domingo, 26 de dezembro de 2010

Encontros e reencontros - Parte I

O bar do Hostel The Point era um ponto de encontro entre turistas de toda parte que se hospedavam no hotel, oferecendo baladas de vários estilos, jogos, campeonatos, comida e, claro, muito álcool. A principal vantagem, a meu ver, era a conveniência: eu ia lá de bermuda e chinelo, sem bolsa, sem documento, sem dinheiro, porque anotava o consumo na caderneta e pagava no check out, e quando queria dormir era só andar (ou, quem sabe, me arrastar) alguns metros até o meu quarto. Foi lá que comecei a aprender a dançar salsa, que comi alguns lanches quando a fome apertou e o cansaço não permitiu andar até a Plaza de Armas e que fiz alguns amigos, como no episódio que vou contar a seguir.

Eu estava saboreando uma Cusqueña, cerveja pela qual me apaixonei logo no primeiro dia, quando um rapaz de olhos e cabelos claros, pele bronzeada, chamou-me para jogar sinuca.

- I'm sorry, I'm very bad on that.
- There's no problem! I just need a partner.
- Ok, but I don't know how to play.
- I can teach you the rules.
- I know the rules. The problem is I can move the ball on the right direction OR beat it strongly. Doing both things at the same time is impossible to me.
- No problem, we're playing for fun. Let's play with us, I need a partner.

Bar do Hostel The Point


Aceitei o convite mais para me entrosar do que porque, de fato, estivesse afim de jogar. O rapaz estava acelerado, parecia estar sob efeito de algo mais forte que as Cusqueñas que eu tinha visto em suas mãos. Logo comecei a conversar com a dupla rival, também em inglês, até que, após uns cinco minutos de conversa, lembrei de perguntar o nome de um dos rapazes e deu-se o diálogo já relatado no post Uma tarde em Lima:

- Márcio, and you?
- Márcio from Brazil?
- Yes, where are you from?
- Brazil too.
- Ah, que bom, vamo começá tudo dinovo, cumé que cê tá?

Obviamente, eu e meu parceiro perdemos a partida, porque eu sou mesmo um zero à esquerda em qualquer jogo que exija coordenação motora e raciocínio espacial. Pelo menos ele nunca poderá queixar-se de que não avisei. Mas esse episódio me rendeu alguns amigos: Márcio e seus dois companheiros de viagem, com quem eu encontrava pelos corredores e pelo bar do hostel. Por pouco tempo, porque eles logo partiram para outras cidades, como Arequipa e Puno.

***

Dias depois, em Lima, após comer um almoço um tanto quanto indigesto perto da Plaza 2 de Mayo, vi um McDonald's e fiquei com vontade de tomar sorvete para tirar o gosto da boca. Foi então que, no caixa, um rapaz me chamou:

- Gabriela?
- Sí... yo lo conosco?

Era um dos amigos de Márcio que, coincidentemente, comprava sorvete no mesmo lugar e na mesma hora que eu. Fiquei feliz por arranjar companhia, porque Lima é uma cidade grande e a sensação de desamparo ao me virar sozinha era maior que em Cuzco ou Águas Calientes. Logo eu já estava reentrosada, resolvemos ir à orla e começamos a bater papo enquanto tomávamos nossos sorvetes.

No Peru, até o McDonald's vende pollo!


- E aquele rapaz da sinuca... tava muito loco hein? - Comentei.
- Tava não... ele é louco.
- Daonde ele é?
- Dos Isteitis. E tá no hostel há cerca de um mês.
- Nossa, viagem longa...
- Não era pra ser... Acontece que ele perdeu o passaporte e ficou preso no hostel. Enquanto não tiver o documento, só pode sair de lá pra ir até a embaixada resolver esse problema.
- Nossa! Que situação! Ele está há um mês trancado no hostel?!
- Sim, e sem dinheiro. Tem dormido no sofá lá embaixo, pra não ter que pagar um quarto.
- E como ele arrumou aquelas Cusqueñas?
- Ele pede, os hóspedes sempre pagam umas e outras. Aquelas que ele tomou fomos nós que pagamos. Ele começou a pedir mais uma, mais uma, até que eu disse, cara, não dá... Ele ficou meio bravo...
- Mas também, ele disse que o passaporte já tá pronto faz uma semana. Ele que não quer ir buscar.
- Um cara desses, mano, pode ser que nem tenha perdido o passaporte. Acho que ele mesmo é que deu um jeito de sumir com ele. Deve ter jogado na privada e dado a descarga. O cara tá curtindo ficar lá no hostel, isso sim...

***

Já na rua, encontramos uma cabine telefônica e eles resolveram parar para entrar em contato com as respectivas famílias e namoradas. Meus pais estavam inacessíveis naquele dia, então aguardei do lado de fora. Quando o último rapaz apareceu...

- Falei com ela.
- E aí?
- Tá brava porque não liguei mais. (Ria) Falei que eu tava com vocês, que saímos pra beber ontem, hoje viemos pra Lima, só deu tempo de ligar de novo agora. Pô, deixa eu aproveitar, né? Depois do que ela me disse ontem, tenho que aproveitar essa viagem o máximo que puder!

Vendo minha cara de ponto de interrogação, um deles explicou:

- Ele vai ser pai! Recebeu a notícia da namorada, ontem!
- Ah, que notícia boa pra se receber no Peru, por telefone, hein?
- Bom, eu já tava em Puno... Fui pra um bar na beira do lago e enchi a cara pra comemorar!

Eu sabia que, voltando ao Brasil, minha vida estaria completamente mudada: novo trabalho, nova cidade, algum tempo na casa da mãe, muitas coisas para redefinir. Agora conhecia um outro para quem a viagem provavelmente também marcava a intersecção entre duas fases tão diferentes de vida...

***

- E como foi em Nazca? - Perguntei.
- Da hora lá... Tem uma torre onde dá pra subir e ver algumas formas no chão. Mas pra ver tudo, só de avião. O Bruno pegou um aviãozinho teco-teco pra ver as linhas.
- Sério?! Que legal!
- Putz, dá um cagaço, isso sim! - Disse Bruno.
- Hahaha, mas vale a pena, não?
- Ah, já fui uma vez, não quero nunca mais! O cara fica fazendo umas manobras loucas, dá mergulho, vira de lado, de ponta cabeça... Cara, quase gorfei... É pra doido aquilo!
- Hahahaha! E vocês, não foram?
- Ah, cara... quando vi o preço já desanimei um pouco... e depois, falando com um piloto, perdi a coragem de vez...
- Por que, o que o piloto disse?
- Tava tendo uma manifestação pra fechar aquele aeroporto, porque recentemente morreram quatro franceses num voo desses em Nazca... Parece que logo que decolaram, bateu um vento de cima pra baixo que atirou o avião no chão, de uma altura de uns 20 metros, mas com tanta força que não sobreviveu ninguém. Daí o piloto ficou falando que é besteira isso, porque o aeroporto é seguro. Claro que por volta das 11 horas da manhã tem vento, ele não faz mais voo nesse horário, mas no resto do dia é sossegado, é só ter cuidado... É raro morrer gente, antes desses franceses só teve uns dois ou três acidentes no ano... Eu hein, ele acha pouco?!
- Pois é, eu vou ser pai, tenho que pensar nisso agora, né?!

Fiquei pensando que mesmo com esse risco, se eu tivesse chegado a Nazca, eu pegaria o aviãozinho teco-teco... Certas alegrias na vida vêm acompanhadas de algum risco. Fiquei surpresa com esse pensamento, que jamais teria passado pela minha cabeça alguns meses atrás...


As linhas de Nazca, que só formam um desenho compreensível quando vistas do alto

 ***

Já no aeroporto de Lima, onde passei momentos difíceis, conforme já expliquei em O complicado retorno ao Brasil, pensei naquele rapaz do Hostel The Point. Ele estava há um mês sem dinheiro e sem documento, preso em um albergue, dormindo num sofá, comendo e bebendo o que lhe davam alguns turistas bondosos em troca de uma boa conversa e umas partidas de bilhar. E pelo visto, gostava dessa vida, já que não demonstrou interesse em ir buscar o documento que estava pronto.

Na verdade, é possível sobreviver com muito pouco. É perfeitamente possível. E se eu não me desesperasse, poderia até curtir aquela noite no aeroporto de Lima, quando todas as seguranças me foram removidas de uma só vez... ou não, uma garantia eu ainda tinha. De repente, num momento Poliana, pensei: estou contente, porque pelo menos tenho passaporte!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um piolho na cabeça de um puma: Sacsayhuaman

Por 25 soles, peguei um microônibus na Plaza de Armas para fazer o city tour, com direito a guia explicando cada lugar por onde passamos. O passeio incluía diversos pontos turísticos e, como cada um deles tem curiosidades muito específicas, vou contar em posts separados. Falarei agora sobre Sacsayhuaman.

Trata-se de uma fortaleza construída pelos incas, com rochas gigantescas trazidas de montanhas distantes. Dizem que quem começou a construção foi o inca Pachacuti, por volta de 1430 dC. O trabalho durou em torno de 50 anos.

Uma curiosidade sobre Cuzco é que a cidade foi planejada para ter o formato de um puma, símbolo do poder temporal. Os incas acreditavam na existência de três mundos, cada qual simbolizado por um animal: o mundo subterrâneo (dos mortos) era representado por uma serpente, o terreno (dos homens) por um puma e o céu (dos deuses) por um condor. Claro que agora fica mais difícil de visualizar o formato da cidade, que já cresceu e se espalhou, mas dizem que o projeto da cidade era mais ou menos assim:

O projeto original de Cuzco, em formato de puma

Nesse contexto, Sacsayhuaman ocupa a posição indicada com uma letra E no mapa: é o alto da cabeça do puma, ou seja, o centro de controle, o comando, o que tem a ver com a função política e militar que tinha a fortaleza.

A cabeça de um puma, assim como a dos gatos, é ligeiramente enrugada e até isso os incas tentaram reproduzir: Sacsayhuaman tem três muralhas (cada uma representando um dos três mundos) em ziguezague, que vistas de cima, lembram essas rugas felinas.

Infelizmente, o que vemos atualmente é cerca de 20% do que já existiu um dia. Os espanhóis destruíram a maior parte dessa obra arquitetônica, usando as pedras para construir casas e catedrais. A Igreja Matriz, localizada na Plaza de Armas, é uma das que foram construídas com pedras retiradas de Sacsayhuaman.

Diante da imponência do local que, um dia, já foi ainda maior, posso dizer que eu era, ali, não mais que um piolho na cabeça do puma.

As três muralhas em ziguezague

Subi diversos degraus, meio tonta por causa do soroche, sentindo os pés pesados como se sobre eles estivessem aquelas pedras que os incas usaram para a construção. Mas valeu a pena, porque lá no alto das muralhas há um mirante, do qual se pode enxergar toda a cidade (e descobrir que, de fato, o formato atual passa bem longe de ser um puma). Foi interessante ver de cima os locais por onde eu já havia passado, como a Plaza de Armas, que de repente parecia minúscula.

Plaza de Armas, vista do mirante de Sacsayhuaman

Cada pedra usada na construção tem de ser polida para que se encaixe nas outras. Os incas fizeram isso com uma precisão intrigante, pois nos encaixes entre as pedras não se consegue passar, nem mesmo, a lâmina de uma faca. Algumas pedras, por isso, assumem formatos não convencionais, como a pedra de onze ângulos. Pela foto a seguir vocês podem estimar o tamanho da pedra, considerando que eu tenho 149 cm de altura. Não consigo sequer imaginar o peso que ela tem, muito menos como foi que um grupo de incas trouxe uma rocha tão grande desde o alto de uma montanha íngreme.


Pedra de onze ângulos

Outra curiosidade a respeito de Sacsayhuaman é que nesse local, em todos os solstícios de inverno (dia 24 de junho), celebra-se o Inti Raymi, festival relacionado com o culto do deus sol (Inti). Nessas ocasiões, as pessoas sobem até a fortaleza e dançam as danças típicas, realizando toda a ritualística que permaneceu na tradição.

Conforme eu ia aprendendo sobre as histórias do local, os costumes, as tradições, algo em mim começava a se encaixar, quase tão perfeitamente quanto as rochas polidas pelos incas...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Potencial de vinho


Era uma sala de aula pequena, com uma lousa verde dessas antiquadas em que se escreve com giz. Mas não era uma sala de escola, e sim de uma clínica. Lá eram atendidos os adolescentes infratores que cumpriam medidas sócio-educativas e eu, como psicóloga, resolvi acompanhar uma das aulas para ver como era. Uma colega, assistente social, começou a reunião.

- Como este é nosso primeiro encontro, quero que vocês se apresentem. Digam o nome, a idade, uma coisa de que gostam e que língua vocês falam.

Que língua vocês falam? Isso é engraçado. Acho que vou dizer que falo esperanto, pensei.

Os adolescentes se apresentaram. Eram uns cinco ou oito, quem sabe dez. Chegou a minha vez de falar e fiquei meio perdida.

- Meu nome é Gabriela, eu gosto de... do que eu gosto mesmo?

Alguém apareceu na porta e disse à assistente social que havia um telefonema esperando por ela. Os adolescentes dispersaram e fiquei meio chateada de não poder me apresentar. Nem falei que a língua que falo é esperanto...

Do outro lado do quintal (sim, a sala era em um quintal), havia uma escada e vi descer por ela uma senhora muito gorda, com avental, levando nas mãos uma bandeja enorme, cheia de cachos de uva. Era grande mesmo a bandeja, devia ter, assim, um metro e meio de comprimento por meio de largura e as uvas eram tantas que formavam uma montanha. A senhora ia descendo, passinho por passinho, meio desengonçada e cheguei a me levantar pensando em oferecer-lhe ajuda. Tarde demais: a gorda balançou, bambeou, rebolou e pimba! Caiu no chão, derramando uvas para todos os lados. Algumas vieram parar bem nos meus pés e fiquei pensando que, ao pisá-las, sem querer eu fazia um princípio latente de vinho.

Belisquei uma uva, fui colocá-la na boca, mas meu pai, que misteriosamente surgiu na minha frente, segurou minha mão.

- Filha, essa uva acabou de cair no chão, é melhor lavá-la, de preferência colocar algum produto para desinfetar, como água sanitária.

Não comi a uva, mas fiquei pensando: que bobagem! Ele não sabe que não tenho medo de doença, que não ligo de comer frutas que caíram no chão.

Quando o despertador tocou, tive muita vontade de rir da cena da mulher gorda balançando e caindo na escada, desengonçada como uma foca. Mas levantei rapidinho, porque era hora de ir trabalhar naquele lugar onde são atendidos alguns adolescentes infratores que cumprem medidas sócio-educativas...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Cometa atrasado e desorganizado

Tempos atrás, publiquei A famigerada rodoviaria de campinas, falando sobre incidentes que vivi numa única viagem curtíssima de Campinas até São Paulo. Já naquele post, queixei-me da Viação Cometa. Nos finais de semana seguintes, continuei tendo problemas com essa empresa. Vou publicar aqui um resumo do que tenho passado com essa tosca companhia de ônibus que monopoliza o trecho Campinas-São Paulo.

Primeiro incidente: foi aquele que já relatei. Ao chegar ao guichê, descobri que o próximo ônibus sairia dali uma hora (o normal são uns 10 ou 15 minutos de espera). Depois, descobri que estavam sem Sistema (vejam minha opinião sobre o maldito Sistema em O complicado retorno ao Brasil). Além de não poder usar cartão de débito, a passagem foi preenchida a mão. Acontece que as atendentes venderam passagem para um horário que não existia, o que me obrigou a brigar para conseguir horário no próximo ônibus, que sairia vinte minutos depois da uma hora que eu já tinha esperado.

Segundo incidente: passei cerca de 15 minutos numa fila gigantesca para comprar passagem. Quando finalmente fui atendida, disseram-me: "estamos sem sistema. Você terá que pegar a fila do outro guichê". E lá fui eu, esperar mais 15 minutos na outra fila para comprar uma passagem. Pelo menos não venderam um horário que não existia, né? Mas não poderiam ter avisado que o todo poderoso Sistema estava fora do ar ANTES de eu esperar 15 minutos na fila errada?

Terceiro incidente: neste último final de semana, cheguei na rodoviária e encontrei uma fila assim:

video

Reparem no relógio ao final do vídeo, marcando o horário: 18:45. Quando finalmente cheguei no guichê, eram cerca de 19:00, mas comprei passagem para as 20:01, como vocês podem ver na imagem abaixo:


Já que eu teria que esperar uma hora até pegar o ônibus, resolvi usar esse tempo para encher o saco do gerente. Pedi para chamá-lo. A funcionária, com cara de assustada, perguntou "para quê". Eu disse que era para falar dos péssimos serviços prestados pela empresa Cometa. O rapaz apareceu e perguntei se poderia entrar. Ele preferiu falar de longe, através de uma brecha do vidro do guichê, aos gritos porque o barulho da rodoviária atrapalhava a conversa.

- Em que posso ajudá-la, senhora?
- Cara, esse serviço de vocês tá muito ruim! Precisa melhorar!
- Mas está ruim em que sentido, senhora?

Contei os três episódios acima.

- O Sistema, senhora, é operado pela Embratel. Não é culpa da nossa companhia. Quando a Embratel sai do ar, ficamos sem Sistema.
- Mas por que as outras companhias de ônibus não ficam sem Sistema quando vocês estão sem Sistema?
- Porque devem usar outra operadora, oras...
- Então por que vocês não trocam de operadora, ou exigem um serviço melhor da operadora de vocês?
- Ah, isso não tem jeito, senhora.
- E a fila? Você acha certo ter uma fila desse tamanho?!
- É o final de ano, senhora. E olha que teve gente que comprou a passagem com antecedência! Mas a empresa está dando conta da demanda.
- Dando conta da demanda?! Há uma fila enorme, as passagens estão sendo vendidas para uma hora depois, e o senhor diz que está dando conta da demanda?! Por que não colocam mais ônibus? Por que não colocam mais atendentes nos guichês? Se você sabe que no final do ano a demanda aumenta, por que não aumenta a oferta de serviços?
- Por que a senhora não reclama em nosso site?
- Já procurei no site de vocês e não encontrei um canal para reclamações e sugestões.
- Mas tem sim, tem lá num cantinho da página...
- Não encontrei esse cantinho.
- Então pode reclamar por escrito, tem um formulário.
- Ok, me vê um formulário por favor.

Escrevi tudo isso em quinze linhas, que era o tamanho máximo aceito para os textos de reclamação. Deixei meu nome, endereço, e-mail e telefone. Isso foi no sábado, já é segunda-feira e ainda não tive uma resposta.

Sabem por quê? Porque a Cometa é a única empresa que faz o trecho Campinas-São Paulo. Tem o monopólio, desde que comprou a Cristália. Podem reparar no vídeo que Cometa e Cristália estão no mesmo guichê: não há concorrência! E assim, nós, consumidores-viajantes, temos que pagar R$21,50 por uma viagem que, de carro, sairia cerca de R$30,00 (com muito mais conforto e rapidez), além de tolerar todo o descaso da empresa pelos clientes e pelas suas reclamações e sugestões.

Aviso importante: para terminar, deixo aqui uma séria recomendação aos leitores que viajam de Cometa no trecho Campinas-São Paulo. Se os atendentes tentarem vender a vocês as poltronas número 43 e 44, não aceitem! Essas poltronas não existem, mas têm sido vendidas mesmo assim. Já aconteceu com minha mãe e com meu irmão, em ocasiões diferentes. Os motoristas disseram que tem sido um problema muito comum e que, apesar de terem reclamado diversas vezes, continua ocorrendo. Minha mãe reclamou no site da Cometa (ela achou o cantinho da página que não encontrei!), mas não teve resposta. Portanto, cuidado!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Centros geodésicos

A primeira vez que prestei atenção nesse termo foi em Cuiabá, observando as placas que indicavam os pontos turísticos. Mas o que será isso? O taxista que me levava do camelódromo até a rodoviária animadamente me explicava o que havia em cada canto da cidade. Mas mostrou-se surpreso quando perguntei o que é “centro geodésico”. “Onde você viu isso?”. “Naquela placa”, respondi. “Puxa, eu nunca tinha reparado nela...”. Ele morava há seis anos em Cuiabá e, aparentemente, já tinha visto todas as placas e conhecido a maior parte dos pontos turísticos, menos o tal “centro geodésico”. Vai entender... Decidi que mataria a curiosidade na internet na primeira oportunidade. O que é que o Google não sabe?

Marco Zero de Nova Xavantina e suposto Centro Geodésico do Brasil

Fui a Cáceres, depois San Matias, de onde retornei a Cáceres assustada e cansada. E nesses dias todos, esqueci de pesquisar o que era centro geodésico. De volta a Cuiabá, fui à Chapada dos Guimarães. Lá também havia a placa: “Centro geodésico”. Seria o mesmo, ou outro? Desta vez havia o guia turístico para explicar. Centro geodésico, disse ele, é o ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico. Sabe aquela música “Um índio”, do Caetano Veloso?

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante
(...)
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito


Pois bem, o local a que Caetano se refere na música é o centro geodésico, o coração da América do Sul, o ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico. No Mato Grosso, temos dois centros geodésicos: o de Cuiabá, que foi marcado por Rondon, quando veio em expedição ao Oeste do país; e o de Chapada dos Guimarães, que foi marcado mais recentemente pela NASA, usando aparelhos sofisticados. Há uma polêmica envolvendo os dois centros geodésicos, porque algumas pessoas acreditam que Rondon estava mais certo e outras tomam o partido da NASA.

Hoje, por exemplo, consultando a Wikipedia, encontrei o seguinte texto:

Cuiabá é abrigo do Centro Geodésico da América do Sul, nas coordenadas 15°35'56",80 de latitude sul e 56°06'05",55 de longitude oeste. Situado na atual praça Pascoal Moreira Cabral, foi determinado por Marechal Cândido Rondon, em 1909, o correto ponto do centro geodésico já foi contestado, mas cálculos feitos pelo Exército Brasileiro confirmaram as coordenadas do marco calculadas por Rondon.

Ou seja, o outor anônimo desse artigo da Wikipedia provavelmente mora em Cuiabá.

Há até quem diga que a definição de Rondon a respeito de um centro geodésico não era a clássica e geográfica. Por exemplo, vejam a opinião de José Antônio Lemos dos Santos, de Cuiabá:

O Centro Geodésico não tem nada a ver com medições prévias. Ele foi um ponto estabelecido pelo marechal Rondon para ser o referencial básico para sua missão de elaborar o primeiro mapa do Brasil ao milionésimo, hercúlea tarefa que lhe havia incumbido o governo brasileiro. Então, ele é um marco ‘zero’ a partir do qual todas as medidas foram tomadas para a elaboração do mapa do Brasil. Estivesse ele lá em Roraima, ou no Rio Grande do Sul, suas medições tinham como origem o centro, aqui no Campo D’Ourique. Depois, esse mapa do Brasil serviu de referência para o mapa da América do Sul. Por isso, é o centro geodésico da América do Sul. (...)

Uma opinião mais interessante, a meu ver, era a do condutor turístico Esmael, que falou em Centro Geodésico histórico (o de Cuiabá, marcado por Rondon) e Centro Geodésico esotérico (o da Chapada dos Guimarães, marcado pela NASA, onde há um mirante e muitos turistas procurando discos voadores). A exploração de ambos os locais ajudaria a incentivar o turismo, portanto não tem por que brigar...

Mesmo tão perto de dois centros geodésicos, não visitei nenhum: faltou tempo. Mas achei interessante a explicação sobre Rondon, NASA e Caetano Veloso e coloquei esses pontos turísticos na minha lista de lugares por onde andarei futuramente. Mal sabia eu que já tinha visto outros centros geodésicos pelo caminho...

Foi um amigo que me explicou, dias depois, que a praça de Nova Xavantina (MT), marco zero da cidade, é um centro geodésico. Mais tarde descobri que o site da prefeitura de Barra do Garças (MT) também diz que a cidade encontra-se no Centro Geodésico do Brasil. E há ainda alguns sites que localizam o Centro Geodésico do Brasil em Palmas (TO).

Mas e aí, qual dessas afirmações está correta? Vejamos no mapa:



Parece que Cuiabá e Chapada dos Guimarães são mesmo boas candidatas ao ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico. Palmas também é uma boa candidata a centro geodésico do Brasil: parece estar no ponto equidistante entre a fronteira oeste, com a Bolívia, e o limite leste, com o oceano Atlântico. Mas Nova Xavantina e Barra do Garças? Essas não entendi direito. Para serem o centro geográfico do Brasil, só se for na orientação norte-sul.

O fato é que todo mundo quer trazer o centro para perto. E por que não? Nessas horas me lembro da frase que há na Praça do Relógio, na USP: NO UNIVERSO DA CULTURA, O CENTRO ESTÁ EM TODA PARTE. Lembro também de uma conclusão a que cheguei recentemente, no meio de uma especulação filosófica: qual é o centro de uma área ou um volume infinito? Na verdade, qualquer ponto pode ser o centro. Ou seja, o que se faz onipresente tem todos os pontos como centro. Inclusive eu, você, o bandido na cadeia ou o mendigo na esquina somos o centro daquilo que é onipresente.

Praça do Relógio, na USP: No universo da cultura, o centro está em toda parte


E assim prossigo com minhas viagens, sentindo que o centro está em todo lugar e que, portanto, encontrar meu centro é bem mais simples do que eu imaginava.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Parque Nacional da Serra Azul

Durante minha passagem por Barra do Garças, foi tudo tão agitado que não tive muito tempo de escrever, nem de colocar fotos da cidade. Mas agora volto um pouco no tempo para contar o que fiz por lá, até porque é uma região com enorme potencial turístico e que pouca gente conhece ou pelo menos ouviu falar.

Dos lugares que visitei em Barra do Garças, o que gostei mais foi o Parque Estadual da Serra Azul. Localizado em uma montanha, contém um circuito de cachoeiras, um mirante, um Cristo Redentor, um discoporto e vários quilômetros de trilhas. É possível percorrê-las a pé, mas devido à falta de tempo, subi de carro com alguns amigos que fiz por lá.

Logo na entrada do parque, há uma guarita e uma placa, que nos fez dar gargalhadas:

Normas de uso do parque

Ficamos curiosos para saber como é que se pode "conversar com duendes" e "ver discos voadores" sem "bebidas alcoólicas ou tóxicos". Os duendes não quiseram mesmo saber de conversa, mas os discos voadores nós logo avistamos.

Discoporto de Barra do Garças

Nesse momento, o engraçado passou a me parecer ridículo. Nada contra os que dizem ter avistado ou feito contato com os discos voadores. Não duvido. Mas essas naves e esses ETs mal-feitos e horrorosos quebram o tom sério de qualquer ideia ou paisagem. Conversando aqui e ali, comecei a apurar as informações sobre o Discoporto. Ele foi criado pelo então vereador Valdon Varjão, que também se tornaria prefeito e senador, com o objetivo de incentivar o turismo na região e chamar a atenção para o avistamento de OVNIs. O projeto original envolvia a construção de uma pista de pouso para discos voadores, com cerca de cinco hectares, mas isso não foi concretizado. Dizem que a frequência de turistas e místicos no local é realmente alta, mas não há registros de que tenham sido avistados OVNIs por ali desde a inauguração do discoporto. Não culpo os alienígenas pela ingratidão: no lugar deles, eu me sentiria ofendida com uma homenagem tão horrorosa.

Vale a pena dizer que o Discoporto é também um marco do centro geodésico do Brasil, ou seja, o ponto equidistante dos limites oeste e leste (oceano Atlântico) do país. Falarei mais sobre centros geodésicos num post futuro.

A próxima parada foi no mirante do Cristo Redentor. Não sou católica nem estritamente cristã e, para ser muito sincera, acho estranho que a maior parte das imagens de Jesus o representem crucificado, morto, sofrendo pela ignorância humana. Para mim, seria muito melhor mostrá-lo alegre, transmitindo o Conhecimento e o Amor que inspiraram os próximos dois milênios. Sendo assim, os Cristos todos que povoam as cidades que visito não me interessam. O que me atrai são os mirantes, já que essas imagens costumam ficar em lugares bem altos.

Nesse de Barra do Garças, é possível chegar por uma escada com exatamente 1220 degraus. Mas nós não tínhamos muito tempo e subimos de carro. Foi então que entendi a localização dos limites de município e de estado. Olhando morro abaixo, era possível avistar Aragarças (GO), à esquerda do rio Araguaia; Pontal do Araguaia (MT), ao centro, nessa espécie de triângulo invertido que se formou entre os rios Garças e Araguaia. E à direita, Barra do Garças (MT).


Vista do Mirante do Cristo Redentor

Debaixo daquele sol quente, fiquei aliviada quando fomos para o circuito das cachoeiras. Estacionamos o carro no alto e fomos descendo, parando para tomar banho aqui e ali. Meus amigos me disseram que há cerca de doze quedas d'água. Tivemos que parar lá para a quinta ou sexta, pois eles tinham hora para voltar, mas foi o suficiente para admirar a beleza e a calma do local. E nesse meu primeiro dia de viagem, já pude sentir o contato com a natureza, que tanto desejei, eu que estava saturada da vida excessivamente paulistana e urbana. Os sons dos animais, dos pássaros, das águas. O ar fresco, leve. O equilíbrio dinâmico da Vida que se renova a cada instante. E a água batendo forte nos ombros, nas costas, na cabeça, levando embora tudo o que o corpo já estava cansado de carregar.


Cachoeira do Parque Nacional da Serra Azul

Voltamos para Barra do Garças, me despedi dos rapazes, que foram para a cidade onde moravam: Canarana. Combinamos de nos encontrar novamente quando eu passasse por lá, mais para o fim da semana. O final da tarde e a noite em Barra do Garças foram agitadíssimos, mas a única coisa que merece ser mencionada neste post foi a passagem pelo Parque das Águas Quentes.

Disseram-me que era um lugar imperdível: águas termais, naturalmente aquecidas. Cheguei lá à noitinha, mas fiquei decepcionada. Havia no ar um cheio de enxofre, compreensível, pois a água vulcânica deve ser sulfurosa. Mas ele se misturava a um odor de álcool, o que também era compreensível dada a enorme quantidade de latinhas de cerveja jogadas nas bordas das piscinas. Muita gente bêbada conversando e comendo dentro da água, formando uma meleca nojenta. Homens nojentos e bêbados me olhando fixamente, pois garota sozinha de biquíni é presa fácil, não é? Cerca de oito e meia da noite saí do parque e telefonei para um mototaxista ir me buscar. Essa foi a melhor parte do passeio noturno: voltar para a cidade de moto, com o vento batendo no rosto, a estrada toda escura proporcionando uma visão privilegiada das estrelas e da lua cheia. Apesar do ruído do motor, eu ouvia sons de grilos e pássaros e me sentia livre... Parecia mesmo que eu já estava viajando há uma semana, mas então me lembrei: este é só o primeiro dia! Dormi contente da vida.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A mendiga escritora

Mesmo miseráveis os poetas, os seus versos serão bons
Chico Buarque em: Choro Bandido

Cinco e meia da tarde, os saltos dos sapatos pretos, que eram meu figurino de pesquisadora séria, batiam compassadamente ao lado do braço inerte que jazia sobre a calçada: tloc, tloc, tloc... E meus olhos passavam varrendo seu corpo imundo, estendido entre a crosta de poeira e a nuvem de fumaça, enquanto sua cabeça, pesada demais para sustentar-se em cima de um pescoço tão frágil, apoiava-se numa almofada completamente coberta por um enxame de letras. Os olhos fechados combinavam com a boca aberta e eu imaginando se aquelas palavras penetravam nos seus sonhos por algum processo osmótico...

Eu passava por ela quase todos os dias no início de 2008, quando arranjei um emprego temporário perto da Avenida Paulista, com o objetivo claro de juntar uma grana para ir a congressos na Europa. Todos os dias eu descia uma alameda bem ao lado do MASP e acabava andando por uma esquina, cruzamento da Peixoto Gomide com a Barata Ribeiro. Era ali que vivia(?) a mendiga escritora, personagem que quase cheguei a conhecer.

Morava na rua, com muitas tralhas mal-acomodadas em caixas de papelão: travesseiro, revistas velhas, liquidificador, panelas, latas, trapos, mancebo, papelão, manta esfarrapada, pregadores de roupa, enfim, uma série de objetos que me pareciam aleatórios, mas deviam ter algum sentido para ela.

Sempre que vejo pessoas assim, singulares, acabo cantando por dentro:


Ninguém pergunta de onde essa gente vem
Chico Buarque em: Brejo da Cruz


Sempre tive curiosidade para conhecer os moradores de rua e essa, em especial, era ainda mais intrigante: ela escrevia.

No primeiro dia eu a vi escrevendo num saco de papel, desses de pão. No outro, era um caderninho. No outro, folhas avulsas. Sempre muito concentrada, acho que nem me notava passar, nem pescava meu olhar curioso querendo flertar com os manuscritos por uma brecha logo acima dos seus ombros. Sete horas da manhã, a mulher escrevendo embaixo de um guarda-chuva que improvisara de teto, encolhida e umedecida no seu minúsculo e ineficiente refúgio na tempestade. Ela escrevia sem parar em... uma almofada! Com caneta hidrocor. Ah, se ao menos eu pudesse furtar uma única folha com aqueles misteriosos garranchos!

No dia seguinte, cabeça ainda repousando na almofada, ela lia. Diminuí o ritmo dos meus passos apressados: lia o quê, gente do céu? "Murder in the Orient Express", Agatha Cristie. Será que lia? Será que compreendia? Falava inglês, a mendiga escritora? Afinal, mulher, de onde você vem?!

Cada vez mais interessada, fui tomando coragem para conversar com ela. Amanhã, pensava eu, amanhã eu falo. Mas onde é que fica a porta para ingressar nesse mundo tão distante do meu? Compartilhávamos um espaço: eu diariamente invadia a casa dela com o tloc tloc do salto do meu sapato. Mas esse espaço físico não se traduzia num espaço mental ou afetivo que proporcionasse o diálogo, ainda que por alguns momentos. 

Um dia a mulher usou um lençol para improvisar uma cortina no seu lar de paredes invisíveis, que não lhe dava nenhuma privacidade. Por uma frestinha, eu a vi escrevendo. Hoje eu falo com ela! Hoje eu falo! Que nada, faltava coragem. E a mulher escrevendo... num pufe! Sim, um pufe desses de sentar. Às sete horas da manhã já estava, digamos, com 40% de sua superfície preenchida por letras de caneta hidrocor. Às cinco e meia da tarde, já 100% coberto por palavras, funcionava como uma poltrona na provável sala de visitas que ela instalara na calçada.

Decidi conhecê-la amanhã sem falta de novo. E na saída do trabalho, cinco e meia da tarde, fui passando devagarzinho, o tloc tloc desacelerando, até que parei ao seu lado.

- Como é seu nome?

Silêncio. Ela não me via, nem me ouvia? Seus olhos vidrados numa folha de papel, que recebia as marcas imputadas por sua frenética caneta. Tentei de novo.

- Oi, tudo bem? Como você se chama?

Ela deu um pulo, uma espécie de espasmo, parece ter levado um baita susto, que repercutiu em mim: pulei também. Mas não desisti.

- Sempre passo aqui e vejo a senhora escrevendo. A senhora gosta muito de escrever, né?

Os olhos dela cruzaram com os meus e não entendi o que diziam. Muito azuis, quase cinzentos, pupilas estreitas, nenhum brilho, olhar tão opaco, quase se apagando. Parecia desconcertada, sem entender nada, talvez apavorada... E essa falta de sentido em seu rosto me apavorou também. Virei as costas e segui meu rumo, o ponto de ônibus. Mas no meio do caminho, percebi que não queria desistir. Bolei uma nova estratégia: passei na papelaria, comprei caderno, lápis, borracha e caneta. Pedi para embrulhar para presente.

No dia seguinte, seis e meia da manhã, eu já passava pela esquina dela. Cadê a mulher? Não estava lá. Suas coisas encostadas no muro, mais organizadas que o normal, encaixotadas, como se ela estivesse de mudança. Fui trabalhar. Na volta, apenas o vazio: nem mulher, nem caixas, nem objetos divertidos, nem palavras, nem letras, nem livros, nem revistas. Só poeira e lixo cobriam a calçada.

Mudou-se para outra esquina? Foi levada pela polícia? Pela assistência social? Morreu? Mistério. Nunca pude ler suas palavras, que todos os dias me intrigavam.

Hoje, trabalhando com moradores de rua na Prefeitura de Valinhos, sempre me lembro dela. Agora posso saber das histórias, saber de onde essa gente vem. Fico torcendo pela mendiga escritora, para que suas palavras não cessem, continuem brotando e preenchendo as almofadas, pufes, cadernos e sacos de pão, quem sabe num movimento capaz de preencher sua vida, talvez tão sem sentido quanto se mostrou o olhar que ela me dirigiu na única vez em que me dirigi a ela.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Primeiro encontro

Primeiro dia de viagem. Assim que desci do ônibus em que viajei de Goiânia a Barra do Garças, tudo o que eu queria era tomar banho, comer e dormir e eu não sabia qual dessas coisas faria primeiro. O estômago roncou mais alto e, após largar a mochila no primeiro hotel que encontrei, logo atrás da rodoviária, fui em busca de alimento. Havia uma avenida ali perto e imaginei que, caminhando por ela, eu encontraria alguma lanchonete, restaurante ou coisa do gênero. Muitas coisas remetiam a Goiás nos nomes de bares e hotéis e fiquei pensando se aqueles matogrossenses tinham complexo de goiano. Achei meio estranha a atmosfera sombria e mal iluminada da avenida, que parecia conter apenas botecos. Assim que encontrei um lugar que parecia não ter bêbados, parei para comer.

Olhando o menu na parede, logo atrás do balcão, sorri ao descobrir que um X-salada custava R$2,50 e um X-tudo R$4,00. Onde é que eu encontraria preços assim em São Paulo? Enquanto aguardava o lanche, resolvi perguntar como poderia ir ao centro da cidade.

- De que cidade?, perguntou a dona da lanchonete.
- Ué, desta cidade, de Barra do Garças, respondi eu.
- Aqui não é Barra, é Aragarças.
- ???
- Pra ir pro centro de Barra do Garças, você tem que seguir esta avenida, atravessar duas pontes, daí já vai ver o centro logo à frente. Se entrar na bifurcação à esquerda, vai para o centro de Pontal, que é outra cidade. À direita, tem o centro de Barra do Garças, que também é outra cidade. E aqui é Aragarças, que ainda fica no estado de Goiás. Pra lá da segunda ponte já é Mato Grosso. Mas Barra do Garças é longe, melhor você pegar um mototáxi.

Momento em que a cabeça pára para processar informações. Descoberta número 1: eu estava em Aragarças, não em Barra do Garças. Descoberta número 2: eu estava em Goiás, não no Mato Grosso. Descoberta número 3: aqui tem mototáxi, aquela coisa que tentaram regulamentar na periferia de São Paulo, mas o Kassab não deixou.

- Barra do Garças fica longe? Longe quanto, senhora?
- Ah, bem longe! Dá quase 15 minutos andando.

Ri por dentro. "Quase 15 minutos andando" é longe para eles. E eu acostumada a andar 25 minutos todos os dias para ir de casa até o trabalho, achando que era muito perto... Não, não seria necessário fazer minha estreia no mototáxi naquele momento.

Um homem se aproximou, acompanhado de um garotinho.

- Você não é daqui?
- Não.
- De onde você é?
- De São Paulo.
- Veio visitar parentes?
- Não.
- Tá sozinha?!
- Tô.
- Quantos anos você tem?
- 26.
- Mulher viajando sozinha?!
- É. Algum problema?
- Por que veio sozinha?
- Porque quis.
- Sua família SABE que você tá aqui? Você brigou com seus pais?
- Sabem sim, só vim passear, não briguei com ninguém não.

Interrogatório. O homem repetiu essas perguntas várias vezes, como que querendo encontrar alguma contradição no que eu dizia. Quando finalmente se convenceu, me ofereceu uma cerveja, que recusei. Mas foi o sinal de que eu poderia começar a entrevistá-lo, se quisesse.

- É seu filho?
- É sim, meu filho caçula, tem 5 anos.
- Que lindo! Você tem outros?
- Tenho 5 filhos, mas só esse e mais dois que moram comigo aqui. Os outros dois tão em São Paulo. Também sou de lá, morava na Zona Leste, mas não piso em São Paulo faz 20 anos. Minha primeira filha é mais velha que você, tá com mais de 30 anos.
- E por que saiu de São Paulo?
- Fui assaltado, levaram minha carteira, fiquei morrendo de medo de sair na rua. Decidi que não queria mais essa vida, daí vim pra cá, reconstruí tudo. Mas a família não quis vir.
- E por que escolheu esta região?
- Eu tinha um irmão que morava aqui. Vim trabalhar com ele.
- Acho que você nem sente falta de São Paulo né?
- De jeito nenhum, não piso mais lá! Da última vez que fui, faz 20 anos, fiquei na casa de um amigo. A janela do quarto onde eu dormia era no segundo andar e tinha grade. Deixei a janela aberta porque tava muito quente, e meu amigo brigou comigo, me chamou de louco, porque alguém podia botar um revólver pela janela e me fazer abrir a porta. Ah, eu não consigo ficar em lugar assim, me sinto preso!

A conversa foi se desenrolando enquanto eu comia meu sanduíche e tomava refrigerante. O garotinho pulando pra lá e pra cá, querendo atenção, quase estourou um saquinho de catchup na minha roupa. Enquanto isso, o pai ia se assanhando...

- Não quer mesmo uma cerveja? Pega aí, eu pago! Graças a Deus, dinheiro não é problema pra mim. Você não bebe? Se você quiser, te levo para conhecer uns lugares legais em Barra do Garças. Toma, pega meu cartão, tem meu telefone aqui. Tenho uma loja aqui em Aragarças e outra em Barra, acredita? Já sou dono de duas lojas aqui na região. Mas olha, não me liga amanhã, liga segunda, porque minha mulher é ciumenta. Tenho certeza que meu filho quando chegar em casa vai caguetar, vai dizer: mãe, a gente conheceu a Gabriela, e minha esposa vai ficar louca da vida. Mas me liga segunda, porque eu vou estar trabalhando, mas como sou empresário, posso sair quando quiser, daí a gente faz um churrasquinho perto de alguma cachoeira, que tal? Me liga, posso te levar pra passear de carro, vamos aproveitar! Até quando você fica aqui?

À medida que falava, os olhos dele iam se tornando cada vez mais famintos. Fui desconversando, terminei o sanduíche, paguei e estava saindo, quando ele disse:

- Então você me liga, né?
- Ligo, claro, ligo sim.

Pausa. Ele se fez sério.

- Você não vai ligar. Sei que não.

Tentei segurar um sorriso, mas não deu. Foi a primeira coisa que gostei de ouvir sair da boca dele. A primeira atitude imprevista, a primeira vez que ele deixava de ser um personagem plano para tornar-se esférico. Já em pé, pronta para partir no rumo que me disseram ser o de Barra do Garças, respondi:

- Adoro conversar com pessoas inteligentes!

E saí pela avenida, sem olhar para trás, apesar de curiosa para ver a reação que se estamparia no rosto dele. Já na ponte, abri a bolsa para pegar a máquina fotográfica e um vento soprou de algum lugar, levando o cartão com o contato dele, que estava no mesmo compartimento. Observando aquele pedaço de cartolina voando rio abaixo, o jeito foi rir de novo, rir de como a natureza parece entender minha vontade.

domingo, 21 de novembro de 2010

Cobija

O Acre faz fronteira com Bolívia e Peru e, por isso, viagens a esses destinos são bem comuns entre acreanos. Há muitos moradores do Acre que nunca foram para outro estado do Brasil, mas já estiveram na Bolívia várias vezes. Para passear? Não, normalmente é para fazer compras, aproveitando que o peso boliviano é desvalorizado em relação ao real.

Estando em Rio Branco, resolvi dar uma de acreana e ir para Cobija, não tanto pelas compras, mas para curar o trauma de Bolívia. Desde que saí de San Matias, eu não dormia direito, porque sonhava que estava na Bolívia, que havia manifestações, "bloqueos", "paros" e eu não conseguia passar, que as pessoas me tratavam mal, tentavam me passar a perna, enfim... aquele sentimento terrível das 24h em San Matias continuou intensamente presente nos meus sonhos.


Ponte Brasil-Bolívia


O bom é que a tia, o primo e até o amigo do primo toparam rapidinho ir para lá. Saímos de Rio Branco de carro, seguindo por uma estrada que, na maior parte do percurso, passa pela zona rural do estado, com suas gigantescas fazendas, que roubaram espaço da floresta amazônica para a plantação de cana e a criação de gado. Diferentemente das estradas do sudeste, com as quais estou acostumada, as estradas do Acre quase não têm curvas (chega a ser entediante). E também não têm serras e morros na beirada da estrada: é tudo planície, proporcionando um horizonte bem distante de se olhar.

A fronteira do Acre com a Bolívia é marcada por uma ponte, estaiada como parecem ser todas as que têm sido construídas na região ultimamente. E após atravessá-la, é interessante notar como a paisagem é quase a mesma.

Fronteira


Cobija tem cara de Brasil. O celular brasileiro pega muito bem, as pessoas falam pelo menos um pouco de português (e se não falam, pelo menos entendem), os preços são marcados em reais e há um clima amistoso. Tantas lojas de bugiganga que eu me sentia quase na 25 de março, em São Paulo.

Passei uma manhã gostosa: de carro e bem acompanhada, foi fácil... A melhor descrição dessa situação foi a que ouvi da prima, referindo-se à diferença entre Cobija e San Matias: "A Bolívia daqui é calminha, não é como a Bolívia de lá". Cobija tem cara de cidade, San Matias tem cara de faroeste. Nem parece que ambas estão na fronteira do mesmo país.

Fomos andando pelas lojas, tirando fotos, tomando cervejas diferentes das nossas (como Paceña e a mexicana Tecate), vendo collas venderem empanadas e sucos em carrinhos pelas ruas.

As bugigangas ficaram no Acre, aos cuidados da Tia Dé, que trará para São Paulo na semana que vem. E segui com a mochila mais leve, carregando um trauma a menos. Ufa! Depois disso deu para sonhar melhor.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Homenagem ao sol

Eu estava bolando um texto introdutório, mas acho que não preciso explicar...




Conceição do Rio Verde - MG




Maison Alfort (cidade vizinha a Paris), por volta das 22h



Pipa - RN



Maceió - AL

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A rota


Já em casa, após tomar banho, hibernar, telefonar para os pais, comer feijão com farinha de mandioca, resolvi traçar o trajeto pelo qual passei, só por curiosidade. O resultado foi o mapa abaixo.


Legenda
Trechos amarelos = rotas terrestres
Trechos vermelhos = rotas aéreas

Também por curiosidade, calculei a distância percorrida. As informações foram obtidas em diferentes sites, porque não achei nenhum que contivesse todas as cidades pelas quais passei. Vejam só:


Origem
Destino
Meio de transporte
Km
São Paulo
Goiânia
Avião
926
Goiânia
Barra do Garças
Ônibus
382
Barra do Garças
Vale dos Sonhos
Ônibus
62
Vale dos Sonhos
Nova Xavantina
Ônibus
88
Nova Xavantina
Canarana
Ônibus
163
Canarana
Cuiabá
Ônibus
819
Cuiabá
Cáceres
Ônibus
233
Cáceres
Corixa
Micro-ônibus
80
Corixa
San Matias
Táxi
7
San Matias
Corixa
Moto
7
Corixa
Cáceres
Micro-ônibus
80
Cáceres
Cuiabá
Ônibus
233
Cuiabá
Chapada dos Guimarães
Táxi
65
Chapada dos Guimarães
Cuiabá
Ônibus
65
Cuiabá
Porto Velho
Avião
1456
Porto Velho
Rio Branco
Avião
497
Rio Branco
Cobija
Carro
220
Cobija
Rio Branco
Carro
220
Rio Branco
Cuzco
Avião
384
Cuzco
Lima
Avião
567
Lima
São Paulo
Avião
3459
Total


10.013


Na verdade, a distância percorrida deve ser ainda maior, porque não considerei nesse cálculo alguns percursos, como por exemplo as tortuosas estradas d'el Valle Sagrado no Peru. Continuando a análise quantitativa do que vivi, eu diria que:

- Passei por cerca de 14 cidades, localizadas em três países (contando somente aquelas em que saí do meio de transporte onde eu estava, como por exemplo o ônibus e o avião, e caminhei pelas ruas ou campos ou ruínas).
- Dormi em 12 camas diferentes, além de ter passado uma noite no ônibus (trecho Canarana-Cuiabá) e outra numa cadeira acolchoada do aeroporto de Lima.
- Experimentei temperaturas que foram de 7 a 45 graus célsius.
- Andei a pé, de táxi, de carro, de moto, de mototáxi, de ônibus, de micro-ônibus, de avião, de trem, de... coisa bizarra sobre trilhos (ver episódio de Águas Calientes).
- Conheci cerca de 14 cachoeiras em quatro cidades ou distritos (6 em Barra do Garças, 1 em Vale dos Sonhos, 6 na Chapada dos Guimarães, 1 em Águas Calientes).
- Voltei com um caderno contendo 14 contatos de pessoas que conheci pelo caminho (hummm esse número 14 de novo).
- Até agora escrevi, contando com este, 29 posts para este blog relatando a viagem.
- Tirei 1.058 fotos (1+0+5+8=14, hum...), que ocupam cerca de 2,5 Gb de espaço no computador.

Todos esses números são curiosos, mas são apenas mais uma visão parcial do que vivi, senti e pensei. São experiências de vida que eu jamais teria se ficasse com medo de sair de casa, se ficasse esperando até alguém decidir ir comigo. Penso nos amigos que fiz e com os quais ainda mantenho contato virtual; nas pessoas que passaram por mim por apenas alguns instantes e disseram ou fizeram coisas que me marcaram; na singularidade de cada local, na diversidade; nas crises que, assim como os momentos prazerosos, me fizeram crescer e aprender mais sobre mim mesma e o mundo.

O post de ontem marcou o fim do trecho, a volta para casa, mas ainda há muito mais para contar. Assim, ainda pretendo postar aqui alguns outros relatos, imagens, diálogos, pensamentos e sonhos que apareceram pelo caminho. Em São Paulo, eu me sentia sozinha. Porém, durante três semanas viajando sozinha, nunca me senti solitária. Creio que isso aconteceu porque eu caminhava em minha própria companhia. E externamente, acabei atraindo pessoas incríveis que vivenciaram comigo alguns momentos importantes. Além disso, compartilhar as experiências através do blog, dos e-mails, SMSs e ligações telefônicas foi parte fundamental da viagem e agradeço a todos os que me acompanharam de alguma maneira.

Sendo assim, o relato não acaba neste post: podem esperar por outros. De agora em diante, não vou mais seguir a ordem cronológica e, provavelmente, as publicações serão mais espaçadas. Mas peguei gosto por essa coisa de escrever as experiências e continuo por aqui! Me aguardem!