quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Jardim Vermelho

Quando as pessoas falam sobre os atuais conflitos da comunidade USP em relação à presença da PM no Câmpus, dá a impressão de que é um assunto que começou agora, com a detenção de dois alunos que fumavam maconha. É um engano transmitido pela mídia. O confronto é antigo e um dos marcos ocorreu em 09/06/2009, conforme se pode notar em vídeos como este (e outros que vocês podem encontrar no Youtube):



Pois então, foi na noite de 09/06/2009 para 10/06/2009 que tive um sonho muito simbólico, que acabei transformando num conto. Tentei publicá-lo algumas vezes. Uma dessas tentativas foi na revista "Originais Reprovados", que tem o objetivo de publicar poesias e contos de alunos da USP. Ironicamente, o texto foi reprovado.

Sirvo-me, então, do Blog para manifestar sensações de mais de dois anos atrás, que voltam à tona com frequência agora, com os novos conflitos... Com vocês, baseado em um sonho real:

***







O jardim vermelho







Quando o sol batia no jardim do seu Raimundo, as flores pareciam ainda mais encarnadas. Esticavam seus braços de folhas compridas e largas e sacudiam devagarzinho as corolas, cabeleiras ruivas dependuradas nas cabeças de sépalas. Os miolos laranja-avermelhados, com sementes achatadas e pintadas como as de um girassol, lembravam rostos.

Todas as manhãs, seu Raimundo passeava por entre as plantas. Ninguém o avistava quando ele se embrenhava na multidão de caules. Elas mediam entre um metro e meio e um metro e oitenta de altura e seu Raimundo conversava com elas de igual para igual, sem precisar sequer abaixar-se para olhá-las nos olhos: bom dia, dona Margarida! Bom dia, Gerânio! Rosinha, como vai? As flores sorriam e coravam, tornando ainda mais vivo o vermelho que lhes era inerente. Seu Raimundo alimentava-as e regava-as gentilmente. Saía revigorado, enquanto as flores permaneciam, cada vez mais humanas. Qualquer Homo sapiens que visitasse o jardim reconhecê-las-ia como suas semelhantes. Inalando o perfume suave de seiva com néctar, poderia sentir que tinham alma, vida, personalidade e voz.

Como gritaram as flores naquela tarde de junho! O inverno já se aproximava, fazia-se sentir no ar seco e temperatura instável, mas o sol ácido do meio da tarde vinha lembrar que ainda era outono. Derramava nas flores seus raios alaranjados e o reflexo dava a impressão de labaredas no matagal. As plantas gostavam do sol e alegremente empenhavam-se em converter gás-carbônico em açúcares, liberando oxigênio através do verde de que vitalmente suas células se tingiam, ao mesmo tempo em que as faces ruborizadas seduziam pequenos insetos, responsáveis pelo correio-elegante que alcançaria seus objetos de desejo, que poderiam morar a alguns metros de distância. Ou seja, distraíam-se com seus assuntos naturalmente vegetais, quando a primeira granada explodiu.

Subiu fumaça com grãos de terra, folhas rasgadas e pétalas arrancadas. As outras flores todas se assustaram e teriam corrido se não fosse pelas raízes, que jamais souberam desprender-se do chão. Outra granada, pétalas escorriam em gotas de sangue e o barulho da explosão machucava até quem estava distante. Logo mais já se ouviam rajadas de metralhadora.

Seu Raimundo ouviu os tiros e gritos apavorados das suas plantinhas vermelhas. Correu para a janela e não entendeu direito a confusão armada em seu quintal. Soldados com escudos e capacetes e coturnos cercavam o jardim, sempre em trios: um na frente, dois na retaguarda. Andavam meio que agachados e as fardas camuflavam-se nos talos e folhas. Violentamente batiam e atiravam e explodiam tudo ali, ao mesmo tempo em que se escondiam por detrás dos escudos, prevenindo-se quanto à certa e iminente retaliação das plantas. Seu Raimundo correu até lá, dando de cara com o peito estufado de condecorações de um general. Dois comparsas estavam enganchados em seu uniforme, como carrapichos, apontando fuzis para seu Raimundo.

- Afaste-se!
- Afastem-se vocês do meu jardim! Que é que vocês estão fazendo nas minhas flores?
- Não interessa! São ordens superiores.
- Ordens de quem?! Esta propriedade é minha! Fui eu que plantei tudo aqui!
- Cala a boca, ou o senhor vai se encrencar! Quer dizer que o senhor é o líder do exército comunista?
- Comunista?! Que comunista?!
- O senhor acha que somos tontos! Que fantasiar todo mundo de flor engana a gente! Não é, seu Raimundo?!
- Fantasias?! As flores são reais!

Um dos carrapichos do general apontou para seu Raimundo o fuzil.

- Sai daqui, seu Raimundo! Não vai querer se encrencar mais ainda! Vai pra casa! Já!

Seu Raimundo voltou para casa, sem opção. Chorava de raiva, de humilhação, de luto. A esposa estarrecida na janela.

- Que é que eles tão fazendo, Raimundo?
- Combatendo nosso exército comunista.
- Credo! Pensei que um negócio desses só acontecesse com moinhos de vento!
- Pelo menos os moinhos podiam se defender...
- E agora, o que a gente faz?
- Há algo a ser feito? Infelizmente, só nos contos é que as flores vencem os canhões.

Fechou as cortinas e tapou os ouvidos até o anoitecer.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

MINHA POSIÇÃO COMO ALUNA DA USP (há 9 anos...)

1. Nunca usei maconha. Nem experimentei.

2. Acredito que a USP fica dentro do Brasil e do Estado de São Paulo e deve seguir as leis nacionais e estaduais.

3. Acredito que quem não concorda com as leis deve discuti-las e lutar por mudanças. Sem ferir a liberdade das outras pessoas, claro.

4. Sou contra o uso de maconha dentro do câmpus, pelo menos enquanto ela não é legalizada. Até porque, caramba, não dá pra ficar alimentando o tráfico e ao mesmo tempo lamentando as guerras nos morros cariocas...

5. Sou a favor da legalização da maconha. Sim, minha gente, vamos parar de alimentar o tráfico!

6. Sou contra invasões da reitoria. Isso fere a liberdade de quem quer continuar trabalhando.

7. Sou contra a militarização do Câmpus. Alguém conhece alguma universidade particular em que a PM fique lá, constantemente? Eu não conheço. Aqui na UFABC, que é pública, eu também nunca vi PM, e não considero que é um local pouco seguro.

8. Sou a favor de aumentar o contingente e o treinamento da Guarda Universitária; de melhorar a iluminação do câmpus; de colocar mais circulares internos circulando pelo câmpus; de intervenções psicossociais em grande escala nas comunidades vizinhas, usando a mão de obra subaproveitada dos estudantes de graduação e de pós, para aumentar a segurança a partir da efetivação da educação e da saúde.

9. Sou a favor de que os estudantes lutem por melhor treinamento e melhores salários dos policiais em todas as eferas, visto que eles apenas perpetuam na USP o que vêm fazendo fora dela (sem maiores repercussões).

10. Sou a favor de maior democracia. De assegurar a estudantes e servidores não-docentes o direito ao voto. Do Governador do Estado parar de invalidar a democracia ao escolher o segundo (ou terceiro!) colocado da lista tríplice. De que as decisões referentes à Universidade sejam discutidas com a Comunidade, em vez de baixadas por decreto.

11. Sou contra a hierarquia universitária, em que títulos como Dr., PHD, Professor Titular, etc. têm definido aqueles que ocupam os cargos de Direção, mesmo que o ser que está por detrás do título adquirido como pesquisador não tenha nenhuma habilidade como gerente.

12. Sou a favor da criação de uma forte imprensa de esquerda, que faça frente à forte imprensa de direita com que estamos acostumados a lidar. Sim, porque imprensa imparcial não existe, bem como não existe psicólogo imparcial. E os conceitos de esquerda e direita são relativos. Refiro-me a algo como imprensa yin-yang.

13. Pergunto-me em qual dos grupos me encaixo, toda vez que vejo aquela fotinho compartilhada no Facebook que divide alunos da USP em duas categorias. Pergunto-me se temos como classificar seres humanos em categorias (principalmente elegendo apenas duas).

14. Pergunto-me se há outros alunos, funcionários não docentes, funcionários docentes, outros membros da comunidade USP ou de fora dela que compartilham das minhas opiniões. E se é possível se articular e criar outro grupo, não para mero efeito de classificação, mas sim de ação. Mas não creio muito nisso, porque se essas pessoas existirem, provavelmente estarão ocupadas com outros afazeres, como pesquisa, trabalho, ações em outras áreas. Assim como eu.

Concluindo: manifesto aqui que não me sinto representada por nenhuma das vozes que falam em nome dos estudantes da USP. E que por falta de melhor veículo de expressão, estou usando as redes sociais.

***

Links inspiradores:

Muito além da polêmica sobre a presença ou não da PM no campus da USP

Uma aula de crise

Desabafo de quem tava lá [Reintegração de Posse]

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Sobre o Filho Pródigo e o perdão

O corpo estava todo dolorido do esforço do dia anterior, mais os asanas da aula de yoga. Deitada no chão, eu procurava soltá-lo totalmente, com a certeza de que eu não afundaria piso abaixo, apesar do meu próprio peso parecer infinitamente maior. Era a preparação para o relaxamento.

Foi quando entrou na sala de visitas da minha mente uma pessoa que preciso muito perdoar. Estava sentado em posição de lótus, pele morena, brilho nos olhos, que se mantinham firmes no horizonte, sem piscar. Uma pedra na testa, como aquelas figuras tipicamente indianas. De repente, algo o arrastava para longe e a imagem ia ficando pequena. Senti um aperto no peito, vontade de trazer a imagem para mais perto. Saudade. E então senti que o perdão não acontece quando a gente está apegado à dor.

A falta de perdão é o apego à dor. Simples assim.

Então lembrei daquele homem que conversava com a Mãe Divina, quando ele disse para as pessoas se livrarem do que não precisavam. Desapegar...

E vi que se eu deixasse ir embora a dor que aquela pessoa me trazia, ela jamais seria a mesma pessoa para mim. Por isso tanto vigor ao tentar reter a imagem antiga e dolorida, machucada pelo tempo.

Deixei a imagem do homem em posição de lótus ir embora, devagarzinho. Chamei de dentro de mim muitas outras imagens de outras pessoas que preciso perdoar. Foram todas passando por mim, naquele mesmo asana, e fui fazendo o exercício de me desprender de todas elas. Podem ir embora! Desapego... desapegar para perdoar.

***

- É como o intestino preso, sabe? A gente se apega à merda e não deixa ela sair. Mesmo sabendo que não serve pra nada!

- Hahahahaha!

- Sério! Até sonhei com isso ontem. Eu estava limpando um monte de merda em cima de um sofá, achando que era do cachorro. Mas então, vi que em volta de cada montinho tinha um halo de sangue. Pensei: nossa, acho que meu intestino estava tão preso que me machuquei pra cagar. Só então eu percebi que a merda toda era minha...

***

A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO

Lucas, capítulo 15, versículos 11-32.


11- Certo homem tinha dois filhos;

12- o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me  a parte dos bens que me cabe. E ele repartiu os haveres.

13- Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente.    

14-Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade .

15- Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos.

16-Ali, desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada .

17- Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm  pão com fartura, e eu aqui morro de fome!

18- Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti;

19- já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores;

20- E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou.

21- E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.

22- O pai, porém, disse aos seus servos:

Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés;

23- trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemos-nos;

24- porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se

25-Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.

26- Chamou um dos criados e perguntou-lhe que era aquilo.

27- E ele informou: veio teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde.

28- Ele se indignou e não queria entrar, saindo, porém, o pai procurava conciliá-lo.

29-Mas ele respondeu a seu pai. Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos;

30- vindo, porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado.

31- Então, lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu.

32- Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse  teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.

***

Não sei muito bem o que dizem os padres e pastores, porque nunca fui lá muito de igreja. Mas essa parábola me lembra uma cena da minha infância.

Certa vez, meu pai disse ao meu irmão que daria a ele 10 reais para cada nota acima de 8 que ele tirasse. (Meu irmão, naquele tempo, ainda não era nerd e dava um certo trabalho com as notas da escola...). Fiquei toda contente imaginando o que eu faria com uns 70 ou 80 reais referentes ao meu boletim do próximo mês (eu era nerdíssima!). Mas meu pai me disse que a proposta não se estendia a mim, porque ele não tava afim de ir à falência.

Sim, eu me identifico com o irmão mais velho da parábola. Meu mental se debate matutando como o filho pródigo pode ser recompensado por uma simples promessa de interromper o mau comportamento, enquanto pra quem sempre andou na linha, fica tudo na mesma.

Os padres e pastores dizem que o filho pródigo foi perdoado porque se arrependeu. Contesto, com base nas palavras do próprio personagem: "Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti". Ou seja: foi premeditado. O filhinho, quando viu que estava passando fome, resolveu se fingir de arrependido e pedir para ser trabalhador do seu pai, para garantir minimamente o ticket refeição. Vai ver que estava até testando os limites do pai. Como foi reforçado, e não punido, continuou testando e se encrencando cada vez mais. Dizem que hoje é viciado em crack.

Interpretação chocante? Pode ser, mas ninguém pode dizer que esteja errada. Não se preocupe, isso diz muito mais sobre mim do que sobre a Bíblia. É como olhar para as nuvens e dizer que formas elas têm: um teste projetivo.

***

EU: O problema é que não entendo o perdão. E não posso mesmo entender, porque não é compreensível. Eu sei que é algo que tenho que praticar, e não compreender.

PSICÓLOGA: Não sei nem se é da ordem do praticar... é sentir... acessar... Acho que é isso, acessar. De repente você encontra um lugar em você e ele está lá!

EU: Deve ser... e não sei o que fiz para bloqueá-lo desse jeito.

***

Digitei no meu navegador mental: www.perdao.god.br
(Sim, .br porque Deus é brasileiro!)

Vi aparecer uma mensagem:

ACESSO NEGADO! Você não tem permissão para acessar essa página.

E concluí comigo mesma: tá bom, com essa censura, devo estar na China!

***

PSICÓLOGA: Sabe... perdoar não é divino, é humano.

EU: Como assim?

PSICÓLOGA: Sabe por que Jesus disse "Perdoa, eles não sabem o que fazem"?

EU: Por causa do Barrabás?

PSICÓLOGA: Sim, mas não é só isso. É que enquanto esteve na Terra, Jesus teve a oportunidade de viver como os homens vivem e percebeu o quanto era difícil. Aqui na Terra sentimos frio, fome, dor... Ele não sentia nada disso lá no Céu. Então, percebendo o sofrimento da humanidade, entendeu o que nos faz ficar assim. Percebeu que não sabemos o que fazemos. Mas só pôde perceber depois que passou pela experiência de ser humano.

EU: Bom... faz sentido. Eu sempre resisti a encarar o fato de que sou humana, né?

***

Mas me disseram, uma vez, que a parábola do Filho Pródigo representa a vivência de experiências de cada um de nós.

A ideia pode ser entendida de forma simples: Deus nos fez à Sua imagem e semelhança, para que possamos adquirir experiência, que Ele não tem. Conforme vivemos, Ele se enxerga através de nós, pois somos simplesmente Seu reflexo: algo assim, como espelhos. Isso quer dizer que toda experiência é válida, porque contribui para o processo de autoconhecimento divino.

Nesse sentido, o Filho Pródigo tem mais valor que o filho mais velho. O Filho Pródigo saiu de casa, correu mundo, conheceu prostitutas, conheceu a fome, conheceu o prazer e a dor. Voltou para casa com toda a experiência de um Iniciado, enquanto o outro não largou a segurança do lar e não trouxe nenhuma experiência nova para contribuir com a Evolução.

E então, entendo para que serve o perdão: é para que possamos aprontar. Sim, porque sem aprontar, como é que vamos adquirir experiência?

***

Ok, entendo, mas não adianta entender, é preciso acessar. E enquanto o acesso estiver negado, sob a censura do governo chinês, não vai adiantar nada essa masturbação mental que me domina e me fascina.

EU: Acho que é como quando eu sonhava com monstros e magos negros: o perdão está bloqueado em meu porão mais profundo e é difícil olhar para a sombra, encarar meu monstro interior. Mas uma hora vou ter que fazer isso, ou então virá uma avalanche, como no ano passado!

PSICÓLOGA: Na verdade, o que você vai encarar é a sua própria fragilidade. Vai olhar para dentro de si e ver uma menina muito, mas muito frágil. E isso assusta mais do que qualquer monstro...

EU: É... acho que sim...

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Então, diante de tamanha (e desconhecida) fragilidade... diante da inflexibilidade da censura ao acesso... diante da minha incapacidade de perdoar... o jeito é pedir: "Perdoa-me, eu não sei o que faço!".

***

E de repente sonhei que minha casa pegava fogo. Tudo em chamas e, conforme eu andava pelos cômodos, mais objetos entravam espontaneamente em combustão. Fui separando livros e porta-retratos, documentos e todos os objetos que eu acreditava que precisaria levar para fugir da cidade. Sim, porque a cidade toda pegava fogo e passava por constantes explosões. Lembro até de pegar uns miojos no armário, caso eu não encontrasse nenhum lugar para comer.

Algumas coisas eu queria levar, mas desisti. Deixa que queimem... Não me fazem mais sentido, preciso apenas do básico. Do resto, o jeito é me desapegar... Pra que servem tantas fotos? Pra que tantas lembranças?

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Sim, pra que servem tantas lembranças? Por que me apego tanto a detalhes do rodapé da memória?

Deixa a dor passar... deixa ir... let it be...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O chamado

Enquanto eu assistia ao show do Teatro Mágico, em homenagem à comemoração dos 5 anos de vida de uma certa Universidade, eu não imaginava que vinte e quatro horas depois eu estaria no alto de um morro, sentindo um vento gelado arrepiar os pêlos dos meus ossos e segurando nas mãos uma vela, enquanto assistia a um senhor grisalho conversar com Ela... que eu não podia ver.

O telefone tocou, mais de dez da noite. Era um chamado. Eu tinha compromissos no dia seguinte, mas desmarquei tudo. Quando a Mãe chama, a gente precisa atender.

***

Existem três caminhos para alcançar a Iluminação, dizia um orientador espiritual.

Janana é o caminho da Inteligência. Bhakti, o da Devoção. Karma, o da Vontade. Os três conduzem à Iluminação.

Por Jnana, a gente conhece as coisas e busca chegar a Deus (entenda-se Deus como o seu Eu Interno) pelo estudo, pelo conhecimento. Por Bhakti, a gente chega a Deus pelo amor, pela fé incondicional, por doar-se ao próximo. E por Karma, chegamos a Deus pelo trabalho, disciplina e perseverança.

Jnana e Karma, OK, eu pensava. Estudar e conhecer é muito fácil, é a melhor coisa do mundo. Trabalhar é sossegado também. Mas esse negócio de devoção eu não entendo. Não dá pra compreender como alguém pode ter fé incondicional e acreditar em algo que não compreende. Também não dá pra entender como alguém pode simplesmente amar a Tudo e a Todos e fazer o Bem pelo Bem, se em todo bem está implícito o mal, e vice-versa.

Na média da humanidade, geralmente Bhakti é o caminho mais procurado. As pessoas vão à igreja e aprendem a amar ao próximo como a si mesmo, perdoar, oferecer a outra face, doar-se ao próximo. Tudo tão simples, que nunca compreendi. Claro que não, porque não há o que compreender. É preciso apenas praticar. Mas praticar como, se não entendo?!

Sim, Bhakti é o grande mistério!

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Quando abri a porta do carro e respirei, o ar era tão leve, que me preencheu com serenidade (tão logo acabou a crise de espirros!). Eu estava em uma fazenda em Minas Gerais, com muitos cachorros, umas plantas florindo antecipadamente a primavera, uns passarinhos coloridos. Pouco tempo depois, re-conheci quem eu nunca vi, mas já ouço e leio há quase um ano e meio.

- Que bom que atenderam ao chamado.

Após um jantar vegano (ou seja, sem nenhum produto de origem animal), aconselharam-me a vestir muitos agasalhos.

- Quando Ela aparece, fica ainda mais frio! Não sei por quê!

Subindo a trilha, eu enxergava muito mais gente do que havia ali, de fato. Sim, outros seres também subiam, naquela escuridão que se acentuava pelos meus olhos saturados de luz da vela, cuidando para que ela não se apagasse. Em meio às brumas, um sussurro:

- Veja! É ali, naquela arvorezinha, que Ela costuma se manifestar.

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- Você já reparou que sua impaciência é gritante? - Disse a terapeuta, na quarta-feira.

- Apesar da sua impaciência gritante... - Disse meu amigo, no sábado.

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Não levei relógio e minha noção de tempo se apaga em Minas Gerais... então eu não sabia há quanto tempo estava ali, ouvindo aquela oração coletiva e sem conseguir pronunciar uma só palavra.

- Agora silêncio, porque Ela já está chegando.

Uma rajada de vento frio bateu nas minhas costas e tive a impressão de que me transpassou. Pela única vez naquela noite, a chama da vela que eu segurava se apagou.

***

- Vamos orar. Vamos pedir misericórdia. Ela disse que devemos orar, para prevenir o pior. O ano que vem será decisivo.

- MISERICÓRDIA! MISERICÓRDIA! Misericórdia para toda la humanidad!

E a voz intrometida dentro da minha cabeça perguntou: "O que é misericórdia?". Respondi: "Hummm... você tem um dicionário?".

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- Cordeiro de Deus, retirai os pecados do mundo, tende piedade de nós.

Ouvi isso nas poucas vezes em que estive em uma missa. Desde criança, sempre fui maldosa. E me perguntava: "Tá! E por que Ele faria isso?!".

O pensamento é inusitado, mas tem base em um raciocínio simples: o que a humanidade ganha se for sempre perdoada? Como é que poderia aprender com os próprios erros? Como mandar para o céu um pecador, sem que ele tenha pago a dívida? Não faz sentido... não faz...

E agora toda essa gente, aí, pedindo misericórdia à Mãe Divina. Eu tentei, sim, tentei acompanhar a oração, mas cada palavra que eu dizia me soava falsa. E a voz na minha cabeça, aquela mesma voz que me perguntou o que é misericórdia, acrescentou: "Cala a boca. Desde quando a gente quer misericórdia pra humanidade? A humanidade não faz por merecer o perdão. E sabemos que estamos incluídos nisso: já aprontamos demais, não é? Desde que o mundo é mundo, estamos aqui, contribuindo para tudo se acabar. Pois é. Melhor mesmo é todo mundo se f***. Só depois poderá vir a redenção..."

***

E em meio a tanta gente orando para atender ao pedido d'Ela, eu me mantinha irracionalmente calada. Os olhos pesados, quase se fechando. Eu me retorcendo por dentro e pensando: "cadê o café? Sério mesmo que estou tão viciada em cafeína?".

(Uma pessoa que tem impaciência gritante não pode tomar café. Muito menos viciar nele. O efeito é semelhante ao da cocaína.)

As pálpebras pesadas, eu ainda ouvia o que aquela gente dizia, coisas sobre misericórdia, redenção, doar-se, orar, não comer carne... Mas tudo parecia uma realidade paralela, que no infinito se encontrava com a realidade interna. Meus olhos se fixaram no ponto de intersecção entre o que está dentro e o que está fora. E então, uma outra voz falou. Era bem mais serena e calma que a primeira, quase um acalanto.

- Eu não acredito em misericórdia e perdão, porque não perdoo ninguém. E acho que se não consigo perdoar, o perdão não existe.

Algo se aqueceu dentro de mim.

- Mas isso é mesmo um absurdo, não? - Continuou a mesma voz. - É claro que o perdão existe. Se tanta gente perdoa, por que Deus(a) não há de perdoar? O perdão está em todo lugar, inclusive dentro de mim. Por que foi que eu o bloqueei?

***

Eu tinha dormido muito bem à noite, mas no carro, de volta ao mundo da impaciência gritante de Santo André, o sono me pegava outra vez. Tentei manter os olhos abertos, mas de repente, eu olhava em volta e já tinha rodado cem quilômetros com a cabeça pendendo sobre os ombros.

Pois é. Cada vez que meus olhos se abriam, eu ouvia tudo de novo: Mas o que é misericórdia? Cadê o dicionário? Como é que se perdoa? É justo perdoar? Existe perdão para quem não perdoa?!

Bhakti é o grande mistério!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Di-Djei Motorista

Por falar em transportes, trânsito, longas viagens de casa ao trabalho, lembrei de um tempo em que eu morava no Butantã e trabalhava na Vila Mariana. O texto abaixo é de 2008. A experiência é atual.

Di-Djei Motorista

“Senhor passageiro: Este veículo irá transportá-lo com conforto e segurança. Cuide bem dele.”
Placa pendurada em quase todos os ônibus de São Paulo.

Transportes públicos servem para nos conduzir de um espaço ao outro enquanto aproveitamos para perder tempo e aumentarmos nossos níveis de irritação com a lotação, o calor, a posição incômoda, os atrasos. Mas devo admitir que têm a vantagem de nos colocar em contato com o mundo. Em São Paulo, as viagens de ônibus são longas. Morando no Butantã e trabalhando na Vila Mariana, um sexto de cada dia meu dedicava-se disciplinadamente a essas viagens: das sete às nove da manhã, para ir; das seis às oito da noite, para voltar.

Eu, que antes ficava enjoada se tentasse ler dentro de veículos em movimento, logo aprendi a ler até de pé – é uma segunda alfabetização: uma mão se agarrava para manter o equilíbrio nas curvas e freadas, enquanto a outra segurava o livro aberto diante do rosto e trocava as páginas quando precisava. Mas a realidade era também um livro interessante de se ler e muitas vezes roubava minha atenção das páginas de papel que eu segurava. Há todo tipo de gente dentro dos ônibus: Deus é um ótimo criador de personagens e por isso, em vez de viajar praguejando, eu lia movimentarem-se onibusmente as cenas da Divina Obra Literária.

Foi assim no dia em que a volta demorou três horas, em vez de duas. Saí da empresa, seis da tarde, como sempre. Já estava escuro. Ponto de ônibus da Pedro de Toledo, cheio de gente. O ônibus parou seis e dez e formou-se a longa fila de passageiros entrando e passando a catraca. Chegou em bom horário, pensei, oito e pouco estarei em casa. Mas São Paulo adora desafiar as previsões e logo conseguiu desmanchar a minha.

Rodamos uma quadra. Paramos. Congestionamento. Normal, tem todos os dias. Não... Tá diferente... Pior que o normal. Dez minutos depois, ainda estávamos uma quadra adiante do ponto em que embarquei. O motorista desligou o motor: mau sinal. Significa que sim, tá tudo fudido, mesmo. Cansada de olhar pela janela para uma paisagem que não se movia, peguei na pasta os rascunhos da dissertação de mestrado e uma caneta dentro da bolsa. Se com o ônibus em movimento eu conseguia ler, com ele parado dava até para escrever.

Cerca de meia hora revisando a dissertação, fazendo anotações, reformulando trechos me conduziram duas ou três quadras para a frente, ainda na Pedro de Toledo. Quando o ônibus andava, eu levantava a ponta da caneta do papel e voltava a pousá-la na folha uns dois metros para a frente, quando já era possível escrever.

A luz do ônibus apagou. Olhei para o motorista, que estava logo à minha frente – eu havia sentado nos bancos da parte dianteira do ônibus, aqueles que ficam antes da catraca. No veículo em que eu estava, o motorista morava dentro de uma cabine formada por uma cortininha florida e umas cordas de varal. Mas ele havia aberto a cortina e, espichado sobre o banco, se espreguiçava, esticando as pernas, os pés em cima do painel. De fato, congestionamento deve ser um ótimo intervalo para um cochilo. Mas, infelizmente para mim, eu já não podia escrever, nem ler: muito escuro.

Que fazer? Mudar para minha outra brincadeira: observar as pessoas, coisa que dá para fazer no claro ou no escuro. Uma moça novinha, dessas de piercing e cabelo curtinho, continuava lendo, mesmo sem luz. Forçava a vista. Tinha um rapaz que chegou a reclamar com o outro do lado: “Eita, agora o cara ainda apaga a luz e dorme. Nem dá pra eu continuar lendo... Que merda!”. Um homem de calça e camisa sociais extremamente inquieto, falando no celular. “Não, ainda não cheguei em Pinheiros. Tô aqui na Pedro de Toledo ainda. Um puta congestionamento. Ué, que que você qué que eu faça? Essa merda num anda!”. Uma senhora também resolveu telefonar, um pouco atrás de mim. “Vai botando as batata pra cozinhá, quando eu chegá em casa termino a janta. Mais vai demorá... Tá parado aqui no começo, mesmo. Num sei como é o nome da rua, eu num conheço nada aqui, mais o ônibus nem andô direito depois que saiu do terminal. Num sei, parece que vai passá lá na Avenida do Rio Piqueno, daí eu vô a pé pra casa... É... Mais bota as batata no fogo que depois eu termino aí a janta.”. Um adolescente mergulhado no som do MP3 player, que o protegia da realidade tanto quanto um livro costuma me proteger. De longe, dava para ouvir as batidas do surdo da bateria: deve ser rock, pensei eu.

Uma música diferente começava a tocar, fluindo viscosamente de dentro da casinha de cortina do motorista. Pagode. Agora sim, eu mereço! Em todo caso, era engraçada e divertida a atitude. Stress pra quê? Tudo parado, uma imensidão impotentizante de nada pra fazer, o negócio era seguir as sábias palavras de uma conhecida política paulistana – que, por sinal, gabava-se de ter melhorado o trânsito de sua cidade natal: “Relaxa e goza!”. O motorista cantava alto junto com a música e pelo ônibus, algumas pessoas pareciam indignadas. Outras começaram a cantar também, e vi até uma mocinha meio que rebolando sentada no banco.

Um rapaz gritou, lá do fundo: “Abre a porta aí, vai, motorista! Eu quero descê! Chega dessa merda, eu vô a pé!”. O motorista deu um tapinha no botão que controla a porta, o rapaz desceu, mais umas quatro ou cinco pessoas resolveram aproveitar a oportunidade.

Mais um pouquinho de pagode, mais um tapinha em algum botão e de repente pulsava o Techno. Putzputz, eu costumava dizer. O motorista empolgou. Dançava sentado na balada particular improvisada na sua danceteria de cortina. Aumentou o volume. Com as mãos, batucava no painel do ônibus, apagando e acendendo as luzes, no ritmo eletrizante da música. Di-Djei Motorista, a balada estava completa! Abria-se espaço entre o ônibus e o carro da frente, ele nem se dava ao trabalho de religar o motor: apenas soltava o freio e deixava o veículo deslizar, putzputzando o freio com o pé, obrigando todos os passageiros a dançarem com ele.

Muitas caras feias no ônibus: já estava tudo parado e o motorista ainda inventava essas gracinhas. Eu, por minha vez, ria. Ria muito do aparente bom humor do motorista. A cobradora também ria, e vez ou outra nós trocávamos olhares sorridentes. Esse putzputz congestionado, que animava metade do ônibus e deixava ainda mais irritada a outra metade, nos conduziu até o final da Pedro de Toledo, onde um caminho vazio milagrosamente abriu-se à nossa frente. Avenida Quarto Centenário quase limpa: enxergavam-se áreas grandes de asfalto, em vez de um tapete de carros, como se via na rua anterior. O motorista, então, resolveu recuperar o tempo perdido: ligou o motor e socou o pé!

Ônibus rápido tem também que parar rápido – e são muitas as paradas de um ônibus. Há os semáforos, os pontos, os barbeiros... Tudo contribui para a alta necessidade do pé se enfiar no freio. Cada freada brusca era seguida por uma cara feia do motorista, que certamente preferia que ninguém descesse nem subisse no ônibus, até chegar no tão-periférico Vila Dalva, onde morava o ponto final.

A balada cada vez mais frenética, o putzputz acelerava o motor do veículo, as luzes agora piscando apenas nos intervalos – que nos pareciam muito mais longos que o normal – dos semáforos e paradas nos pontos. Cansada, quase o tempo todo no escuro, meus olhos foram pesando. Adormeci.

Desadormeci putzputzantemente em Pinheiros, agora sem luzes piscando. O corredor do ônibus estava cheio de gente de pé e agradeci a Seilaquém por estar sentada. Quando um ônibus demora a passar, os passageiros vão brotando nos pontos. O primeiro veículo que passa fica, obviamente, insuportavelmente lotado. Parecia ser o nosso caso.

Grito repentino: “Vai, seu Filhadaputa! Não ficou na minha traseira, buzinando? Agora vai, que eu que vô atrais colado na tua traseira tamém!”. A balada ambulante não era suficiente para sossegar os ânimos do motorista, que agora não me parecia tão calmo quanto quando alongou os pés por cima do painel. Tomamos parte numa perseguição ao Filhadaputa. O ônibus tentava se meter na bunda do carro dele – talvez impulsionado por uma sádica fantasia inconsciente. O Filhadaputa tentava escapar, mudando de faixa, mas o ônibus mudava junto, coladinho atrás. Nos semáforos, o pára-choques dianteiro do ônibus aproximava-se vigorosamente do pára-choques traseiro do Filhadaputa, tentando conquistá-lo, e eu já quase certa de que, mais cedo ou mais tarde, rolaria um beijo. Até que o Filhadaputa virou à esquerda e o ônibus, obrigado a seguir o itinerário da linha, continuou em frente, triste pelo não contato com seu objeto de desejo. Escapou o Filhadaputa! “Pronto, dei uma lição nele!”, finalizou o motorista.

Duas horas e meia de viagem. O estômago já doendo da fome de quem almoçou sete horas atrás. A bexiga cheia e em ônibus urbano não tem banheiro, apesar das viagens normalmente demorarem mais que uma viagem intermunicipal. Eu assustada com a velocidade, as freadas bruscas, as curvas que faziam o veículo se inclinar, quase capotando, enquanto o motorista procurava chegar logo ao ponto final onde, provavelmente, o final do expediente o aguardava ansiosamente. Sim, eu assustada com a velocidade e ao mesmo tempo aliviada porque a cada espaço per-corrido, diminuía o espaço que me separava de casa.

Três horas depois de pegar o ônibus na Pedro de Toledo, eu me espremia entre as pessoas para conseguir passar pela catraca e alcançar alguma das portas de saída. Os passageiros mal-humorados, para passar para o lado de fora era preciso espremê-los e pisar num tapete de pés que disputavam entre si escassa área de chão. Finalmente, consegui me desentalar e saltar do ônibus na Corifeu. Ar fresco... alívio!
Subi a ladeira para casa, exausta, prestes a cozinhar o jantar, comer, lavar a louça, tomar banho e dormir. Dali menos de doze horas, eu pegaria de novo a mesma linha, desta vez no outro sentido, para voltar ao trabalho. É... preciso mudar de casa!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Todo dia

- Eu queria merrmo é tá na Bahia uma hora dessa, cumendo um vatapá, um cuzcuz de tapioca, um acarajé do Rio Vermelho, deitado na rede de mainha! - Disse o cobrador, que pertencia à minoria privilegiada que consegue viajar sentada.

- Então por que não vai duma vez?! - Perguntou uma passageira intrometida.

- Eu vô e levo ocê junto, minha flor! - Respondeu o cobrador, num tom tão carinhoso e espontâneo que me fez rir sozinha lá no fundo do busão.

***

07:13, saio no portão e vejo o 477P-10 passando direto pelo ponto, do outro lado da avenida. Droga! Paro no ponto de ônibus, tremendo debaixo de um casaco que me cobre do pescoço aos joelhos, jogado por cima de um agasalho de lã.

477P-10, é quase um número de telefone! Só essa merda de cidade gigante pra precisar de tanto dígito pra definir uma simples linha de ônibus!

Descem vários ônibus, que eu nem imagino para onde vão. Gosto de imaginar como são esses lugares. Tipo assim, quem é que mora em Vila Brasilina? Onde é mesmo o Jd. Zoológico? Shopping Plaza Sul não tem graça, é aqui do lado. O meu preferido é o Jd. Clímax! Imagine como deve ser esse bairro!

Com o tempo, começa a ficar repetitivo: outro Clímax? Outro Brasilina? Vai juntando gente no ponto de ônibus e as pessoas começam a comentar: "já passaram 2 Ipiranga do outro lado!", "já faz mais de meia hora que tô aqui!"... Um casal de velhinhos parece sentir mais frio que eu. Sempre me pergunto o que os idosos, que já se aposentaram e podem dormir até tarde, fazem num ponto de ônibus antes das 8h da manhã, num frio de doer os ossos!

Uma moça com cara de ter mais ou menos a minha idade puxa assunto. Trabalha na Paulista, com assessoria de imprensa. Estranha nunca ter me visto no ponto de ônibus: "É que eu estou trabalhando nesse novo emprego há pouco tempo. Comecei a pegar esse busão na semana passada", explico.

Passa outro busão, mas esse vai para RESERVADO, um lugar que bem poderia ficar logo antes do Clímax.

Ela acende um cigarro.

- Também, quer ver que assim que eu acender o cigarro, o busão vai passar? Não vou dar nem dois tragos e essa merda aparece!

- Então acende logo, que eu tô atrasada! - Respondo.

Não deu certo. Passou o terceiro Ipiranga do outro lado. Olho no relógio do celular: já era para eu ter chegado em Santo André.

A moça terminou o cigarro, me contou sobre os desfiles e jantares a que precisa ir, graças ao seu difícil trabalho de assessora de imprensa. Eu contei sobre as minhas diversas mudanças de casa, umas 7 desde 2003.

08:07, enfim surge o 477P-10 Ipiranga! Na falta de um, chegam logo dois. Entro no ônibus, já muito irritada. Olho para a cara do motorista.

- Caramba! Quase uma hora! Já era pra eu estar em Santo André, trabalhando!

O homem abaixa a cabeça, talvez pra esconder a cara feia.

***

Depois do busão e do metrô, chega a hora do trem da CPTM. Integração gratuita na estação Tamanduateí. Um som bonito de piano me chamou a atenção. É um projeto cultural: deixam pianos disponíveis em algumas estações, para quem quiser tocar. Alguns passageiros aproveitam para treinar, outros tocam até o bife, mas de vez em quando tem um pianista quase-profissional que resolve nos presentear com seus dons.

OK, menos mau humor agora. Pena que nunca tenho tempo de parar para assistir. O som vai surgindo devagarinho quando cruzo a catraca que liga o metrô à CPTM, aumenta de volume conforme eu me aproximo da escada (ao lado do piano) e vai diminuindo no ritmo em que a escada rolante me afasta daquele andar, rumo à plataforma. Que pena. Um dia eu venho mais cedo, para ouvir mais um pouco... Um dia...

***

Ao chegar na estação Santo André - Prefeito Celso Daniel, eu poderia ir a pé até o trabalho, mas não vou. No primeiro dia, me disseram que é perigoso demais: foram tantos assaltos no trecho entre a estação e a universidade, que decidiram colocar um ônibus gratuito para fazer esse percurso. Recomendaram-me muito cuidado, só ir a pé se estiver acompanhada, etc. etc.

O problema é que o ônibus, que em teoria passa a cada 10 minutos ou menos, também demora. Demora porque pega trânsito, porque não tem onde parar, porque o número de alunos aumentou consideravelmente e não colocaram mais ônibus, e como são veículos de viagem, não vai ninguém de pé. Mesmo chegando 7:45 na estação, chego no trabalho só umas 8:15. Ou mais.

Dizem que a pé, eu chegaria em 10 minutos. Um dia eu tentei. Mas com minha deficiência espacial, não consegui achar um meio de atravessar o rio. Eu via a universidade, aquele prédio alto, logo ali na frente, mas não achei nenhum modo conveniente de chegar até lá. Foi quando vi o busão passar e corri para o ponto. Achei melhor ir pelo caminho certo. Um dia eu aprendo a ir a pé. Um dia...

***

Chegando na estação Tamanduateí, nem ouvi som de piano. Logo na minha cara, um cartaz: "Os trens da CPTM pararam de circular por tempo indeterminado". E agora?

Fui até a SSO. Existe algum ônibus daqui para Santo André?

- Tem um ônibus pra Santo André que sai de Sacomã, moça, mas não sei se você vai conseguir pegar. Está circulando esporadicamente, porque a EMTU também está em greve.

Eu já estava pensando em voltar para casa, quando um rapaz me chamou. Ia para o mesmo lugar que eu, organizou um grupinho para dividir um táxi. Fomos todos para a avenida. Levamos um tempo para arranjar o carro, porque em dia de greve, todo mundo tem ideias parecidas. Mas conseguimos um motorista legal, que topou levar nós cinco. Sim, cinco: um no banco da frente, quatro no banco de trás, apertadinhos.

Fomos conversando sobre psicologia, engenharia, loucura, suicídio, políticas públicas... Um cara comentou que esse não é o tipo de papo que ele teria numa mesa de bar. É bixo, tinha que ser. Desde que entrei na graduação, comecei a achar comum falar de nerdices na mesa de bar, na da cantina, na da biblioteca, na da cozinha... Um dia ele acostuma.

Fui uma das poucas do meu setor que conseguiram aparecer para trabalhar. Um dia de silêncio no trabalho, exceção à regra.

***

Ok, as viagens de todo dia são interessantes. Voltei a vivenciar a realidade das ruas, e não o mundo alienado de dentro de um automóvel particular, ambientado com as músicas que quero ouvir e vários objetos pessoais espalhados do porta-luvas ao porta-malas.

Sim, adoro viajar, mas não todo dia. Não por obrigação. Não preocupada com as mil coisas que eu deveria estar fazendo enquanto espero o 477P-10, o 476o Novo Trem do Metrô, o trem véio da CPTM que passou por cirurgia plástica, o busão gratuito e desorganizado da universidade...

Resultado: lá vou eu para a oitava mudança, desde 2003. Um dia eu conto para uma outra mocinha no ponto de ônibus sobre essa nova aventura.

Só não sei por que as pessoas não acreditam quando digo que não gosto de mudar de casa! É sério, gente: sou uma canceriana!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A higieni(opoli)zação das cidades

A mais recente grande mobilização no Facebook é o Churrascão dos Diferenciados, em Higienópolis. O motivo do movimento é a recente decisão do Governo do Estado de São Paulo de alterar o local de uma futura estação de metrô, que seria construída na Avenida Angélica, em Higienópolis, cedendo à pressão de moradores, que assinaram um documento formalizando seu desagrado.

Até às 21:40 do dia 12 de maio de 2011 (momento em que escrevo estas linhas), 50.255 pessoas confirmaram presença no Churrascão Modificado (pois o evento do churrasco foi transformado numa manifestação beneficente na praça Vilaboim). Muito mais que os 3.500 moradores de Higienópolis que assinaram o documento posicionando-se contra a estação.

Sou usuária do transporte público e defensora do direito das pessoas circularem por aí da forma mais fácil e menos custosa aos bolsos e ao meio ambiente. Mas hoje, em vez de engrossar o coro dos que defendem o metrô da Av. Angélica, vim apenas falar – mais uma vez – da sombra da cidade.

Convite para o Churrasco da Gente Diferenciada

***

Em entrevista à Folha de São Paulo, a psicóloga Guiomar Ferreira disse: "Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada...". (A profissional envergonha a minha categoria.)

Há também a advogada Anna Claudia de Salles, presidente do Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) de Perdizes/Pacaembu, bairro que provavelmente vai abrigar a estação, no lugar de Higienópolis. Essa ilustre senhora disse: "Infelizmente, seremos mais abordados por pessoas flutuantes.".

***

– Oi, Gabriela. Eu queria saber se você poderia acompanhar a assistente social em uma abordagem social que precisa ser feita com urgência. O diretor do museu se queixou das pessoas em situação de rua que têm ficado lá. A prefeitura solicita que o CREAS atue.

– Mas eu vou lá para fazer o quê? Pedir para se retirarem? Eu, psicóloga, pedir para as pessoas saírem de um local público? Que direito ou que dever eu tenho de fazer isso?

– Não, não é isso... Vocês só tem que conversar com eles, sugerir que venham ao nosso serviço, para pensarem em alternativas para sair das ruas... O de sempre, sabe?

– Alternativa? Que alternativa eles têm? O que eu posso oferecer a eles de melhor? Não existe um espaço para eles, albergue, república, nada! Eles vão chegar aqui, vão conversar, depois vão voltar para a rua, para o museu, para qualquer outro lugar.

– Não, não é isso... Vá apenas para ver quem está lá, se já está cadastrado em nosso serviço. E ofereça atendimento, fale que estamos aqui para apoiá-los, essas coisas... Veja, é que instâncias superiores estão solicitando...

– Tudo bem. Eu vou. Mas não vou dizer para ninguém sair de lá!

– Certo, fique tranquila, não é isso que estou pedindo a vocês.

– Quem vem nos buscar? Fiquei sabendo que um motorista está de licença médica, o outro se recusa a fazer abordagem social e o outro está levando alguém para uma reunião em outra cidade.

– A Guarda Municipal vai buscar vocês.

– A Guarda Municipal?!! Mas assim fica complicado! Temos tido muito trabalho para desvincular nossa imagem da guarda municipal. As pessoas que atendemos se queixam de sofrer violência por parte da guarda. São papeis que não podem se misturar!

– Peça para os guardas ficarem distantes. Eles só têm que levar vocês até lá, não precisam ir com vocês abordar as pessoas. Diga para ficarem longe, e vocês vão procurá-los quando acabarem a abordagem.

***

Em poucos minutos, uma Kombi da prefeitura estacionou na nossa porta. Respirei mais aliviada quando vi que não era uma viatura da GM, nem tinha qualquer coisa escrita que indicasse vínculo com a GM. Entrei no veículo com a assistente social, carregando um caderno, uma caneta e alguns papeis com o endereço do CREAS.

O problema é que eu sentia que nada disso ia adiantar: a maioria das pessoas em situação de rua já frequentava nosso serviço. Provavelmente, daríamos de cara com nossos velhos conhecidos. E eu ficava imaginando o que poderia dizer. “Oi, tudo bem? Sua noite foi boa? Quer um marmitex?”.

Entramos no museu e não havia nada de diferente. Apenas alguns funcionários limpavam o local. Não encontramos sequer um visitante.

– Por favor, senhora... Nós gostaríamos de falar com o diretor do museu.

– Ele não se encontra no momento.

– Disseram que havia algumas pessoas em situação de rua aqui...

– Ah, sim! Estava um monte de gente aqui hoje cedo, a maior bagunça! Uma sujeira danada! Eles dormem aqui, usam droga, largam seringa jogada, mijam e cagam no chão... Depois que foram embora, sobrou um monte de coisa, até calcinha tinha ali, pendurada na cerca! Vocês são da prefeitura? Olha, tem que vir cedo, umas 6h da manhã, daí vocês pegam eles! A prefeitura têm que fazer as coisas direito, eu morro de medo, tem uns aí que têm doença, AIDS... Vai passar pra gente, que trabalha aqui!

– Então eles já foram, senhora?

– Já foram, mas vem amanhã bem cedinho, umas 6 ou 7 horas, que vocês pegam eles! A prefeitura tem que fazer alguma coisa! Eu acho que tem que ser assim: quem não é da cidade, manda embora! Faz que nem antigamente, bota dentro de uma Kombi e solta em Itatiba! Acaba logo com o problema!

***

Enfiar numa Kombi e soltar em Itatiba acaba logo com o problema... Não foi a primeira vez que ouvi isso. Nos grupos de pessoas em situação de rua, os que estavam nessa condição há mais de dois anos sempre falavam de operações feitas pela guarda municipal e por uma suposta assistente social (pelo que apurei depois, era uma funcionária comissionada que, definitivamente, não era assistente social). Nessas ocasiões, eles eram obrigados a entrar numa Kombi que os deixava na divisa dos municípios de Valinhos e Itatiba. A informação foi confirmada por diversos funcionários da assistência social da cidade. Disseram-me que uma vez, isso saiu no jornal.

Cerca de um ou dois anos atrás, foi surgindo uma nova forma de atendimento e as operações para levar pessoas em situação de rua para Itatiba foram encerradas. Mas muitos ilustres moradores do município de Valinhos ainda acreditam que essa é a melhor solução para deixar as pessoas de bem livres de “mendigos”, “pedintes”, “indigentes”.

Se não fosse tão politicamente incorreto, diriam que o melhor seria haver na cidade uma câmara de gás.

***

Pessoas diferenciadas, pessoas flutuantes, pessoas em situação de rua... São eufemismos que deixam o preconceito ainda mais evidente. Lendo as falas da psicóloga e da advogada de Higienópolis, transcritas com aspas, vejo a Sombra da Cidade, desta vez em São Paulo.

As pessoas estão aí, sejam cobertas de luz ou de sombra. Um mendigo, um indigente, um pedinte, uma pessoa diferenciada ou flutuante, um drogado, um camelô, um vendedor ambulante, é também um pai, um trabalhador (normalmente desempregado), um doente e, acima de tudo, um ser humano.

É muito mais conveniente esconder a sombra do que olhar para ela, não é mesmo? Pega o que é sujo e joga fora, limpa, higieniza, tira do alcance do olhar. Mas é justamente dessa maneira que ficamos cada vez mais presos por detrás de muros, cercas eletrificadas, alarmes e vidros com insulfilme, enquanto “pessoas diferenciadas” reivindicam – e confiscam para si – a liberdade.

Enquanto a solução for transportá-los para a cidade vizinha ou mudar de local uma estação de metrô, estaremos apenas deslocando o problema social, temporariamente. Sim, temporariamente, pois como disse um senhor que esmurrou a porta do CREAS durante uns três dias, “Daqui a Campinas eu vou até de joelhos!”. Ou seja, as pessoas se deslocam, mesmo que seja a pé – ou de joelhos.

Aos ilustres moradores de Higienópolis e de Valinhos, ou de qualquer lugar, eis um desafio: encontre uma pessoa flutuante e diferenciada. Converse com ela. Pergunte sobre sua vida. Olhe nos olhos dela enquanto ela fala, mesmo que todo o discurso pareça completamente sem sentido. E agora? Você ainda é o mesmo? Essa experiência foi um diferencial na sua vida?

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Encontros e reencontros - Parte IV

[Texto escrito em 11 / 05 / 2011]

Quando a gente lança uma pergunta ao Universo, Ele responde. É preciso ficar atento, porque a resposta pode estar em qualquer lugar: no trecho de um livro que você pegou por acaso na estante, num e-mail desses de corrente que um amigo chato mandou pela internet, na conversa com um colega de trabalho, no mendigo que te abordou na rua, nas reações do corpo em termos de adoecimento e cura, num sonho, num assalto... em qualquer lugar, sem exceção!

No dia 11 de abril de 2011, lancei a pergunta: "Como é que posso deixar de lado a minha consciência, a minha individualidade, para me tornar o Todo?". (ver Encontros e reencontros - Parte III)

A resposta foi rápida, pois o Universo não tem pressa e também não tarda. E foi simples, porque tudo no mundo é muito mais fácil do que parece. E se escrevo agora, após exatos 30 dias, é porque eu mesma levei tempo para assimilar.

***

A primeira parte da resposta veio através do amigo Aluysio Robalinho, que tomo a liberdade de citar, mesmo sem ter pedido permissão:

"Será mesmo preciso abdicar da consciência individual para penetrar no todo? (ou deixar que ele nos penetre?)... Se a espiritualidade de que falamos é quântica... há possibilidade de manter as duas consciências (individual e universal, part...ícula e onda, como na luz) íntegras... Os orientais dizem que há várias espécies de Samadhi... e se não me falha a memória, o "samadhi da forma" permite que vc. mantenha os limites da consciência particular, o que, no fundo, não vem a ser outra coisa senão o que veio a se chamar "avatara individual"..."

***

Também chegou um email, quase que ao mesmo tempo. Continha dois anexos, duas versões de um mesmo documento, que não cheguei a abrir naquela noite, porque já estava muito cansada e sem condições de pensar em mais nada.

***

TRATADO DE LA UNIDAD

IBN ARABI (traducido y comentado por Roberto PLA)


¡Gloria a Allâh, ante cuya Unidad no hay nada anterior, si no es Él, que es el Primero! ¡Gloria a Allâh, después de cuya Singularidad no hay un después, si no es Él, que es el Siguiente!

Con relación a Él no hay antes, ni después; ni alto ni bajo; ni cerca, ni lejos, ni cómo, ni qué, ni donde, ni estado, ni sucesión de instantes, ni tiempo, ni espacio, ni ser. Él es tal como es. Él es el Único sin necesidad de la Unidad. Él es lo singular sin necesidad de la Singularidad.

Él no está compuesto de nombre, ni de denominado, porque Él es el nombre y el denominado. No hay nombre salvo Él. No hay denominado salvo Él. Por ello se dice que Él es el nombre y el denominado.

Él es el Primero sin anterioridad. Él es el Último sin posterioridad. Él es Evidente sin exterioridad. Él es Oculto sin interioridad. Porque no hay anterior, ni posterior; no hay exterior, ni interior, sino Él.

***

Sonhei que estava prestando vestibular. Estava em uma sala da Unicamp, com muitos candidatos, entre eles meu namorado, que também faria prova. Não sei que curso desejávamos, mas era o mesmo. As paredes da sala eram revestidas de pedra.

No primeiro dia de prova, fomos estimulados a escrever nas paredes da sala com canetinha. No segundo dia, entrei na sala e vi uma espécie de grafite nos azulejos, acima da lousa, que não estava lá no dia anterior... uma frase escrita com caneta de quadro branco. Não lembro qual era a frase, mas lembro que me fez um sentido enorme, parecia que era algo para eu meditar neste momento da minha vida. E no final da frase, havia uma assinatura em letras maiúsculas: o nome completo do amigo que me mandou por email o Tratado de la Unidad!

No sonho, fiquei meio cismada, porque eu não tinha contado que ia prestar vestibular. Pensei: o que esse cara tá fazendo em Campinas? Como descobriu que eu estaria aqui?! Como entrou nesta sala?!!! Como é que ele pode estar tão envolvido na minha vida, sendo que eu nem o conheço pessoalmente? Depois descobri que ele estava em Campinas há alguns dias, dormindo na estação de trem.

Chamaram-me para ajudar a entregar as provas para os outros candidatos. Para isso eu precisava pendurar um lençol no pescoço. Eu já estava embrulhada em um lençol que tinha trazido de casa, mas me entregaram outro: era preciso mudar de "veste". Comecei a entregar as provas, mas eu tinha dificuldade de achar as pessoas... vi que tinha vários nomes de pessoas que não estavam na sala e faltavam as provas de pessoas que estavam na sala.

Psicóloga: E esse amigo, o que significa neste momento de sua vida?

Eu: Não sei. Ele me mandou um email, tinha dois arquivos em anexo, depois ele me ligou e insistiu para eu ler. Mas ainda não sei o que é, está tudo muito complicado, minha cabeça está só nos relatórios que preciso finalizar para o Fórum para fechar esta etapa de vida.

Psicóloga: Então talvez seja por isso que você não se lembra da frase que ele escreveu... Quem sabe depois que você ler...

***

Su existencia está únicamente en los textos de la profecía. Sin embargo, sólo Él existe y no puede dejar de existir puesto que jamás vino a la existencia. Por eso ha dicho el Profeta: "Quien se conoce a sí mismo conoce a su Señor". También ha dicho: "Yo conozco a mi Señor, por mi Señor". El Profeta de Allâh ha querido hacerte comprender que tú no eres tú, sino Él: Él y no tú; que Él no cabe en ti y tú no cabes en Él; que Él no sale de ti y tú no sales de Él.

Lo que quiero decir es que tú no eres, o posees tal o cual cualidad, que no existes y que no existirás jamás, ni por ti mismo, ni por Él, en Él o con Él. Tu no puedes cesar de ser, porque no eres. Tú eres Él y Él es tú, sin ninguna dependencia o casualidad. Si alcanzas a reconocer en tu existencia esta cualidad de la nada, entonces conoces a Allâh, En otro caso, no.

***

E apenas ontem, 10 de maio, é que conversei novamente com o amigo:

O que quero dizer é bem simples... (e passei um tempo pensando em como continuar, porque as coisas simples são as mais difíceis de se escrever).

abdicar da individualidade para abrir-se à coletividade é ilusão, porque não existe individualidade, nem coletividade... existe unidade.

ou seja, as indagações que eu me fiz naquele momento são inúteis.

inúteis porque não têm razão de existir... por outro lado, úteis por me revelarem meus próprios bloqueios.

***

Si alguno pregunta: "¿Cómo se opera la Unión, puesto que afirmas que sólo Él es? Una cosa que es única no puede unirse más que con ella misma". La respuesta es: En realidad, no hay unión ni separación, como no hay alejamiento ni aproximación. Se puede hablar de unión entre dos o más y no cuando se trata de una cosa única. La idea de unión o de llegada comporta necesariamente la existencia de dos cosas al menos, análogas o no. Si son análogas, son semejantes. Si no son análogas, forman oposición. Pero Allâh --¡que Él sea exaltado!-- está exento de toda semejanza, así como de todo rival, contraste u oposición. Lo que se llama ordinariamente "unión", proximidad o alejamiento, no son tales cosas en el sentido propio de la palabra. Hay unión sin unificación, aproximación sin proximidad y alejamiento sin idea alguna de distancia.

***

Dormi a noite passada pensando em respirar (difícil respirar no outono seco...), em umidade, unidade, cachoeira... Voltei à Chapada dos Guimarães, encontrei o homem que não sabia boiar.

- O que eu lhe disse naquele dia era apenas uma ferramenta, útil apenas para agora. Mas é mentira. Na verdade, para boiar na água, você precisa ser a água. Porque a água não afunda nem se afoga em si mesma.

O homem pareceu meio confuso, mas já que comecei, o jeito era continuar...

- E na verdade, você já é a água. Você é Tudo. É o Todo. E por isso mesmo, não precisa temer.

Pensei mais um pouco.

- A ilusão de separação vem do medo de aceitar-me por completo. Só quando nos entregamos a nós mesmos por inteiro é que chegamos à noção de Unidade.

ASATO MÃ SAD GAMAYA
TAMASO MÃ JYOTIR GAMAYA
MRITYOR MÃ AMRTYUM GAMAYA
OM SHANTIH, SHANTIH, SHANTIH

terça-feira, 10 de maio de 2011

Placas pelo mundo

Vira e mexe aparece um e-mail com as placas estranhas que as pessoas encontram pelas ruas. Sempre me pergunto se são reais ou fabricadas em Photoshop e congêneres. Enfim, resolvi seguir a tendência e postar algumas placas que vi nas minhas viagens. Essas eu vi mesmo, posso atestar que são verídicas!

***

Em Natal (RN): É pras ostras prestarem atenção? Ou estão me chamando de ostra?! Sei lá... mas não vi ostra nenhuma nesse lugar!


 Ainda em Natal (RN): achei uma ótima ideia!


Em Canarana (MT): jeito original de alertar para o perigo!


Em Nova Xavantina (MT): ãh?! Alguém explica?!


Em Cuiabá (MT): aparentemente, eles consertam qualquer coisa que não seja um livro.


Em San Matias (Bolívia): "El que se queda afuera se queda" - isso é que é intransigência!


No aeroporto de Goiânia (GO): "Dance rebolation na faixa azul"?


Em Barra do Garças (MT): como é que se pode conversar com duendes e ver disco voador se é proibido bebidas alcoólicas e drogas?


Em Berlim (Alemanha): "Atenção: foguetes decolando!"


Em Cuzco (Peru): muito interessante! Pena que os brasileiros ainda não descobriram que a capital brasileira da natureza fica no Acre, aquele estado que nem existe!


Em Paranapiacaba (SP): O "munitor" faltou às aulas de ortografia.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cachoeiras de São Thomé das Letras

Engraçado como as grandes mudanças de minha vida têm sido sempre precedidas por viagens. E são viagens que não foram planejadas para estar na intersecção entre fases de vida, mas que, no fim das contas, acabam se revelando como momentos de transição. Eu e Daniel havíamos planejado viajar para São Thomé das Letras na Páscoa, antes mesmo que eu soubesse que a Páscoa encerraria minhas atividades na Prefeitura Municipal de Valinhos.

Eu já tinha ido uma vez a São Thomé, anos atrás, em uma excursão de um final de semana. A programação de atividades da excursão incluía muitas palestras, reuniões, passeios para comprar artesanato, igrejas, pizzas e... nenhuma cachoeira. Os companheiros acreditavam que a iluminação espiritual se dá mais pelas palestras e discussões, e que conhecer as belezas naturais do local poderia ficar em segundo plano. Bem, respeito todas as formas de espiritualidade, mas... por isso mesmo, tenho descoberto minhas próprias maneiras de me encontrar por aí. Hoje, se depender de mim, as cachoeiras, trilhas e montanhas serão o primeiro tópico das minhas viagens.

Os motivos para gostar tanto das cachoeiras são diversos, alguns de natureza tão subjetiva que não tenho como declarar. A cada contato, vai aumentando o nível de consciência sobre a riqueza da experiência que as cachoeiras me proporcionam. Cada uma tem sua personalidade, suas delícias e seus caprichos. Existem as serenas, as revoltadas, as violentas, as gordas e as magras, as que têm cara de jovem, de mãe ou de avó, as amigáveis e as hostis, as mais masculinas e as mais femininas (embora eu acredite que a natureza de uma cachoeira é fundamentalmente feminina), as mais geladas e as mais frescas.

Confesso que o gelado da água, muitas vezes, é assustador, e que já fiquei olhando de longe, da margem, com aquela vontade enorme de entrar, mas sem coragem. Hoje eu sei que o gelado é apenas a ausência de calor, é só mais uma qualidade da matéria natureza. Esfria o corpo, sim, às vezes deixa meus lábios roxos e me faz tremer por vários minutos, mesmo depois de sair da água. Ainda assim, tenho enfrentado. Entro ordenando ao corpo que mande o calor para as extremidades (sim, após algum treinamento, o corpo começa a obedecer aos nossos comandos). Vou entrando, devagarinho ou de uma vez só, mas entro! Porque nada se compara à experiência de abraçar um rio. Os braços espumantes da Mãe Natureza vão levando embora as impurezas, mas não só as do corpo... é um abraço que lava a alma! Literalmente!

Então, para os demais aventureiros que gostam de enfiar o pé na lama, o carro em estradas terríveis, se arranhar em espinhos e tomar picadas de insetos, tudo em busca de uma boa queda d'água... seguem as dicas de lugares legais para passear em São Thomé das Letras.


***


Avisos:

1. O nível de dificuldade da estrada pode variar em função das condições climáticas, mas saiba que seu carro, inevitavelmente, ganhará uma camada espessa de terra sobre a pintura.
2. O nível de desafio para encontrar o caminho pode variar em função da ação dos duendes.
3. O teor de THC no ar parece ser determinado por data, horário e distância do centro da cidade. Os valores aqui descritos se referem ao momento em que estivemos presentes.


***


Cachoeira da Eubiose


Nível de dificuldade da estrada: Baixo
Desafio para encontrar o caminho: Baixo
Temperatura da água: Gelada
Teor de THC no ar: Médio


Foi a primeira cachoeira que visitamos, porque fica bem perto da cidade (cerca de 3 Km). Há placas indicando o caminho, mas em uma encruzilhada, especificamente, a sinalização está meio escondida.

Uma delícia para refrescar após 9 horas de viagem (sim, 9 em vez de 5, graças ao congestionamento no começo da Fernão Dias). A profundidade da piscina natural não é muito grande, mas com meu 1,49m de baixura, não deu pé para mim em alguns pontos. Mesmo assim, o local onde fica a queda d'água é raso o suficiente para você poder parar em pé e relaxar enquanto sente a pressão da água nos ombros, costas e cabeça.

Para chegar da estrada (onde é possível parar o carro) até a cachoeira, é preciso percorrer uma trilha de uns 10 minutos a pé. Enquanto descíamos, vimos três pessoas subirem bufando e dizendo que era muito cansativo. Até chegamos a pensar que seria um longo e árduo caminho até a cachoeira, mas na volta, concluímos que eram seres sedentários demais. Dá para subir tranquilamente, até para mim, que não pratico exercícios físicos regularmente.


Cachoeira das Borboletas


Nível de dificuldade da estrada: Alto, se você não for de Jeep
Desafio para encontrar o caminho: Alto, se você não for com um guia
Temperatura da água: Fria
Teor de THC no ar: Alto



Essa cachoeira estava incluída no roteiro de um pacote que fizemos, que passou por algumas grutas e pontos místicos da cidade. O passeio era de Jeep, o que foi providencial, porque de carro comum dificilmente conseguiríamos andar por aquelas estradas em aclive que passam no meio das pedreiras. Chegamos no final da tarde e o local estava essa muvuca que vocês veem na foto.

A cachoeira é bonita, sim. Tem um poço profundo, de tal forma que uns malucos chegam a pular de lá do alto para dentro da água (digo malucos porque, a meu ver, a profundidade não era suficiente para dar esses saltos... mas enfim, cada um é cada um). Na região das quedas, é possível parar em pé numa boa. A água cai com tanta pressão, que parece que você está levando vários socos nas costas. Mas é bom apanhar assim rs...

Dizem que o nome vem da abundância de borboletas que existem no local, mas não cheguei a vê-las, talvez porque no dia e horário em que fomos, tinha muita gente. Na entrada da propriedade onde fica a cachoeira, há um bar onde o povo se encontra para chapar e encher a pança. Em seguida, uma trilha leve em que o único risco parece ser o de pisar em bosta de vaca. Lá embaixo, o pessoal já estava bem chapado de cerveja e maconha, o que, a meu ver, não é um problema em si. Mas é meio chato encontrar latinhas de cerveja e pontas de baseado na água e meio difícil relaxar com um monte de gente fazendo algazarra. Ou seja, não é o meu perfil de cachoeira, ao menos não para se visitar em feriados prolongados...


Antares


Nível de dificuldade da estrada: Alto
Desafio para encontrar o caminho: Alto
Temperatura da água: Muito gelada
Teor de THC no ar: Baixo



Essa foi a maior cachoeira que encontramos em São Thomé. Uma queda razoável e, por isso mesmo, foi eleita pelas empresas de turismo para a prática de cachoeirismo (descer a cachoeira amarrado em cordas, ou seja, um rapel molhado).

Fazer rapel era um desejo que tínhamos já de outras viagens e dessa vez, pudemos concretizar. Acertamos com uma empresa que fica no centro da cidade. O transporte até o local ficou por nossa conta e foi bem complicado encontrar a cachoeira, que fica a uns 18 Km de distância da cidade. As placas ajudam um pouco, mas há várias bifurcações não sinalizadas. A estrada está muito ruim e em diversos trechos foi difícil de passar com o carro.

Paramos em um camping / bar no meio do caminho, pedimos informações para um jovem barbudo que nos sugeriu ir a pé por uma trilha que passava por dentro de sua propriedade. O cara disse ser dono do local, e que montar o camping e o bar foi uma escolha, para que pudesse levar a vida que queria. Como estávamos preocupados em chegar a tempo de fazer cachoeirismo, resolvemos ir de carro mesmo, e então descobrimos que já estávamos bem próximos. Largamos o carro numa espécie de estacionamento, ao lado de uma casinha de madeira que pretendia ser um bar e de um curral de vaquinhas. O resto do caminho era uma trilha pelo meio da mata, que descemos a pé, nos guiando, principalmente, pela audição, olfato e intuição.

O rapel pareceu uma atividade segura e não muito difícil. O tempo inteiro, a vítima (rs) desce amarrada e com o auxílio de um guia, que também tem controle sobre os nossos equipamentos. Olhar para baixo dá um friozinho gostoso na barriga, que nos faz esquecer o gelado da água da cachoeira. Não deu tempo de pensar em tremer enquanto eu cuidava de soltar a quantidade certa de corda e caminhar de um lado para o outro para aproveitar a queda d'água.

No fim, chegamos cedo e a cachoeira é, definitivamente, uma das mais distantes, por isso, não havia muita gente no local. Os grupos de turistas foram chegando aos poucos. Descoberta importante: chegue cedo e a cachoeira será só sua!



Filhote de Antares

Nível de dificuldade da estrada: Alto
Desafio para encontrar o caminho: Alto
Temperatura da água: Gelada de doer os ossos
Teor de THC no ar: Nulo



Essa pequena cachoeira fica logo acima de Antares e, provavelmente, não tem nome (Filhote de Antares foi criatividade minha). Foi a partir desse patamar que começamos a descida de rapel.

Como chegamos muito cedo (umas 9 e pouco da manhã), não havia ninguém, com exceção de um homem completamente nu, que pareceu surpreso e meio tímido com nossa presença. Ele logo se vestiu e desceu para Antares, então pudemos ter a experiência inédita de uma cachoeira só nossa!

A água era muito, mas muito gelada. Não sei se foi apenas impressão, mas pareceu mais fria que a de Antares, apesar da proximidade. Ainda assim, a pequena queda é deliciosa. É possível subir pelas pedras e encontrar a melhor posição para uma espécie de hidromassagem natural. Como se eu estivesse sentada num colo de pedras enquanto recebia o abraço das águas.


Cachoeira do Flávio


Nível de dificuldade da estrada: Baixo
Desafio para encontrar o caminho: Baixo
Temperatura da água: Fria
Teor de THC no ar: Alto



Saindo de Antares, decidimos parar em mais alguma cachoeira pelo caminho. Passamos pela Véu de Noiva e Paraíso, mas desistimos de descer, quando vimos o número de carros estacionados na beira da estrada. Seguimos na direção da cidade e paramos na placa "Cachoeira do Flávio".

Conforme fomos descendo a trilha, tive a impressão de estar em um Woodstock mineiro. Um carro colocou um rock em um volume que certamente espantou até os duendes e OVNIs do local e o pessoal ficava na trilha, alguns dentro de barracas, segurando latinhas de cerveja, salgadinhos e baseados. Logo abaixo, um outro carro tentava competir, tocando axé.

A cachoeira não nos atraiu muito. Daniel falou que era "muito rasa", eu falei que era "muito lotada". Subimos e voltamos para a cidade. Mas a foto registrou nossa passagem por lá.


Véu de Noiva


Nível de dificuldade da estrada: Médio
Desafio para encontrar o caminho: Baixo
Temperatura da água: Gelada
Teor de THC no ar: Baixo



No outro dia, voltamos à Véu de Noiva, mas logo cedo, usando a lição aprendida em Antares. Para descer, há uma trilha um pouco íngreme. Lá embaixo, havia pouca gente, do jeito que eu gosto (sim, em cachoeiras e praias, sou antissocial).

Meio difícil chegar até a queda d'água, porque a correnteza é forte. A dica é ir pela margem à esquerda, segurando nas pedras, na medida do possível, até encontrar um patamar onde é possível ficar de pé. A partir dali, pode-se caminhar até a pedra onde a água cai, com cuidado para não escorregar. Vale a pena!

O legal dessa cachoeira é que fica num local aberto, onde bate sol. É um outro clima, uma mistura de quente e frio. O fogo incidindo na água, o masculino no feminino. No mínimo, pode-se aproveitar para secar a pele e pegar um bronzeado.


Paraíso


Nível de dificuldade da estrada: Médio
Desafio para encontrar o caminho: Baixo
Temperatura da água: Gelada
Teor de THC no ar: Baixo



Essa cachoeira fica bem próxima à véu de noiva. Nem é preciso trocar o carro de lugar. A trilha bifurca logo no começo e a da esquerda segue para a Paraíso, enquanto a da direita segue para a Véu de Noiva.

Essa cachoeira parece ser muito apreciada por famílias com crianças, por causa dessa prainha de água doce. É rasa até mais ou menos a metade da piscina natural, mas a partir daí, não dá mais pé. No local da queda d'água, também é bem profunda. E eu, tonta, quase me afoguei porque me meti debaixo da água num local muito fundo. Com a pressão da água, submergi e não conseguia mais voltar... Sim, quando a cachoeira é hostil, é preciso ter cuidado. A Mãe Natureza também impõe limites.


***


Sete cachoeiras visitadas, no total. Não, o número não foi premeditado.

Em algum post futuro, darei mais algumas dicas para quem visita São Thomé das Letras.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Culpa da mulher

Minha primeira impressão de estar num samba do Adoniran surgiu no primeiro mês de trabalho, quando comecei a participar dos atendimentos em grupo a pessoas em situação de rua. Os grupos eram realizados por um assistente social, uma estagiária em assistência social e, a partir de novembro, também por mim, na qualidade de psicóloga.

Era sinceramente divertido ouvir as histórias sobre a realidade das ruas, porque é um lugar pelo qual eu passo quase todos os dias e, mesmo assim, nunca tinha percebido a potencialidade que existe ali. Nas ruas é possível morar, o que inclui comer, dormir, fazer as necessidades fisiológicas, aprender, conversar, usar drogas, transar, fazer amigos, brigar, trabalhar, ter filhos, festejar e tudo o que se pode fazer entre quatro paredes.

Só o que aquelas pessoas não conseguiam era tomar banho e isso criava um efeito indesejável durante os atendimentos em grupo. Imagine colocar numa sala de, no máximo, uns 15 metros quadrados cerca de 6 ou 7 pessoas (às vezes, chegavam a 12!) que moram nas ruas e não tomam banho há semanas. Um cheiro de suor, urina, cachaça, cigarro e doença exalava das bocas e dos poros. Ligávamos o ventilador, que não ajudava muito, e procurávamos transferir a atenção do nariz para o ouvido.

Naquele tempo, essas pessoas nem chegavam a aguardar na recepção, porque uma funcionária considerava que sentir esse cheiro não fazia parte de suas atribuições. Havia também uma ideia aqui e acolá de que não podemos misturar essa gente com outras gentes "de família". E de que eles mesmos poderiam se sentir constrangidos de aguardar atendimento junto a pessoas "normais". Alguns meses depois, houve um movimento em direção à inclusão e o acesso das pessoas em situação de rua passou a ser feito pela recepção. Sim, declaro aqui minha impressão, sem ironia: a assistência social em Valinhos está em constante construção e aperfeiçoamento.

***

Falei tudo isso para contextualizar o a história que vou contar hoje, de um senhor que estava nas ruas há muitos anos e, durante um atendimento em grupo, resolveu contar como é que foi parar nessa situação. Olhando para mim, contou a desgraça de sua vida como quem conta um "causo" qualquer.

- Foi assim, moça... eu morava numa casa, com minha mulher e meus filhos. Todo dia eu ia no bar, tomava uns goró, voltava pra casa e batia na minha mulher. Ela dizia: fica esperto, que um dia te ponho na rua! E no dia seguinte eu ia no bar, tomava uns gole, voltava e batia nela de novo. No dia seguinte ia no bar de novo, tomava umas pinga, voltava e batia nela. Foi assim todo dia, moça. Todo dia eu tomava umas e batia na minha mulher. Ela sempre dizia que ia me botar na rua, mas eu nunca acreditava.

Ele então fez uma pausa, olhou para o outro lado, suspirou. Voltou a olhar para mim e completou:

- Mas cê sabe, né...? Que em mulher a gente tem que acreditar!

Sorri. Estimulei-o a continuar a história:

- E o que aconteceu?

- Um dia cheguei em casa e minhas malas tavam todas na rua. Parece que o Juiz falou que eu não podia mais voltar.

***

Resultado: da noite para o dia, esse senhor passou de "pai de família" para "morador de rua", "mendigo", "indigente". E aí a gente vê como os rótulos são provisórios e imprecisos...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A sombra da cidade

O que você vê na foto abaixo?


São camelos? Camelos pretos? Quase! As formas pretas que aparentam ser os camelos são, na verdade, as sombras deles. Os animais, em si, são os risquinhos brancos logo abaixo das sombras. A foto foi tirada ao entardecer, em um ângulo que permitiu essa bonita e esclarecedora confusão. Às vezes, a sombra permite que enxerguemos as formas de uma maneira mais próxima da realidade.

***

Quando eu soube que ia trabalhar na Prefeitura Municipal de Valinhos, tudo o que eu conhecia era o estereótipo que todos os campineiros têm do município vizinho: é uma cidade muito rica, com condomínios luxuosos, ótima qualidade de vida. Ideia essa baseada em fatos históricos... quando o povoado surgiu, era formado por fazendas de grandes barões.

Diz a Wikipedia: "A fazenda Dois Córregos, hoje bairro Dois Córregos, pertenceu ao brigadeiro Luís António de Sousa Queirós, tido como o homem mais rico da capitania, que chegou a possuir, só em Campinas, dezesseis engenhos de açúcar, e ainda pertenceu a Joaquim Policarpo Aranha, barão de Itapura, também abastado fazendeiro em Campinas.". Foram personagens desse tipo que levaram a fama por terem fundado a cidade, e não os escravos que trabalharam nos gigantescos engenhos e que eram, de fato, a força motriz.

Muito mais tarde, pessoas muito ricas de Campinas começaram a se mudar para a cidade vizinha, que além de muito próxima, era tida como mais tranquila, mais gostosa, mais próxima da natureza. Surgiram os condomínios luxuosos, as diversas chácaras e o valor da terra foi subindo a tal ponto, que não vi diferença entre o preço do aluguel em Valinhos e o preço do aluguel nas áreas próximas ao metrô de São Paulo!

A fama de cidade rica e com ótima qualidade de vida é tamanha, que quando digo que atendia em Valinhos pessoas muito pobres, os conhecidos me perguntam: "mas existem pobres em Valinhos?!". Quando digo que atendi pessoas em situação de rua, me perguntam: "mas existem mendigos em Valinhos?!".

Sim, e como existem! Tudo o que vi, no meu trabalho como psicóloga do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) de Valinhos foi a sombra da cidade, composta por pobreza, violência, pessoas em situação de rua e uma administração pública que, apesar de ter pessoas muito bem intencionadas, também tem outras que sofrem do ranço do provincianismo, como se tivessem estacionado na época dos barões de café.

Tudo isso eu constato, mas não me queixo: vivenciar a sombra da cidade me deu a oportunidade de ter uma overdose de realidade, que muitas vezes me tirou o sono e me tirou do sério, mas que certamente me deu inspiração para muitos anos de vida e de trabalho. Durante quase seis meses, vivi assim, como se estivesse dentro de um samba do Adoniran Barbosa (que, diga-se de passagem, nasceu em Valinhos!).

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Carl Jung, fundador da psicologia analítica, dizia que todos nós temos uma sombra, que é aquele ponto cego de nós mesmos, a parte que não queremos enxergar, porque traz tudo aquilo que renegamos. Pegando emprestado um trechinho do site Psiqweb:

"Para Jung, a Sombra é o centro do Inconsciente Pessoal, o núcleo do material que foi reprimido da consciência. A Sombra inclui aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a Persona e contrárias aos padrões e ideais sociais. Quanto mais forte for nossa Persona, e quanto mais nos identificarmos com ela, mais repudiaremos outras partes de nós mesmos. A Sombra representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. Em sonhos, a Sombra freqüentemente aparece como um animal, um anão, um vagabundo ou qualquer outra figura de categoria mais baixa.".

Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica

A ideia pode parecer difícil para os menos habituados aos conceitos da psicologia analítica, mas é mas simples do que se imagina. Imagine que você pega um objeto qualquer, digamos, um vaso. Imagine que liga uma lanterna e faz a luz incidir sobre ele. O que acontece? Um lado fica completamente iluminado, enquanto o outro fica no breu. Agora, imagine que a luz é a consciência e a escuridão é o desconhecido. É essa a metáfora que Jung usou ao se referir à sombra do ser humano. E acrescentou que o processo de tornar-se Si-Mesmo (ou seja, de tornar-se inteiro, consciente, verdadeiro) envolve conhecer e assimilar a própria sombra.

Afinal, a sombra, em si, não é ruim: ela pode conter características muito importantes, criativas, positivas. E mesmo o que há nela de realmente perigoso precisa ser conhecido, pois o que é melhor: ter o inimigo à sua frente, ou dar as costas a ele?! Cabe a nós, portanto, ter a coragem de olhar de frente para a nossa sombra. Essa costuma ser uma tarefa árdua, dolorosa, espinhosa, mas... falo por experiência própria: quando nos damos a chance de mirar a sombra, o mais comum é surgir o alívio e o pensamento de "ufa! então era isso... só isso!". Segue-se o sentimento gostoso de conciliação com nós mesmos, de acolhimento de uma parte que é bem nossa e que não precisa mais se esconder.

Pois bem, normalmente se pensa na sombra individual, essa que cada indivíduo carrega consigo. No entanto, não é dessa que quero falar. Lance luz sobre uma coletividade de pessoas, tal como os cerca de 105 mil habitantes de Valinhos, e veja a sombra que se forma: a gigantesca sombra para a qual toda uma sociedade se recusa a olhar. Tem-se, então, a sombra coletiva. Recorro à frase de Aristóteles, que se tornou a máxima da psicologia da gestalt: "O todo é maior que a soma das partes", pois a sombra coletiva não me parece ser apenas uma somatória das sombras dos indivíduos e sim, um ente em si mesmo, capaz de influenciar e ser influenciado pelas sombras individuais.

Assim como os indivíduos, a sociedade também reluta em enfrentar a própria sombra. Prefere olhar para o outro lado e levar a vida como se a metade escura do vaso não existisse, fazendo calar os poucos que se atrevem a falar sobre ela. Graças a essa negligência, há alguns (muitos, eu diria) que sucumbem à sombra, tornam-se prisioneiros dela. Estes são vistos como problemas, corpos estranhos que precisam ser expurgados em busca de uma sociedade perfeita.

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Quando falo de Valinhos, falo da cidade que conheci de perto e que me ajudou a perceber coisas das quais eu não tinha clareza anteriormente. Mas o que vi lá, eu poderia ter visto em qualquer outro local que tenha uma alta concentração de seres humanos. E, por isso, as histórias que vivenciei, e que pretendo relatar, provavelmente farão sentido para quem as ler, esteja onde estiver.

Devo confessar que, conforme fui conversando com a sombra coletiva, fui me afeiçoando a ela. Sim, eu GOSTEI de mergulhar na sombra e, por isso, decidi escrever minhas experiências como psicóloga do CREAS de Valinhos.

Nos próximos posts, pretendo relatar fatos reais, embora com nomes fictícios e algumas possíveis alterações para preservar a identidade dos personagens.

Sombra coletiva, eu lhe empresto a minha voz!