tenho a impressão de que após sair dela, o resto será muito simples. Deitada na cama do hotel em San Matias, tento me distrair para esperar o tempo passar. A cidade toda está fechada, pouquíssimas pessoas nas ruas. Nenhum ônibus chega, nem sai daqui.

O que aconteceu? Também não sei com muitos detalhes. Parece que tem algo a ver com uma ponte que querem que construam em algum lugar entre San Matias e Santa Cruz de la Sierra. Como o governo não tomou providências, o povo se revoltou e bloqueou as estradas.

Para chegar até aqui, peguei um micro-ônibus em Cáceres, com destino a Corixa. Avisaram-me que o bloqueio aconteceria após meio dia. “Depois desse horário, ninguém entra e ninguém sai”, disse ele. “Mas dá tempo de passar pelo ponto de bloqueio antes disso?”, perguntei. “Dá, claro que dá tempo sim. O micro sai daqui 9h, tem tempo de sobra”. Arrisquei.

O ônibus já saiu meio atrasado. Parou para pegar e deixar muita gente no caminho. Diversidade de bagagens: sacolas de muamba, 30 kg de arroz, sacos enormes de ração para frango, uma sacola cheia de mangas, etc. Achei que trariam isso tudo para a Bolívia, mas depois percebi que a maior parte das pessoas fica nas fazendas no meio do caminho. Estamos na região do pantanal. Na estrada, eu via as áreas alagadas, garças pescando, e em volta delas pasto, gado. Uma fazenda atrás da outra.

Bolivianos e brasileiros conversavam em portunhol e comentavam que o acesso a Santa Cruz já estava fechado e talvez não desse nem para chegar a San Matias. Fui o caminho todo apreensiva. Quanto mais me aproximava da fronteira, mais a tensão aumentava.

Ruas de San Matias

Chegamos. De acordo com os passageiros e com diversos blogs que já li, muitos taxis costumam aguardar na fronteira para levar passageiros a San Matias, vilarejo que fica a 7 km de distância, onde é possível pegar ônibus para Santa Cruz. Além disso, San Matias também tem comércio e muitos mato-grossenses fazem compras aqui. Desta vez, nenhum táxi aguardava. Vi que as pessoas prosseguiam para além da fronteira caminhando e resolvi segui-las. Foi assim que saí de Mato Grosso da mesma forma que entrei: a pé e sem saber ao certo que rumo tomar.

Alguns metros para frente, ouvi: “vá a San Matias?”. O rapaz era taxista e ofereceu-se para levar-nos. O taxi estava parado logo depois do bloqueio. “Pero ellos van a dejarnos pasar?”. “Si, las personas son libres para ir y volver, solamente los carros están bloqueados”. De fato, passamos sem problemas pelo bloqueio. Entramos no taxi: eu, uma outra brasileira e dois bolivianos, além do motorista. Em vez de ir pela estrada principal, o taxista pegou uma estrada secundária, pelo meio do mato. Fiquei pensando que eu estava totalmente nas mãos dele. Não sabia ao certo onde estava, muito menos o caminho e ele poderia fazer o que quisesse. Mas havia remédio? O jeito era confiar. Chegamos a San Matias sem contratempos.

Acompanhei a outra brasileira, que já tinha estado aqui uma vez, para chegar ao centro, onde o taxista estava proibido de passar. Comércio fechado, ruas vazias. A moça veio para fazer compras e não houve outra alternativa a ela, senão voltar ao Brasil sem as mercadorias. Ela ficou menos de meia hora na cidade. Disse: “aqui a gente não tem proteção nenhuma, não me sinto bem. Vou ver se acho aquele taxista, se ele me leva para a fronteira de novo. O micro só sai 2h da tarde (eram mais ou menos 11h), mas prefiro esperar lá, me sinto melhor estando entre brasileiros”.

Migración cerrada

Entendi perfeitamente o que ela dizia. A atmosfera da cidade era ameaçadora. Tudo fechado, as poucas pessoas que passavam nos lançavam olhares estranhos. Não achei nada aberto, nem mesmo um bar, uma padaria. Paralização, na Bolívia, significa parar mesmo! Senti vontade de voltar também, mas algo em mim falou mais alto: se vim até aqui para conhecer a Bolívia, é preciso aproveitar cada oportunidade. Mesmo que seja para conhecer um vilarejo minúsculo como este. Resolvi ficar até aparecer o primeiro ônibus para Santa Cruz. Arranjei um hotel, aquele que me pareceu menos sujo e detonado. O que não quer dizer que seja limpo e arrumado, longe disso. Não tem toalha, as roupas de cama meio encardidas parecem ter sido compradas há 50 anos numa loja de segunda categoria. Mas tem banheiro no quarto, com chuveiro frio, o que não chega a ser um problema graças ao sol escaldante daqui.

Prefeitura de San Matias


O próximo desafio foi arranjar o que comer. A cidade inteira fechada, nenhum restaurante, nem mesmo um boteco. Supermercados, farmácias, igrejas, lojas... tudo fechado! Eu já estava ficando meio tonta, quase desistindo. Tinha apenas uma garrafa de água, sabia que passaria sede se ficasse lá, porque nem água tinha como comprar. Estava quase desistindo, querendo voltar para Cáceres e ver se teria mais sorte no dia seguinte. Foi quando um taxista me abordou: “Quieres un taxi?”. Não sei qual foi a parte minha que respondeu: “No, gracias. Quiero solamente comer alguna cosa. Usted sabe dónde puedo comer algo?”. “El centro está todo cerrado. Pero usted fue a El Pantanal? Es un restaurante en la plaza 22 de Septiembre. Yo no sé si también está cerrado.” Fiz minha última tentativa. Se não funcionasse, estava decidida a ir a Cáceres. Mas, seja isso bom ou ruim, El Pantanal estava com a porta entreaberta. Parei, olhei lá dentro e vi um buffet cheio de comida. O restaurante é uma churrascaria cujos donos são brasileiros, portanto a comida era próxima da que estou acostumada. Passava longe de ser a melhor comida do mundo, mas comi muito! Pela fome e por não saber se encontraria algo para comer mais tarde.

Incrível como a fome altera a cabeça da gente. Depois de comer, consegui ficar calma o suficiente para observar a cidade. Fui à praça, vi que ela até que é bonitinha. A igreja tem um padrão todo rústico, interessante. Mas por pura falta de fazer, voltei para o hotel para escrever um pouco, relatar essa nova e assustadora experiência. Adormeci.

Um comentário:

Arnaldo Cabrera disse...

Puchaa.... me da pena tu opinion, no sabes nada de san matias y peor de Bolivia, intenta revajar al pais que tanto ellos presisan para poder formarce. Estudie mas su caso personal y despues reflexione el para que nesecita venir a Bolivia.