sábado, 9 de agosto de 2008

De volta ao Brasil

De volta à minha terra natal! Retornar foi muito interessante. Mas antes de falar sobre as emoções do retorno, deixa eu contar um pouquinho sobre o fim da viagem.

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Depois da minha apresentação, fiquei um pouco mais tranqüila e resolvi conhecer a cidade. Fui a muitos lugares legais:

- Como não podia deixar de ser, visitei o famoso Muro de Berlim, ou o que restou dele. Decepcionante, em certa medida. Eu imaginava que fosse alto, grosso... Uma Miniatura da muralha da China! Mas não: é um murinho pequeno, fininho. Pelo jeito a questão não era o muro, em si, mas sim a fiscalização em torno dele. Tem lá uma guarita preservada, com a famosa frase "You are leaving the American Sector" em várias línguas.

- Também visitei o Museu do Judaísmo. Muito interessante, mais pela arquitetura do que pela exposição, em minha opinião. O prédio tem o formato de um ziguezague com três eixos cortando-o. Há um jardim chamado "Jardim do Exílio", que dá uma impressão estranha. Tudo me parecia muito familiar, e ao mesmo tempo diferente, esquisito - exatamente como eu me sentia passeando pelas cidades da Europa: era meu mundo, mas não meu país. Acho que captei a mensagem...

- Tem uma catedral lá que chama-se Käiser-Wilhelm-Kirsche (perdoem-me pelos prováveis erros de ortografia). Muito bombardeada durante a guerra, coitada! Sobrou só um restinho, que está preservado como monumento histórico. Pelo que sobrou, imagino o quanto ela deve ter sido bonita e grande...


- Também visitei a Catedral de Berlim. Grande, imponente, com uma bonita praça na frente, toda coberta de grama. Como estava um calorão, os alemães (ou, como diríamos eu a e Ju, os "limões") estavam lá de biquíni ou calção, tomando sol e entrando na fonte para refrescar. Incrível a naturalidade com que faziam isso... Por dentro, tudo muito luxuoso: cúpulas, vitrais, obras de arte... E um grande órgão de foles, do jeito que eu gosto! Será que um dia eu vou ter o prazer de tocar um órgão desses? Só pelo gostinho?


- Claro que eu não poderia deixar de ir a um museu de arte por lá (eu vi museus de arte em todos os países!). Fui ao Pergamon, o famoso Pergamon. Estava rolando uma exposição sobre a Babilônia. Vi coisas incríveis, como o código de Hamurabi e alguns dos primeiros escritos sobre astrologia, ciência pela qual tenho me interessado muito atualmente. Antes que os USPianos me matem, estou usando a palavra ciência em sua concepção original, que não restringia o sentido à ciência positivista, como atualmente se usa. Também havia muitas obras no estilo clássico. Eu gosto muito de esculturas... Não consigo imaginar como é que alguém pode transformar um bloco de mármore em figuras tão perfeitas. Olhando a expressão das pessoas e animais esculpidos, era quase como se eu os visse em movimento. Para mim, que tenho um precário raciocínio espacial, é ainda mais incrível pensar que alguém fez uma obra de arte que extrapola as duas dimensões de uma tela plana.

- Outro passeio interessante foi o tal Pub Crawl, a excursão pelos Pubs de Berlim. Logo que cheguei lá (sozinha, pois a Ju e a Lia não quiseram ir e os meninos, meus companheiros de aventuras, já tinham ido embora), perguntei a um rapaz: "Hello, is this the Pub Crawl?" e ele respondeu: "Yes, você é brasileira?". Como ele descobriu eu não sei. Sei que além de brasileiros, encontrei gente de todo canto (menos da Alemanha): Nicarágua, Itália, França, Argentina, Índia, Canadá... Isso é que era legal: eu ia conversando com todo mundo e aprendendo um pouquinho sobre as outras regiões do nosso planeta. Que graça tem ir para tão longe, se não for para conhecer o que é diferente? Bem, também aproveitei bastante a cerveja e as outras bebidas que nos ofereceram por lá na faixa. Tinha uma que era típica da Alemanha: pronuncia-se "Ainsmasters". E fiquei impressionada com a variedade e a criatividade dos PUBs por lá. Todos têm um estilo muito característico.

Bem, essas foram minhas últimas aventuras por Berlim. Vou parar de escrever agora, afinal tem gente que reclama (com uma certa razão) que escrevo demais. Depois conto minhas impressões sobre o Brasil quando voltei. Como eu esperava, a viagem mudou minha cabeça e minha percepção.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Atualizando: agora estou em Berlim!

Estou um pouco atrasada com as notícias. Vamos ver se consigo dar uma adiantada nas informações...

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No meu segundo e último dia em Roma, que foi domingo passado, fui ao Museu do Vaticano. Eu, Lia e Ju saímos logo cedo. Encontramos Ana K. no metrô (ela estava em outro hotel). Não pegamos muita fila, porque chegamos antes do museu abrir.

Eu achava que o museu do Vaticano teria apenas coisas relacionadas com a religião católica, mas não é bem assim. Tem muitas obras de arte por lá, parece um Louvre em miniatura. Tem até mesmo obras que datam de antes de Cristo.

É interessante notar que muitas das esculturas têm uma espécie de folha cobrindo os órgãos genitais, à moda Adão. Em algum momento, devem ter achado que era um pecado mostrar os genitais em obras de arte e resolveram cobri-las. Mas há também as esculturas castradas: arrancaram o pênis delas! A Igreja castrou a arte!

Em minha opinião, existe uma grande contradição entre o conceito de criação divina do homem e o pudor da exibição do corpo nu. Por que é que uma criação divina deve ficar escondida?! Lembrei de meu médico homeopata, o Paulo de Tarso, que uma vez me disse que muitas pessoas confundem castidade com castração.

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Sem dúvida, o que mais me impressionou em todo o museu foi a famosa Capela Sistina. Michelangelo era o cara! A capela é simples, pequena, não tem nada além de um pequeno altar que mal aparece em meio às paredes coloridas. Na época em que foi construída, as pessoas assitiam à missa em pé, então nem banco tem.

Meus olhos não paravam de rodar pelas paredes, pelo teto, pelos cantos todos de lá. As pinturas são tão perfeitas que, à primeira vista, algumas parecem até ser esculturas, por causa do senso de perspectiva.

O único problema de lá é a multidão. Eu e a Lia nos perdemos da Ana K. e da Ju. Depois, eu me perdi da Lia. Desisti de procurá-la, pois tentar encontrá-la na capela seria algo similar a brincar de "Onde está Wally", com o adicional de que as figuras se movem (não ficam paradas como no livro). No entanto, como milagres acontecem, acabei vendo-a passar na rua na fronteira entre Roma e Vaticano, enquanto eu comia um lanche num trailer. Nos juntamos de novo e fomos ao Coliseu (ou, em italiano, Colosseu).

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Muito interessante pisar em uma construção de uns 2.000 anos atrás! O Coliseu dá a impressão (e claro que não é só impressão) de algo absolutamente sólido e perpétuo.

Incrível pensar que o lugar era usado para que o povo se divertisse vendo leões e hipopótamos comerem cristãos. Há um contraste marcante entre o ser humano em seu esplendor, que pode erguer com força e criatividade uma obra arquitetônica daquelas, e o ser humano cruel, que tem prazer na dor alheia.

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Ao lado do Coliseu, há um sítio arqueológico muito importante. Fomos até lá. Pisávamos em alicerces de construções que foram erigidas antes de Cristo. Sentar nas pedras e olhar a paisagem (árvores, Coliseu, cúpula da Basílica de São Pedro, etc.) era muito relaxante... Tive vontade de pegar um caderno, uma pena e um tinteiro e ficar por lá uma tarde toda, escrevendo.

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À noite, fomos jantar com um simpático professor italiano que havíamos conhecido em Bologna. Conversamos sobre muitas coisas, principalmente semelhanças e diferenças entre Brasil e Itália.

Um dos assuntos mais recorrentes foram as "bad words". Foi assim que descobri que "cazzo" é uma espécie de caralho italiano. Mas o principal: descobri que o equivalente em italiano à expressão "I would like to eat you" não corresponde ao significado da expressão em português. Quando um rapaz italiano quer "manjare" uma moça, isso significa apenas que ele está apaixonado por ela.

O problema dos idiomas é que eles não seguem a regra lógica que diz que se a = b e b = c, então a = c.

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De domingo para segunda eu me lembrei de um sonho, coisa que não havia acontecido desde que cheguei na Europa. Acho que a realidade tem sido tão onírica que não tenho precisado sonhar. Pra uma intuitiva introvertida como eu, ver, ouvir e sentir tantas coisas diferentes tem estimulado demais a minha função sensação extrovertida (que, por ser a inferior, é a que me dá acesso ao inconsciente). No entanto, desta vez eu sonhei e me lembrei do sonho. Ele foi todo em inglês!

Eu estava em um lugar fechado que parecia um parque. Sugeriram que eu fosse escorregar num tobogã. Eu fui e, quando cheguei, vi que não era muito alto - apenas umas três vezes a minha altura. Subi as escadas e percebi que na verdade, era um toboágua. Eu estava de calça jeans e camiseta e não quis molhar a roupa, então eu disse para mim mesma: "water?!".

O funcionário que cuidava do tobogã ficou me olhando, sem entender por que eu não descia. Eu disse: "I'm sorry, I have to return". Comecei a pedir licença para as pessoas que estavam na escada, atrás de mim.

O funcionário perguntou: "Don't you like the tobogã?" (Estranhamente, tobogã era dito em português. Deve ser porque eu não sei como se fala isso em inglês, e no sonho também não sabia, hehehe!). Eu respondi: "Not much. It needs to be more dangerous in order to be exciting!". Ele sugeriu: "So you should try the next one!".

Aceitei a sugestão e fui até o tobogã seguinte. Esse era seco e muito, mas muito mais alto que o anterior! Subi as escadas, olhei para baixo e tive medo. Ainda assim, resolvi escorregar. Pensei: "I'm in Europe! I have to try everything I can!". Então acordei.

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No domingo, acordei cedinho, consegui dar jeito nas malas e fui para o aeroporto Roma Ciampino. Por pouco não me barram por excesso de bagagem: a mala tinha 29 Kg, e o máximo permitido é 20 kg. Mas quando eu fiz a reserva, já tinha pensado nisso e incluído no total de despesas mais 5 kg de excesso de bagagem. Então, dei uma conversada por lá e eles acabaram me deixando embarcar sem pagar despesas extras.

Assim, peguei o avião para Berlim - provavelmente a última cidade que irei conhecer por aqui, desta vez. E a cidade em que faria a minha tão temida "oral presentation".

Conheci um rapaz italiano no avião que também estava vindo para o congresso. No domingo à noite, após a abertura do congresso (com direito a apresentação da Brass Ensemble da filarmônica de Berlim), fui com ele conhecer o lado oriental da cidade. Fomos até a Alexander Platz. Muito interessante por lá, mas fiquei pouco tempo. Ainda pretendo ir com mais calma.

Logo que cheguei no hotel, encontrei o Marco, o Zé e o Altay. Fomos almoçar e eu tive muita vontade de rir quando vi o cardápio. Um monte de letrinha misturada, algumas das quais nem existem no nosso alfbeto. Eu não tinha idéia do que pedir!

Pensei em fazer: "Mi-nha- mãe- man-dou- eu- es-co-lher- es-te- da-qui- mas- co-mo- eu- sou- tei-mo-sa- e- e-la- es-tá- no- Bra-sil- e- não- vai- sa-ber- o- que- eu- pe-di- mes-mo- eu- vou- es-co-lher- es-te- da-qui!" Mas o garçom falava inglês e a gente conseguiu pedir alguma coisa. E tomei uma cerveja da hora!

Na verdade, a gente sempre pede umas três ou quatro cervejas diferentes, uma para cada, e faz um rodízio de copos, para todo mundo experimentar todas.

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Coisa mais importante que aprendi a dizer em alemão: "Ich möchte ein bier"
Coisa mais importante que aprendi a dizer em francês: "Je voudrais un verre de vin rouge"
Coisa mais importante que aprendi a dizer em italiano: "Prego!"

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Hoje apresentei meu trabalho no congresso. Eu estava muito, muito nervosa nos 5 minutos que antecederam a apresentação. Mas quando segurei o microfone próximo à boca, ele me anestesiou. Por alguns momentos, a adrenalina foi bloqueada por algum estranho sistema de neurotransmissão e fiquei tranqüila.

Consegui falar tudo. Acho que a pronúncia estava OK. Tenho a impressão de que não falei muito rápido, nem muito devagar - mas pode ter sido só impressão. Não me perdi, não me enrolei. Consegui responder a pergunta que me fizeram.

Ou seja, tá tudo beleza! Agora que perdi a virgindade de apresentar em congresso internacional, os próximos tendem a ser ainda melhores!

No momento, no entanto, estou me recuperando da descarga de adrenalina. Ainda meio tonta, meio cansada, com os pés doendo devido ao sapato apertado (dia de apresentação eu me visto que nem gente).

Hoje à noite provavelmente vou com os meninos numa balada que tem por aqui. Você paga 12 Euros e tem direito a ir em 5 Pubs. Como tudo na vida tem limite, o máximo de cerveja por pessoa que está incluído na faixa são 40 litros. É um bom jeito de comemorar a vitória!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Algumas fotos de Bologna

Percebi que não havia posto nenhuma foto da cidade de Bologna (só do congresso). Então, aí vão algumas!




Essas duas torres aí no fundo (uma delas é torta) são o monumento mais característico da cidade. Ficam na praça central. Toda vez que a gente se perdia, acabava se orientando por elas (no meu caso não adiantava, porque eu continuava não sabendo ir delas para nenhum lugar, mas beleza!).






Nessa foto eu estava no hotel em que a Ju ficou no 1o dia, antes da gente ir para o alojamento.


Lá eles chamam esse monumento de "Duo Torri". Ou seja, não é só no Senhor dos Anéis que tem Duas Torres! :-p

Nesta foto dá para ver melhor o estilo do centro da cidade: ruazinhas estreitas, as Duas Torres que dá para a gente ver da maior parte dos lugares...








Esta é a Fonte de Netuno, que ficava em uma das principais praças de lá. Era onde a gente costumava ir para comer e beber alguma coisa depois do congresso.

Na frente, há uma igreja muito antiga e bonita. Dentro da Igreja, há algumas coisas surpreendentes, como um modelo do pêndulo de Foucault e uma linha que contém os meses, os graus de latitude terrestre e as constelações, incluindo os símbolos corretos dos símbolos e os dias dos solstícios e equinócios. Coisas extremamente católicas, certo?

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Já estou em Berlim, mas vou deixar os detalhes para depois, pois já está tarde e tenho que apresentar amanhã (boa sorte para mim!).

Estou um pouco nervosa: 1a apresentação em inglês da minha vida. Em todo caso, lá no fundo eu sei que vou tirar de letra. Eu sempre consigo... E tenho me comunicado bem por aqui. As pessoas no congresso têm elogiado meu inglês, o que para mim é uma surpresa. De repente, parece que eu de fato interiorizei a língua (a tal ponto que meus dois últimos sonhos foram inteiros em inglês!).

Estou feliz com meus progressos em várias áreas de minha vida. A Europa tem me feito aprender e perceber muitas coisas.

domingo, 20 de julho de 2008

Algumas fotos de Veneza














































Fortes emoções na estação de trem

Escrevi este post no dia 18 à noite, mas ainda não tinha dado para colocar online. So, here it is!

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Personagens desta história: quatro brasileiras atrapalhadas. Cenário: estação de trem de Blogna. Tempo: muito curto! Cerca de 15 minutos tensos.
Chegamos na estação com muitas malas. Somos quatro mulheres e estamos passando várias semanas na Europa, em lugares com temperatura variando entre 10 e 35 graus. E temos comprado muitos presentinhos para distribuir (principalmente eu, que vim de Paris com um carregamento de vinho e chocolate).
Minha mala vazia já pesa uns bons quilos. Com tudo dentro, ela fica, para mim, "incarregável". Ainda bem que tem rodinha. Mas quando se trata de escada, é um problema! Ainda mais porque ela tem ameaçado abrir. Isso tudo fez com que, na história que se passou, as meninas tenham se referido muito à "mala da Gabi".
Chegamos na estação de trem Bologna Centrale às 19:25 para pegar o trem das 19:40. Mulheres atrasadas... Alguma novidade?
Pois bem, não sabíamos onde era a plataforma. Quando descobrimos, era no piso inferior e me comunicaram que o elevador estava fora de funcionamento. Ou seja, precisávamos descer as malas pela escada comum. Com muito custo, fomos dando jeito nisso. As pessoas passavam por nós olhando feio, mas ninguém nos ajudava.
Chegando no piso inferior, descobrimos que precisaríamos pegar outra escada. Desta vez, para SUBIR para a plataforma! Faltavam 5 minutos para o trem partir. Desesperadas, fomos empurrando de um lado, puxando do outro e levando as malas para cima. Novamente, ninguém nos ajudava.
Acabei ficando com a mala da Ana Karina, e ela com a minha mala (coitada!). Consegui chegar com a mala dela na plataforma e corri para o trem. Empurrei a mala para cima e, enquanto as meninas cuidavam das coisas no vagão, voltei para ajudar a Ana K. Eu pensava: se este trem for embora, ficaremos aqui eu, Ana K. e a minha super mala!
Um dos maiores medos era de que a mala tivesse se aberto e tudo tivesse se espalhado pela escada. Eu ria de nervoso de pensar nessa possibilidade. Felizmente, isso não ocorreu.
Conseguimos colocar a mala no vagão e subir e, menos de um minuto depois, o trem partiu. Todas nós tínhamos no rosto expressões que misturavam desespero, alívio, cansaço e sensação de vitória. Mas ainda faltava encontrar nossos lugares - cerca de três vagões para frente - e acomodar as malas dentro do trem.
Conforme a gente ia passando com a bagagem, as pessoas iam nos olhando com cara feia. Perdi as contas de quantos "Sorry" e "Excuse" eu falei. Quando enfim achamos as poltronas, elas estavam ocupadas por dois soldados italianos. Reunimos coragem e conversamos com eles. Depois de muito observarem nosso bilhete e de meditarem sobre o assunto, eles concluíram que estávamos certas e mudaram de lugar.
Enfim, com tudo resolvido, pudemos respirar. Fizemos um brinde com água mineral. A janela tinha uma paisagem bonita, que logo em seguida virou uma escuridão total: passávamos por um túnel debaixo de uma montanha. Nesse momento, o trem parou.
Quatro caipiras brasileiras dentro de um trem parado debaixo de uma montanha. Foi assustador. Não tínhamos idéia do que estava acontecendo: se era normal, se o trem havia quebrado, ou o quê. Alguma paranóica chegou a falar em atentado terrorista. Para mim, era suficientemente aterrorizante saber que eu estava parada debaixo da terra - claustrofobicamente aterrorizante! Eu ria de nervoso.
O trem começou a andar depois de alguns minutos (ufa!). Chegou numa estação (Firenze, acho) e começou a voltar para trás. Só faltava a gente ter pego o trem errado! Confirmamos, era realmente o trem que ia para Roma. Ficamos sem entender nada, mas o fato é que de fato chegamos aqui.
Pela janela, eu via campos, montanhas, casinhas legais. Água mineral, bolachinha e escrever no caderninho azul: só assim pra eu relaxar.

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Além de tudo isso, havia as conversas com as meninas durante a viagem. Alternamos entre momentos tensos e momentos em que chorei de tanto rir. Um dos episódios relatados durante a viagem merece ir para este blog.
Quando cheguei em Bologna, percebi logo de cara que os italianos eram mais simpáticos com estrangeiros que os franceses. Além disso, os rapazes são mais atirados. Lançam olhares, se aproximam, dão beijinho...
Bem, uma de nós (conto o milagre, mas não o santo!) ficou amiga de um italiano. Ele falava inglês mal e porcamente. Conversávamos com ele mais por gestos do que por palavras de fato. Acontece que, depois de uns dois dias de "amizade", ele falou, do nada: "I would like to eat you".
A garota não quis "give" para ele, mas ele está de parabéns: pelo menos a frase ficou célebre e rendeu risadas por toda a viagem. Até criamos uma música: "I would like to eat you tonight"!

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Aqui na Itália, prego serve para tudo. A gente entra num restaurante e prego. Entra numa loja e prego. Pede desculpas e prego. Agradece e prego. Pergunta alguma coisa e prego. Fala tchau e prego.
Ou seja, se não sei o que falar, prego é uma boa opção. Eu e a Lia temos pensado em responder martelo, parafuso, ou algo assim... Pode ser que a gente faça essa experiência amanhã.

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Ir ao banheiro é algo engraçado por aqui. Cada um é diferente do outro e dá trabalho descobrir onde fica o papel higiênico, como se ligam as torneiras, onde se secam as mãos.
Fora que tem uns banheiros com vaso sanitário alto, o que é pouco funcional para os meus 149 centímetros.
Já percebi que nem todos os locais têm banheiros separados para homens e mulheres, e mesmo quando tem, isso não é muito respeitado. Já vi muitos homens em banheiros femininos.
Mas o mais engraçado foi um banheiro que eu, Lia, Carla e Ana K. usamos num restaurante em Veneza. Quando perguntamos onde ficava o WC, a garçonete nos explicou e nos deu uma espécie de ficha: uma argolinha de metal, que ela disse que era "the key".
Chegamos no banheiro e ficamos pensando em onde enfiar the key. Alguma sugestão? Não. Então empurramos a porta e ela abriu sem dificuldades. Nós quatro usamos o banheiro e nada de acharmos o lugar de the key. Então formulei uma hipótese: a ficha tinha a função de abrir a porta, mas não foi necessária porque já a encontramos aberta.
Porém, quando a Lia entregou the key de volta para a garçonete, ela não achou nem um pouco estranho. Agiu como se fosse normal. Ou seja, provavelmente era algo que ela esperava que usássemos e devolvêssemos. E continuamos sem saber como e onde deveríamos usar!
Última chance: alguém tem alguma sugestão? Eu tenho: podemos enfiar a argola no prego!

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Eu e a Lia nos aventuramos até o vagão restaurante. Interessante, mas meio sujo e muito caro. Tiramos foto. O garçon quis sair também. Como eu disse, italianos costumam ser simpáticos. Prego!

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18/07/2008

Roma, como notou a Lia, lembra São Paulo em muitos sentidos. Muitas pessoas nas ruas, metrô lotado (bom, mas ainda não peguei multidão como as de São Paulo às 18h em nenhuma cidade por aqui), tudo meio sujo (as pessoas aqui jogam muito lixo no chão), motoristas meio doidos (tenho achado os italianos muito barbeiros, e ninguém respeita o pedestre nem quando o sinal de pedestres está verde), calor...
Mas têm edifícios muito mais antigos que os de São Paulo, sem dúvida. E existem uns bondes pelas ruas, e o rio é limpo, e tem gente falando tudo quanto é língua, mais ou menos como em Paris.

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Visitamos outro país hoje: o Vaticano. Interessante, sem dúvida, mesmo para uma não-católica como eu. Lá é bem mais limpo e organizado que Roma.
Fomos à Basílica de São Pedro. É bonita, mas não me trouxe as fortes emoções que sinto quando vou a certas igrejas... Como tem muitos visitantes, acaba perdendo o clima de contemplação, de meditação, de oração que deve reinar nas igrejas. As pessoas falam alto, não têm muito respeito. Me parece, às vezes, que muitos católicos não respeitam o que é de sua própria tradição. Grande parte dos ocidentais precisa aprender a "saber calar, querer calar, ousar calar, calar sabendo, calar querendo, calar ousando, calar calando".
Entrar no oratório foi um alívio. Lá era proibido tirar fotos e a entrada só era permitida para rezar. Silêncio, cheiro de incenso, altar bonito, pessoas caladas, paradas e quietas.
Gostei demais de subir na cúpula da basílica. Fomos uma parte de elevador, outra de escadas (uns 320 degraus). Por mim, eu teria subido tudo de escada, pois a recompensa parece maior quando a gente se esforça mais. Mas as meninas estavam cansadas e não tínhamos muito tempo. De lá de cima, podemos ver o interior da Basílica, e também a vista externa, de onde se enxerga todo o país e grande parte de Roma.


Na praça São Pedro, com a Basílica ao fundo









No alto da Cúpula, tendo Vaticano e Roma a fundo









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Também fomos na Fountana Trevi, onde as pessoas jogam moedinhas e fazem pedidos. Muito bonita a fonte, e tem uma água gostosa de tomar. Eu e a Lia andamos muito pela cidade, fomos parar em vários locais interessantes, embora a maioria deles a gente nem saiba do que se trata.

Eu até gostaria de ter mais tempo para conhecer Roma, mas só tenho mais o dia de amanhã. Domingo vou a Berlim.
Os planos são conhecer o museu do Vaticano, a capela Sistina, o Coliseu, o Pantheon e o que mais for possível.

Sentada na Fontana de Trevi

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Algumas fotos, de saida para Roma

Estou indo pra Roma daqui a pouco!
Algumas fotos do congresso:


Eu e a Lia na frente do nosso poster













Eu e a Ju na praça, depois do jantar do congresso












A turma de brasileiros que esteve por aqui!










Vou pra estaçao! Ateh Roma!!!

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Aniversario em Veneza

A Carla sugeriu no inicio da semana que fossemos a Veneza na quarta feira, aproveitando que nao teriamos nenhuma apresentaçao a fazer. A principio, achei a ideia meio doida, pois tinhamos o jantar do congresso as 20h. Mas quando eu soube que sao apenas 100 Km de distancia, achei que seria uma ideia muito boa passar meu aniversario em Veneza!

Entao, hoje pegamos um trem em Bologna, com destino a Veneza. Duas horas de viagem, pois ha muitas paradas no caminho.

Sem duvida, serah um aniversario inesquecivel em toda a minha vida! Vi o Mediterraneo pela primeira vez. As aguas, os canais, as casas em estilo antigo, com muitas flores enfeitando. As mascaras, o artesanato local, pessoas do mundo todo na rua (quase como Paris). E andar de gondola pelo mar, vendo a cidade...

Ah, e eh mentira que os canais da cidade sao fedidos. Nao senti cheiro nenhum, alem do de maresia.

O sol estava bem forte, voltei moreninha com a marca do vestido nos ombros.

Quando cheguei em Bologna, tomei banho rapidinho e fui para o jantar do congresso. Em minha mesa, estavam pesquisadores famosos como Martin Brune, Erwin Geertz, Nesse, Juliana Fiquer, Lia Viegas (rs...) e outros. Discurso do prof. Eibsfield (sei lah como se escreve) e de outros muito importantes na area.

Bem, eu nunca tinha passado um aniversario em tao grande estilo. Nao houve bolo, nem cantamos parabens, nem ganhei formalmente nenhum presente. Meu presente foi simplesmente a oportunidade de conhecer Veneza na companhia de amigos e de discutir coisas interessantes com pessoas importantes.

Novamente, estou feliz!

Obrigada, Carla, pela sugestao!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Em Bologna!

Bem, aqui estou eu em Bologna.

Este post sera mais rapido e sem acentos (os teclados europeus sao dificeis...). Estou no alojamento da faculdade. Daqui a pouco vou dormir, para poder ficar acordada e assistir as conferencias, hehehe!

Por falar em alojamento, o daqui eh excelente. Temos quase que um apartamento: sala, cozinha, quarto e banheiro, tudo bem grande e com todas as mobilias e acessorios, inclusive panelas, pratos, talheres, etc.

Aqui no hall, tem computador, e acabei de conseguir a senha para acessarmos a internet!

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Mas foi literalmente com lagrimas nos olhos que deixei Paris. Dudu foi comigo ate a cabine do trem, conseguiu com muito custo enfiar minha mala debaixo do banco, deu tchau e foi embora. Eu me vi sozinha, saindo da cidade da qual gostei tanto, e ao mesmo tempo excitada por estar indo para o meu primeiro congresso internacional e fiquei com os olhos umidos. Liguei o MP3 em musicas brasileiras para matar a saudade e fiquei contemplando a paisagem na janela, que comecou a se mover as 18:59 - exatamente no horario marcado.

Na cabine, conheci um senhor frances que falava italiano, um rapaz e uma moca italianos que falavam frances e um rapaz que nao falava nada, entao nao sei de onde eh. Apenas a moca falava alguma coisa de ingles, entao a cabine virou uma torre de Babel: nos entendiamos numa mistura de frances, italiano, ingles, portugues e espanhol. E na parede havia avisos em frances, italiano, ingles e alemao.

Fiquei muito feliz quando descobri que os assentos podem ser acomodados de tal maneira que viram camas. Fui deitada dormindo a noite toda!

So me decepcionei com o estado do trem: muito, mas muito empoeirado por fora. Nao era bonito como os trens da TGV que vejo passar por aqui.

Em todo caso, a viagem foi confortavel e cheguei em Bologna as 6:15 da manha (16 minutos atrasada). Meus amigos do trem me ajudaram com as malas, peguei um taxi e fui encontrar a Juliana no hotel. A Ju eh minha colega na pos, estah fazendo doutorado sanduiche na Holanda e nos haviamos combinado de nos encontrar aqui.

Chegar no hotel e conseguir falar ingles com o recepcionista foi um grande alivio! Ver que ele respondeu em ingles, alivio ainda maior!

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Bologna eh uma cidade muito, mas muito interessante! Medieval, com ruas estreitas, calcamento de pedra e muitas curvas. Um labirinto! Claro que me perco toda hora. Mas me perder eh bom, porque me dah mais oportunidades de ver as construcoes. Ganhei um mapinha no congresso e ele tem sido minha salvacao.

Ainda nao vou colocar fotos, porque preciso descarrega-las da camera. Mas eh muito diferente de Paris! A comecar pelas cores: em Paris tudo era branco, com muito marmore. Aqui, tudo eh vermelho ou amarelo, com muitas pedras.

As igrejas sao enormes e tem uma energia agradavel. Diferente de Notre Dame, que tambem eh agradavel, mas um pouco mais pesada. Aqui, quando entro nas diversas igrejas (eh uma catedral por esquina, praticamente), sinto-me em casa. Algo que lembra o arquetipo da Grande Mae.

As pessoas sao muito receptivas e agradaveis. Mesmo quando nao sabem falar ingles, fazem algum esforco para se comunicarem conosco e sao gentis. Isso tudo somado a um calor de 30 graus na sombra faz com que eu me sinta como se estivesse em uma cidade do interior do Brasil.

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Jah preguei meu poster no congresso. Amanha vou apresenta-lo no fim da tarde. Tenho assistido as conferencias e feito muitos amigos. Tambem tenho feito contato com professores importantes da minha area. As vezes eu nem acredito que realmente estou jantando ou almocando com essas pessoas, e que elas realmente estao interessadas em minha pesquisa!

Hoje achei um professor que trabalha com depressao pos-parto na Universidade de Andaluzia. Trocamos os enderecos de email e ele pediu para eu levar o meu pendrive amanha, pois ele vai me passar alguns artigos. Disse inclusive que tem interesse em ir ao Brasil para conhecer nossa pesquisa. Eu e a Ju tambem travamos contato com um professor italiano importante na area de apego.

Enfim, vejo muitas oportunidades se abrirem e comeco a pensar seriamente na possibilidade de um doutorado sanduiche... Estranho, eu nunca tinha levado a serio essa possibilidade! Tenho mudado muito minha cabeca este ano... E a Europa estah contribuindo para isso.

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Tenho falado ingles sem nem perceber, como se eu estivesse falando portugues. As vezes ateh entre os brasileiros nos acabamos falando ingles, sem perceber. Interessante... Eu nao sabia que era tao facil! Agora fico mais confiante para fazer minha apresentacao oral em Berlim.

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Depois de amanha! Depois de amanha! Depois de amanha eu terei 24 anos! Nunca passei meu aniversario tao longe de casa - o mais longe havia sido no Acre. E estou feliz por isso! Serio mesmo, estou feliz!!!

Pena que nao vou receber ligacoes de "parabens", mas that's OK, eu aceito os emails e recados no Orkut. O importante eh que passarei meu aniversario na Europa: that's wonderful!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Mais habituada ao local - e as aventuras continuam!

Recebi reclamações pela demora em atualizar o blog - vocês têm razão. É que esses dias, andei com preguiça de escrever, até porque tenho chegado em casa meio tarde. Mas vou atualizá-los sobre o que tenho feito de bom!

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Domingo, o filho e a neta do Françóis vieram a Paris. Eles moram em uma cidade no litoral francês, pelo que entendi. Não sei como se escreve o nome da neta do Françóis, mas pronuncia-se "Emá". Uma menina de quase dez anos, muito bonita e bem educada. Aliás, de maneira geral, as crianças aqui da França são extremamente comportadas - caso contrário, como diríamos no Acre, entram na peia!

Eu, tia Lena e Emá fomos na Conciergerie, um prédio que foi um palácio nos tempos de Napoleão e virou uma prisão nos tempos de Revolução Francesa. Foi lá que a Maria Antonieta ficou presa antes de ser guilhotinada. Os historiadores também acreditam que foi lá que Robespierre passou seus últimos momentos.

Energia pesada, a do local. Senti muito calor, e o dia estava meio frio. Bem, senti as coisas que eu costumo sentir em locais com energias estranhas, não sei explicar. Fiquei até meio tonta.

Vi uma lâmina de guilhotina de verdade!

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Depois da Conciergerie, fomos a umas ruazinhas próximas de Notre Dame, para almoçar. Não me lembro o nome do local, mas são ruas estreitas, com comércio popular. Muitos restaurantes de comidas de vários países. A tia Lena disse que antigamente, era o bairro dos estudantes. Ou seja, é uma espécie de Vila Madalena parisiense... Mas lá as ruas são estreitas mesmo, e cheias de gente! E as fachadas ainda preservam um estilo antigo.

Uma coisa que me impressionou foram as vitrines dos restaurantes. Eles colocam a comida exposta, para chamar a atenção de quem está passando na rua. Frutas, sanduíches, leitões assados, presuntos, camarões, mariscos, tudo fica prontinho na vitrine. Se alguém passa para comprar, eles tiram da vitrine e entregam para a pessoa.

(A tia Lena já havia me dito que aqui na França não se tem com a comida os mesmos cuidados de higiene que nós temos. De fato, as pessoas pegam uma baguete de pão, enfiam debaixo do braço e levam para casa, sem embalar. Já vi muitos franceses saírem do banheiro sem lavar as mãos e irem comer. Tia Lena socióloga acha que é porque por aqui eles não enfrentam os problemas com doenças que nós enfrentamos no ambiente tropical. Até porque, muitas doenças já foram erradicadas há muitos anos.)

Comemos uma "Formule": é como eles chamam as opções em que se combina entrada, prato principal, bebida (normalmente, vinho) e sobremesa. Aqui na França, uma formule custa cerca de 10 Euros. Vem muita comida, fiquei de barriga cheia!

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Em seguida, fomos à Notre Dame. Eu havia visto no Pariscope que haveria um concerto de órgão lá - aquele órgão de foles que tem na igreja. Eu adoro música! Dudu também, ele quer ser músico. Não poderíamos perder um espetáculo desses!

De fato, o concerto foi muito bonito! A acústica da igreja é excelente. Pode ter sido só impressão, mas eu sentia cheiro de incenso...

No próximo dia 13, um brasileiro tocará os órgãos. É músico do Mosteiro São Bento. Infelizmente, já estarei em Bologna e não vou poder assistir.



Os foles de Notre Dame



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Segunda, voltei ao Louvre. Desta vez, fui direto às pinturas renascentistas. Michelangelo, Raphael, Leonardo da Vinci, Boticceli... Alguns pintores franceses, como David, o pintor oficial do Napoleão... Obras maravilhosas, com certeza. É emocionante ver as obras famosas que conhecemos por fotografias.

A maioria das pessoas que vai ao Louvre, vai direto procurar "La Gioconda". Eu não: fui vendo tudo calmamente, pelo menos enquanto eu ainda tinha tempo. Quando finalmente cheguei na Gioconda, fiquei decepcionada. Ela estava dando uma entrevista coletiva. Muitas pessoas com câmeras fotográficas e flashs se aglomeravam diante de um cordão de isolamento formado por cordas e por dois seguranças. E a pobrezinha lá na parede, distante de nós uns cinco metros, atrás de um vidro blindado que refletia os flashs e não deixava transparecer a sua real formosura...

Coletiva de imprensa com La Gioconda


Novamente, apesar das várias horas que passei no museu, não cheguei a ver nem metade. Se somar a primeira com a segunda visita, devo ter visto cerca de um quarto do museu, ou até menos. São tantas coisas maravilhosas que a humanidade tem feito ao longo de tantos anos, que nem uma vida toda seria suficiente para conhecermos todas elas.

Andando pelo Louvre e procurando as salas usando o mapa, fiquei pensando que a construção deve ser uma reprodução fiel do Labirinto do Minotauro. De fato, Napoleão gostava muito de coisas gregas. Eu gostaria de ter levado o fio de Ariadne comigo, para pelo menos poder achar a saída com facilidade. Mesmo com as placas indicando "sortie", eu demorava muito para achar.

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Terça, ou seja, ontem, é um dia em que a maior parte dos museus fica fechada. Por isso, resolvi passear pela cidade, mesmo. Fui à Place de la Bastille. Não achei os tais dos paralelepípedos diferentes que marcam o lugar onde ficavam os muros da prisão demolida. Devo ser mesmo muito ruim de observação, pois todos os paralelepípedos me pareceram iguais.

Depois, comi no McDonalds. Eu precisava saber como é o daqui! E gostei: o hamburger tem gosto de carne de verdade e o preço não é nenhum absurdo: a promoção sai por cerca de seis Euros. Parece caro se transformarmos em Reais, mas pelos preços da Europa, está bem abaixo da média.

Em seguida, segui a sugestão da tia Lena e fui à Place des Gauges. Muito bonita! Um monimento no centro (franceses adoram monumentos!), um gramado, árvores, flores... Típicq praça parisiense, pelo que tenho visto. E várias pessoas sentadas e deitadas no gramado, ao sol, o que por aqui também é bem comum.

Dei uma de européia: sentei na grama e fiquei observando. Olhando as pessoas, o sol, as nuvens, as árvores... E a construção em volta da praça, que para variar, é muito antiga e está preservada.

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Tia Lena havia me dito que perto da Place des Gauges há a casa do Victor Hugo, que foi transformada em museu. Perguntando (em francês!) cheguei até lá. Para minha surpresa, estava aberta e a entrada era livre. Tudo isso eu descobri perguntando e ouvindo as respostas em francês: estou orgulhosa de mim mesma! :-)

Entrei e comecei a observar. Muitos quadros, muitos móveis, muitos livros. Foi quando comecei a ouvir uma explicação, que me pareceu estranhamente compreensível. Compreensível demais! Então reparei que era em inglês. Um rapaz dissertava sobre os detalhes da casa para alguns visitantes. Fui seguindo-os e aproveitando para conhecer um pouco mais sobre Victor Hugo.

Descobri muitas coisas interessantes: além de escritor, ele foi desenhista, decorador e político. Foi exilado no tempo em que um descendente de Napoleão deu um golpe militar. Foi deputado e senador. Quem transcrevia os rascunhos dele para serem levados à editora era a sua amante, Juliette. Ele escrevia de pé, em uma escrivaninha alta. Tem cerca de 4.000 desenhos, de muito valor. Projetou toda a decoração da sua casa e da casa de sua amante. Lutou contra a pena de morte e o trabalho infantil. Enfim, o tipo de pessoa que a gente não compreende como é que pode ter feito tanta coisa assim...

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Saí da Maison de Victor Hugo e peguei o metrô para a estação Opéra (que se pronuncia Operá). Era chegado o momento, pelo qual nutri tantas expectativas, de ver o Ballet na Opéra de Paris.

Encontrei a tia Lena e o Dudu no Café de la Paix. Fomos ao edifício. A fachada já impressiona, como eu comentei em outro post. Por dentro, é ainda mais deslumbrante! A decoração com cada detalhe, normalmente usando motivos da mitologia greco-romana ou representando os grandes artistas. Tudo com muito dourado, com muitos lustres enormes de cristal, com muitas pinturas, muitos mármores minuciosamente esculpidos.

Eu sorria sozinha, e ao mesmo tempo quase chorava de emoção. Entramos na platéia: ficamos em um lugar excelente, porque como os ingressos baratos haviam acabado, acabamos comprando dos mais caros. Não me arrependi de um só centavo gasto. Foi perfeito!

A orquestra, o pianista, os bailarinos... A peça representada foi La Dame des Camelies, e a música era de Chopin. Muito, mas muito piano.

Já percebi que normalmente me impressiono mais com o que ouço do que com o que vejo. No caso, eu ouvia e via, e a música ressaltava os movimentos dos bailarinos, enquanto a dança ressaltava o movimento da música. Tudo numa sincronia, numa sintonia, numa harmonia profundamente emocionantes.

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Quarta feira, eu fiz minha primeira viagem de trem. Fui a Versailles. Fica bem perto de Paris, mas ainda assim, foi uma aventura!

Fui de metrô à Gare de Montparnasse. Pedi informações em inglês (lá os funcionários costumam falar inglês) e descobri que o bilhete é comprado em uma máquina. A gente escolhe o que quer, coloca as moedinhas e a máquina imprime o bilhete e, se precisar, ainda volta o troco!

Peguei o trem para a Gare de Versailles le Chantie. Em menos de 20 min, eu cheguei lá. Seguindo um mapinha que um funcionário da Gare me deu, cheguei facilmente ao Chateau de Versailles. Peguei uma fila de cerca de uma hora para conseguir comprar o bilhete. Estava lotado!

Valeu a pena. Conheci por dentro todo o palácio, onde a nobreza pré-revolução francesa morou. Cômodos enormes, móveis luxuosos, lustres, pinturas, esculturas... Parecia o edifício da Opéra, mas era uma casa e, ao mesmo tempo, uma sede de governo, onde importantes decisões eram tomadas.

Vendo todo aquele luxo, pude entender melhor a revolta do povo. Fico imaginando o que se passava na cabeça de quem não tinha o que comer e via aquele palácio ricamente adornado.

Ao mesmo tempo, também fiquei imaginando como seria morar num lugar desse. Eu adoro espaço, ambientes arejados, flores, sol, jardim - e quando comprar ou construir uma casa, esses elementos não poderão faltar! Nesse sentido, o palácio era simplesmente perfeito! Todos os cômodos amplos, janelas largas, pé-direito alto, sol, ar, visão para o famoso (e maravilhoso) jardim do Palácio de Versailles. Eu adoraria morar lá...

Saindo do Palácio, fui para os jardins. Extremamente grandes: não consegui ver nem metade, para variar. Os jardineiros fazem um excelente trabalho. As flores, as árvores, as fontes, as esculturas, tudo está muito bem cuidado!

Eu ia andando, pensando na vida, sentindo a paz e o silêncio que reinavam no local. Havia não só canteiros de flores, mas também alamedas com árvores, um bosque, muitas fontes, esculturas representando deuses gregos e personalidades importantes... Tirei muitas fotos. É o tipo de imagem que quero ter para sempre gravada não só em fotografia, mas na memória. E ainda hei de voltar nesse lugar com mais tempo, para poder me perder com calma por entre as árvores e as flores.

Contemplando Versailles


Achei um lugar que vendia comida, comprei um sanduíche misto de "jambon formage". Sentei num banco no bosque para comê-lo e beber a água que eu trouxe de casa. O sabor do jambon, do queijo e da manteiga na boca, misturados à visão do bosque e das escullturas, ficou indescritível!
Comendo (de novo) o verdadeiro pão frances: sanduiche de jambon com ementhal e muita manteiga!

Hei de voltar um dia à noite, para ver a iluminação que fazem nas fontes, à noite: dizem que é esplêndida! Hei de voltar acompanhada de alguém que saiba discutir assuntos interessantes, para poder filosofar enquanto olho a paisagem.

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Agora tenho cartão semanal de metrô e ônibus, com direito a carteirinha com foto. Uma idéia que podia pegar em São Paulo! Aqui tem cartão semanal e mesal, e sai bem mais em conta do que ficar comprando passe avulso.
Meu cartão de metro, olha que chique!

São Paulo tem uma vida cultural muito boa, devo admitir. Mas nunca aproveito direito, e um dos motivos é o tempo que se leva de um local ao outro. Uma cidade com cultura, mas sem a mobilidade necessária para que a população aproveite a cultura. Já em Paris, tudo é mais simples.

Nos pontos de ônibus, tem os horários das linhas. Se estiver escrito 12:57, não chegue 12:58, pois você perderá o ônibus. As linhas são extremamente pontuais. Também tem um mapinha com o trajeto do ônibus e as paradas indicadas, então você não precisa ficar perguntando ao motorista se o ônibus passa ou não passa em um determinado local. No metrô, um painel luminoso indica quantos minutos faltam para os dois próximos trens. Então, você sabe quanto tempo terá que esperar, e se o metrô vem lotado, sabe se vale a pena esperar o próximo ou não.

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Se o metrô é bem organizado, a parte de telefonia pública não é. Há poucos orelhões na cidade, já peguei vários quebrados e você só pode telefonar se tiver um Card de Telefonique. O problema é que esses cartões só são vendidos em lojas de Tabac. Eu, a tia Lena e o Dudu passamos muitos dias procurando uma loja de Tabac. Só fui encontrar na Bastille. Porém, é certo que depois que comprei o cartão, comecei a ver lojas de Tabac em vários lugares. Elas resolveram sair do esconderijo!

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Por falar em comunicação, algo que chama a atenção é a experiência de passar vários dias sem celular. Não tenho sentido falta alguma! Pelo contrário, é ótimo não ter que me preocupar em desligar o aparelho quando entro num concerto. É ótimo não ter telefone tocando quando estou andando calmamente numa praça ou no Jardim de Versailles. É ótimo não ter ninguém ligando e me perguntando onde estou e que horas eu volto para casa. Costumamos combinar antes o horário do jantar, e simplesmente chego no horário combinado. É tão fácil... A tecnologia simplificou muitas coisas, e complicou outras.

Outra observação que me intrigou: aqui, o celular funciona no metrô, mesmo quando o trem está no sub-solo!

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Estou complexada. Hoje as pessoas que falaram comigo na rua me chamaram de Madam. E não foi uma só, foram umas três pessoas, em horários diferentes. Até ontem, eu era uma Mademoiselle. Será que fiquei com cara de velha de um dia para o outro?

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Tia Dé me perguntou por e-mail como são as pessoas aqui na França: se são bonitas e charmosas como dizem. O problema é que aqui tem gente de todo tipo, então ainda não consegui formar um modelo padrão.

Os estudantes são como os de qualquer lugar: andam relaxados, de calça jeans e camiseta, sentam na grama para conversar, comer e tomar sol.

Há os executivos, sempre muito bem arrumados (tenho a impressão de que mais do que os executivos brasileiros).

Tem os estrangeiros, que costumam se vestir respeitando a cultura de seu próprio país. Muçulmanas, por exemplo, andam pela cidade de burca e véu. Judeus de tonsura. E assim vai...

Quanto à educação, eu não sei muito bem, porque não conversei com muitos franceses. Os europeus me pareceram ser bem reservados, é difícil puxar assunto com algum desconhecido - até pela limitação da língua. Porém, conversei com o filho do Françóis, que é muito gentil.

Outra coisa que notei é que há muitos idosos por aqui. Eu já sabia disso pelas estatísticas, mas é algo que se nota quando se observam as pessoas nas ruas. Muito mais velhos do que jovens. A tal da pirâmide etária invertida. O que dá aos jovens algumas vantagens, como tarifa reduzida na maior parte dos eventos culturais - o contrário do que acontece no Brasil, que costuma dar redução de tarifa aos idosos.

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Bom, a Lia não pode mais reclamar que não tem o que ler logo cedo, quando chega na USP. Já tem várias páginas relatando minhas últimas aventuras. Amanhã (ou melhor, hoje, pois já é de madrugada), pretendo ir ao Museu de História Natural, no qual tem uma parte todinha sobre evolução! Depois dou notícias.

domingo, 6 de julho de 2008

Os famosos museus...

Sabem aquela sensação de barriga cheia depois de comer demais? Senti algo semelhante ontem à noite. Fiquei com os olhos cheios (e olha que o olho é maior que a barriga). Vi coisas demais, ainda estou fazendo a digestão.

Mercredi e vendredi (4a e 6a feira) o Louvre é gratuito para menores de 26 anos, após as 18h, segundo o Pariscope. Fui até lá ontem. Pela primeira vez, andei por Paris desacompanhada. Despedi-me da tia Lena na estação de metrô e peguei a linha certa até a estação certa. Saindo de lá, quem disse que eu sabia para onde ir?

Fui andando a esmo procurando alguma coisa conhecida. Acabei saindo num jardim maravilhoso... Havia uma pérgula onde as pessoas descansavam, conversavam ou namoravam e as crianças jogavam bola ou brincavam de pegar. Uma fonte, muitas flores, galerias formadas por árvores, paz...

Fiquei andando por lá, ao mesmo tempo admirando o lugar e procurando alguma indicação para o Louvre. Foi quando um senhor negro de terno me disse bon jour. Respondi. Obviamente, meu sotaque o fez perceber que eu era estrangeira. Ele espontaneamente começou a falar em inglês comigo, muito animado. Perguntou de onde eu era, pareceu empolgado quando eu disse que era do Brasil. Quis saber se eu era de Brasília ou Rio de Janeiro, quantos dias eu ficaria em Paris, onde estava indo agora. Explicou-me como se vai ao Louvre e informou onde eu estava: Jardin du Palais Royal.

Com as informações do simpático senhor, cheguei às Pyramides. Lindas, reluzindo sob o forte sol das 17:30. Sozinha, comecei a fazer vários experimentos até conseguir tirar uma foto de mim mesma na qual as Pyramides aparecessem.

A foto que consegui tirar:


Desci as escadas rolantes até o Louvre. De fato, entrada gratuita: era só mostrar o Passaporte. Peguei um mapa do museu. Procurei a parte de Grécia e Egito. Nada como as antiguidades bem antigas...

Achei facilmente a parte da arte grega, romana e etrusca. Estátuas enormes de deuses e heróis estavam dispostas em um enorme salão. Um? Depois fui vendo que havia outro, e outro, e outro, com estátuas maiores ainda, outras menores, outras em miniatura. E um monte de vasos gregos ocupavam umas quatro ou cinco salas. E em outra havia mais esculturas, e tapeçarias, cerâmicas, e... a coisa não acabava mais! Isso para não falar na riqueza da decoração das salas, em si. Quase todos os tetos são pintados com motivos clássicos. Nas paredes, pinturas e esculturas. O pé-direito do lugar deve ter, sei lá, umas 5 ou 7 Gabis uma em cima da outra (meu senso de distância é ruim, por isso imagino como unidade de medida o meu próprio corpo, que tem quase um metro e meio). E no Egito, também, eu me perdi por uma série de incontáveis Isis, Hórus e Atons, faraós, escribas e papirus.


Tipico teto do Louvre:

Percebi que eu teria que criar algum método para ver o museu. Sentei, tracei um caminho no mapa e fui seguindo-o. Eu riscava cada sala pela qual passava, para saber o que já tinha visto e o que faltava ver. Desse jeito, percorri a maior parte das sessões sobre Grécia e Egito. Magnífico! Eu mal sabia onde colocar os olhos.
Na sessao egipcia do Louvre:

Na sessao grega do Louvre:
Um grande salão não estava nem em Grécia, nem em Egito, mas fui ver porque ficava no caminho. Sala Apolo, era o nome. Uma enorme galeria toda decorada, do chão ao teto, incuindo todas as paredes. Mal prestei atenção aos objetos que estavam expostos: fiquei mesmo impressionada com a sala, em si. Percebi que os motivos da junção entre a parede e o teto eram os meses e os signos. Cada um doze avos de sala tinha pinturas e esculturas retratando um mês, um signo e uma figura ilustre (arquitetos, pintores, escultores...). Eu quis tirar foto do menino lutando com um caranguejo, no signo de câncer, mas a distância e a iluminação vinda das enormes janelas atrapalharam. Nenhuma ficou boa.

Em um certo momento, errei o caminho e fui parar numa espécie de porão. Coisa mais estranha! Não havia obras de arte, apenas paredes feitas de pedra, em estilo medieval. Uma série de túneis me levaram ao fim de um corredor, onde havia uma maquete do Louvre. Enquanto eu andava pelas galerias escuras procurando a saída, pensava: lugar mais bizarro!

Meu passeio pelo Louvre durou três horas e meia. Parei para descansar e beber a água que sempre levo na bolsa apenas umas duas vezes, e essas paradas não duraram mais que dois ou três minutos. Ainda assim, eu vi apenas a parte de Grécia e Egito, que é bem pequena em comparação com a totalidade do museu. Nem cheguei a ver as pinturas renascentistas e a tão famosa Gioconda. Essa parte ficará para outro dia. Mercredi, provavelmente.

Saí de lá realmente cansada de andar e de ver coisas. Detalhe: eu só havia almoçado salada, umas três da tarde. Já eram dez da noite. O sol, embora estivesse se pondo, ainda estava quente e eu estava toda suada.

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Saindo do Louvre, custei a achar uma estação de metrô. Quando encontrei, cheguei direitinho na estação École Véterinaire du Maisons-Alfort, que é próxima (mas não muito) à casa do Françóis. A casa dele fica em Maisons-Alfort, uma cidade da "Grande Paris". Eu tinha combinado que telefonaria quando chegasse, pois se fosse possível, ele iria me buscar. Estava escuro (finalmente), pois já eram onze da noite.

O telefone público estava quebrado. Procurei outro. Apareceu a mensagem: "Recherchez", ou algo assim. O cartão que o Françóis me deu já havia acabado (acredito que "recherchez" sinifique "recarregue"). Tentei procurar instruções para ligar a cobrar. Não havia (ou eu não entendi em francês, mas acho que não tinha mesmo, porque tenho achado o francês escrito compreensível).

Desci as escadas até o metrô. Pouca gente estava lá essa hora. Fui ao balcão de "information". Falei "bon jour", expliquei em francês que eu era brasileira e expliquei minha situação. Ela começou a falar em francês bem rápido. Entendi que o cartão estava vazio. Eu perguntei em inglês como faço para telefonar sem cartão (não tenho idéia de como se fala ligação a cobrar em inglês). Ela falou mais um monte de coisa rápida em francês, mas entendi que não dá para ligar sem cartão. Novamente, eu disse que sou brasileira e que não estava entendendo. Ela respondeu que sabe que eu sou brasileira, mas na França se fala francês e não inglês. Como foi que entendi o francês rápido e mal humorado da mulher? Sei lá... Acho que já estou pegando o jeito. Bom, a mulher definitivamente não queria me ajudar (fuck you, bitch!), então saí do metrô e fui pedir "information" na rua.

Encontrei um casal. Logo que eu disse "Pardon", o rapaz já sacou que eu sou estrangeira e perguntou: "Do you speak English?". Alívio! Expliquei a situação e ele me emprestou o celular. Eu disse que não precisava, que eu só queria aprender a usar o telefone público, mas ele fez questão. Atitude absolutamente contrastante em relação à da mulher do metrô.

Em Paris, como em qualquer lugar, há pessoas muito diferentes. A fama é que eles não gostam de estrangeiros. Parece que isso tem fundamento, embora eu não consiga imaginar o que seria da economia da cidade se todos os imigrantes e todos os turistas saíssem de lá. Mas existem pessoas muito simpáticas, também, como o senhor do Jardin du Palais Royal e o rapaz que me emprestou o celular.

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Antes de ir ao Louvre, fui com a tia Lena à Operá de Paris, para tentar comprar ingresso para o Ballet. Os mais baratos já haviam sido vendidos, mas decidi ir mesmo assim. Não sei quando terei essa oportunidade novamente, e já tenho economizado tanto...

O prédio da Operá é maravilhoso! Eu mal sabia distinguir a frente, os lados e os fundos: todos são extremamente detalhados na decoração, com esculturas em estilo clássico. Há bustos, por toda a volta, de figuras ilustres, como Mozart, Bach e mais um monte que eu nunca tinha ouvido falar.

Só para entrar e conhecer o local, é preciso pagar quinze Euros. Pode deixar que vou conhecer em grande estilo, quando for lá para ver o Ballet! :-)

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Depois da Operá, fomos almoçar. A tia me levou para conhecer lojas de departamentos. Confesso que, a princípio, pensei: mas eu vou ficar vendo lojas de departamentos em Paris, onde tem tantas outras coisas para ver? Logo entendi qual era a graça. Chegamos ao Printamps. O local está em reforma, mas bonitos painéis imitam a fachada do local (uma imitação tão boa que eu só percebi que eram painéis quando cheguei bem perto). Eu não diria que aquilo é uma loja! A fachada do prédio parecia renascentista. Dentro dele, roupas, perfumes, coisas para casa, maquiagem, jóias - tudo caríssimo, das grifes mais chiques. Eu não sou chegada em ver loja, mas confesso que dessa eu gostei. Realmente, coisas muito bonitas estavam a venda. O casaco que eu gostei custava 8.740 Euros. Esse valor é simplesmente muito, mas muito maior do que o que eu trouxe para cá para passar um mês!

Subimos ao último andar, que é um restaurante. O teto é uma abóbada de vitrais toda trabalhada. Lindo! O restaurante, como não podia deixar de ser, é caro. Pedimos uma salada para dividir, água (de torneira, que é de graça, mas muito limpa e boa) e cafezinhos. Parece pouco, mas saí de lá saciada. A comida daqui é muito boa e, como diríamos no Brasil, "bem servida".

Abobada do teto do Primtamps:

De lá, fomos na Lafayete - outra loja chiquérrima. As sessões ficam em mesaninos e as paredes também têm uma decoração em estilo clássico. Fiquei pensando que se as lojas do Brasil fossem assim, eu até me animaria mais a ver vitrines. Talvez até parecesse uma mulher de verdade, dessas que costumam ir a lojas com alguma freqüência "só para olhar".

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Hoje fui visitar outro museu: le Museé d'Orsay. Não é tão grande quanto o Louvre, mas também não acho que dê para ser visto em uma visita só. É emocionante ver originais de obras famosas, como as de Monet, Renoir, Cezanne...

Quando vejo arte clássica ou renascentista, principalmente esculturas, fico mais feliz com meu próprio corpo. Todas as "modelos" têm seios pequenos, quadris largos, bubum avantajado e uma barriguinha. Ou seja, meu corpo serviria muito bem para ser modelo de arte clássica. Talvez se as meninas parassem de ver TV e começassem a freqüentar museus, teríamos menos problemas de anorexia. Elas veriam o quanto é belo o corpo humano não-esquelético...

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Aqui em Paris, o tempo está quente e seco. Todos os dias acordo com o nariz e a boca secos. Normalmente, esse timpo de tempo intensifica minhas crises alérgicas. Fico espirrando sem parar. Mas ontem de manhã percebi que não espirrei nenhuma vez desde que cheguei até aqui!

Lembrei de um detalhe interessante: alguns anos atrás fiz exames de alergia e descobri que sou aérgica a ácaro, mas apenas um tipo especial desse aracnídeo maldito: um ácaro brasileiro, que não existe em outra região do mundo.

Pude comprovar essa estranha explicação do médico agora que estou na França. De fato, aqui não tenho alergia, não espirro, não fico com o nariz entupido, mesmo estando num tempo muito, mas muito seco!

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Francois é um excelente cozinheiro! Ontem comi o melhor fondue da minha vida (alias, A melhor fondue, porqueele me disse que em frances, fondue é uma palavra feminina). Tomamos tres garrafas de vinho em quatro pessoas. Comemos sorvete de frutas vermelhas de sobremesa. Sem comentarios, isto aqu esta otimo!

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Noite parisiense

Estou maravilhada com Paris! Agora é uma e meia da manhã, acabo de voltar da cidade. Tia Lena e François me levaram de carro para conhecê-la à noite. O passeio foi indescritível. As fotos que tirei não são representativas do que vi. Não pegam a iluminação, as cores, as formas e muito menos a magia do local.

Quando saímos, por volta das 23h, o sol havia acabado de se pôr e arrastava atrás de si uma cauda de raios retardatários que formavam no céu uma espécie de leque esverdeado. Eu via estender-se no horizonte um espectro começando no amarelado, passando pelo verde água, depois azul turquesa, azul escuro, índigo e, por fim, negro.

Chegando na cidade, cada construção histórica era iluminada de uma forma toda especial. A imponência de cada monumento é ressaltada pelas luzes estrategicamente dispostas.

Passei por diversos lugares que eu já tinha visto à luz do dia, mas durante a noite, eles assumem um aspecto diferente. De fato, parecia que eu os estava vendo pela primeira vez. Eu parecia uma criança olhando a "tetéia" (era o nome que eu dava para as luzes de Natal, logo que aprendi a falar). Em um certo momento, percebi que estava com a boca aberta. Literalmente, fiquei de queixo caído.

Passamos pelos pontos mais conhecidos: o Louvre, o Arc de Triumphe, o Hôtel de Ville, o Sena com suas diversas pontes, o Conciergerie, o Museé D'Orsay, etc. E, claro, La Tour Eiffel. Toda iluminada num azul elétrico (mais ou menos da cor do chackra laríngeo). Uma série de estrelas amarelas formavam um círculo próximo à base. No alto, um holofote fazendo movimentos circulares. De quase qualquer ponto da cidade, podia-se vê-la.

Paramos o carro no Trocadero. Parece ser o melhor local para ver a torre. Muita gente estava lá: turistas, nativos e um monte de imigrantes vendendo minaturas piscantes. Tirei várias fotos, de vários ângulos, usando vários efeitos, mas nenhuma delas conseguiu reproduzir nem 10% da beleza da cena: a torre iluminada, refletida numa espécie de lago artificial que tem abaixo dela. Mais ou menos quinze para meia noite, a torre começou a piscar. Segundo tia Lena e François, ela pisca durante quinze minutos por hora. Simplesmente mágico!

A melhor foto que consegui tirar da torre:




Arco do Triunfo:

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Fora esse passeio iluminado, eu e tia Lena fizemos um programa cultural. Fomos de manhã ao Pompideu - um centro cultural de Paris, que inclui um museu de arte moderna, cinemas, biblioteca e diversas outras coisas. A arquitetura é bem moderna e contrasta com a paisagem da cidade antiga. Muitas escadas rolantes panorâmicas, das quais se enxerga o resto da cidade. Nos terraços, esculturas em laguinhos aritificiais e paredes de vidro: interessante enxergar uma escultura tendo, ao fundo, a torre Eiffel.

Porém, não adianta, não consigo gostar de arte moderna. Uma vez um rapaz que me passou uma cantada me disse: "interessante, você é uma mulher clássica". Definitivamente, o rapaz não fazia o meu tipo, mas nisso ele acertou. Poucas daquelas obras me despertaram algum sentimento. Em compensação, cada cópia de estátua clássica do Jardin de Tullerie (acho que é assim que escreve) que visitamos em seguida, me fez vibrar por dentro. Não vejo a hora de entrar no Louvre!

Também visitei, no Pompideu, uma exposição de arquitetura (Jamir, morra de inveja!) com as maquetes que participaram dos concursos para vários das grandes obras da Europa. Entre elas, a Biblioteca Nacional da França, que pretendo visitar! A biblioteca tem quatro torres enormes, com um jardim entre elas. Imagine quanta coisa deve ter lá para se pesquisar!

Saindo de lá, comemos um sanduíche (para variar) e fomos ao L'Orangerie. Esse museu tem obras impressionistas. Destas ainda gosto muito. Acho que meu gosto por arte vai até aí: o que veio depois, com raras exceções, não me atrai. A tia Lena pensa o mesmo: logo que entramos no Pompideu, ela disse: "Sabe... quando vejo estas obras de arte, e penso no que já vi de arte clássica e renascentista no Louvre, sinto que houve uma regressão...". Falou exatamente o que eu estava pensando!

Voltando aos impressionistas, fiquei muito bem impressionada com as obras. Matisse, Renould, Picasso em sua fase impressionista e a impressionantemente impressionante obra Nimféa (espero ter escrito corretamente) de Monet. Essa obra consiste em oito quadros divididos em duas salas ovais. Elas formam um jardim (que, pelo que li no folheto, é o jardim da casa do Monet). Retratam a passagem do dia e a iluminação que ele provocava no jardim: por isso o formato circular. Conforme você anda pela sala e olha a paisagem, consegue perceber o sol nascendo, a manhã, o entardecer, o anoitecer, e o sol nascendo de novo, e assim por diante... Simplesmente lindo!

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De lá, fomos comprar passagem de trem. A estação tem um nome poético: Montparnasse. Muita fila para comprar o bilhete. Consegui ser atendida por alguém que falasse inglês - um rapaz que foi muito simpático. Até agora, foi a única pessoa que falou em inglês comigo aqui na França. O resto, como já é fama, finge que não escuta, ou prefere falar em francês e entender o que digo em português. Enfim, achei charmoso o inglês com sotaque francês: os "r"s puxados, como os dos cariocas.

Comprei passagem apenas de Paris para Bologna. De Bologna para Roma, ele não conseguiu acessar o sistema para comprar a Tarif Reduit a que tenho direito por ter menos de 26 anos. De Roma para Berlin, são 18 horas! Melhor eu descobrir se tem um avião baratinho, senão perderei a apresentação gratuita da Orquestra Filarmônica de Berlin na abertura do congresso...

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Hoje vi uma passeata dos imigrantes. Gente de todos os tipos: negros, brancos, turcos, judeus, muçulmanos, com roupas africanas, com burca, quase sem roupa, bom: de todo jeito mesmo!
Também vi um cartaz pregado no telefone público que compreendi, apesar de estar em francês (francês escrito é facilmente compreensível). Falava sobre as políticas contra imigrantes.
A coisa aqui está pesada, nesse sentido. Embora eu entenda a preocupação dos franceses (pois pelo visto, tem mais imigrante que nativo por aqui), não consigo imaginar Paris sem os imigrantes. Nem visualmente, nem funcionalmente.

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Começo a entender algumas palavras e pequenas frases do francês. Para quem não saía do Bon jour, até que estou progredindo... Hoje consegui pedir duas entradas para o L'Orangerie (un tarif plein e un tarif reduit) em francês. Também já consigo dizer "Pardon" e não "Desculpa" quando esbarro em alguém (parece fácil, mas não é. O ato de dizer "Desculpa" está fortemente condicionado, é algo que liga automaticamente. Dizer "Pardon" mostra que, de certa maneira, já entrou em minha cabeça que estou em outro país). Também aprendi os dias da semana, lendo o semanário Pariscope. François parece ter ficado feliz com esse progresso.

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As impressões que tenho de Paris são as melhores possíveis. A cidade, em si, é uma obra de arte.

Todos os dias, desde que peguei o avião, há imagens novas para ver. Sons novos, palavras diferentes. Cheiros novos, sabores que nunca senti. Diversidade nos costumes, nas idéias. Certamente, não será a mesma Gabi que voltará ao Brasil.

Fico emocionada de pensar que cheguei aqui como resultado de meu próprio esforço, depois de muito trabalho... Isso faz com que cada experiência tenha, para mim, um valor ainda maior.

Melhor ainda é saber que ainda tenho vinte e cinco dias!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

O centro de Paris

Hoje fui ao centro de Paris. Monsieur Dudu, meu primo de 3o grau, me levou la e pacientemente me mostrou varias coisas.


Agora ja sei pegar o metro! Em breve comecarei a passear sozinha, pois o Dudu vai ter aulas de frances e grego com o Francois. Eu estou aprendendo frances elementar na marra.


Comprei o Pariscope, semanario com as informacoes sobre a vida cultural da cidade (Alu, obrigada pela dica!). Estou maravilhada com a quantidade de concerrtos gratuitos, e tentarei ver opera e concerto da sinfonica nacional.


Contando um pouco mais do meu dia, pegamos o metro até le Hotel de Ville, a prefeitura da cidade, pelo que entendi. De la, saimos andando durante 6h. Devo ter perdido calorias suficientes para compensar todos os vinhos que tomei e que pretendo tomar.


Passamos por Notre Dame, pela igreja de Saint Germain, por outra capela que nao sei o nome, pelo Louvre, pela universidade, pelo Sena, subimos no Arco do Triunfo (cara, isso sim foi cansativo! Valeu por todo o exercicio que eu deixo de fazer na vida! Mas a vista de la de cima compensa!), enfim, rodamos por muitos lugares bonitos. Não paramos por muito tempo em nenhum deles - isso farei com mais calma ao longo dos proximos dias.


Alguns comentarios:


1- Dizem (e é verdade) que Sao Paulo tem uma grande diversidade étnica. Concordo, mas nunca vi nada igual Paris, nesse sentido! Ha gente de todo tipo pela rua, falando um monte de linguas diferentes. Passam pessoas com trajes e modos dos mais diversos...


2- As maes parisienses parecem ser bravas. Hoje vi uma delas cacetar a cabeca de um garotinho com o guarda-chuva molhado, ao que parece, porque ele nao quis sair da chuva no exato momento em que ela mandou.


3- Sempre me disseram que na Europa as pessoas nao jogam lixo na rua. Mentira! Paris tem muito lixo jogado pelos cantos.


4- O metro de Paris é bem semelhante ao de sao paulo, mas com pixacoes nas paredes.


5- Quem dera o Tiete fosse tao limpo e bonito quanto o Sena!


6- Paris tem um congestionamento dos diabos, mesmo tendo um excelente transporte publico. Parece que a cidade foi muito bem planejada... So nao pensaram que um dia, as charretes e carruagens seriam substituidas por carros.


7- Almocei sanduiche de jambom com ementhal. Creio que ele esta para os franceses como o lanche do trailer da tia esta para os psicologos da USP. Mas para mim, é uma iguaria deliciosa!



Chega de blablabla, segue a sessao de fotos.



Sobre uma ponte do Sena. Eu estava indo até a Ile (ilha) para ver a Notre Dame.


Aqui esta a famosa Notre Dame... E o obelisco do jardim.



Enfrentando uma chuvinha fraca e persistente que nos acompanhou por todo o caminho. Ao fundo, o Louvre, que pretendo tirar uns dois dias para conhecer. So a arquitetura ja me pareceu uma importantissima peca de museu!

Mae, a foto da rodoviaria eleitoral de campinas fica para outro dia, porque agora nao vai caber no limite de kilobytes do post.
Estou adorando tudo por aqui!
Vou indo, porque embora o sol tenha acabado de se por, ja sao 23:00.
Ate mais!

terça-feira, 1 de julho de 2008

Enfim, viagem para a Europa!


Começo a escrever este post num caderninho azul, dentro do avião - pretendo passar a limpo mais tarde.
À minha frente, uma pequena tela mostra, em inglês e holandês, que estou sobrevoando um trecho entre Montes Claros e São Filipe, a 9448m de altura. A temperatura fora da aeronave é de iimagináveis -37 graus Celsius. Faltam mais de 8.000 Km até Amsterdam.
Agora finalmente acredito que estou indo! :-))

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Os preparativos para a viagem consuiram tempo. É preciso pensar em muita coisa: condições climáticas das quatro cidades pelas quais passarei, passeios que pretendo fazer, eventos dos quais participarei, formas de diminuir o peso da mala...
Comecei a preparar a bagagem no sábado de manhã, separando o que seria levado para Campinas para entã ser acomodado na mala que meu pai emprestou, a qual voltaria comigo para São Paulo no dia seguinte, para então ser carregada até o aeroporto e, enfim, rumo à Europa!
(Chegou comida, continuo logo mais!)

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- Chicken or beef? - Asked the flight attendant.
- Chicken, please.
- Do you want any sparkling?
- Zero Coke, please.
O comissário me entregou uma bandeja contendo tabule, strogonoff de frango, arroz (que obviamente não comi), manteiga e torta de banana. Pude, ainda, escolher entre dois tipos de pão. No saquinho de talheres, garfo e colher de metal, faca de plástico - que me fez iaginar se eu conseguiria sequestrar um avião usando um garfo... hummmm...
Pequenos saquinhos continham "salt" e "pepper" - não usei. Havia também um "dental stick" embalado em um saquinho no qual se lê: " design recomended by dentists". Este eu guardei.

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Voltando à bagagem: no princípio, era o caos.

Então, aos poucos, fui separando as coisas e colocando em pequenas malas, mochilas e sacolas, até formar um bonito amontoado, que carreguei com dificuldade até um táxi que me levou ao ponto de ônibus na USP, onde peguei o fretado para Campinas. Meu pai me esperou no ponto.

A tarde de sábado e o domingo quase todo foram usados para acomodar as coisas na gigantesca mala com senha e chave que meu pai emprestou.

Por fim, tudo pronto, organizado em quatro volumes, senti-me preparada para a aventura dos próximos 28 dias.


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À minha frente, como eu já disse, há uma pequena tela. No braço da poltrona, fones de ouvido e uma espécie de controle remoto. com ele, posso acessar diversas opções, que incluem vários filmes, várias músicas, audiobooks, jogos, e-mail (pago, é claro), cursos de línguas, informações sobre o vôo...
Enfim, muito interessante esses recursos de entretenimento para vôos longos, mas percebo que ainda prefiro minha caneta, caderninho e revistas de palavras cruzadas.

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A Lia me pediu para relatar detalhes do que me perguntaram na alfândega. Bem, ainda não cheguei em Amsterdam, mas em Cumbica, perguntaram-me se eu tinha autorização para viajar desacompanhada. Pra variar, precisei explicar que sou maior de idade...

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Estou feliz por constatar que o banheiro do avião não é tão claustrofobicamente pequeno quanto os que encontrei nos vôos nacionais que já peguei.
Detalhe: há um botão para chamar o comissário de bordo no banheiro. Por que alguém faria isso?! Minha imaginação está contente com o convite para um longo passeio...

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Eu até que gosto do frioziho na barriga provocado pela turbulência, mas desta vez estou me sentindo levemente enjoada. Se eu estou enjoada... pobre Lia! Boa sorte quando for a sua vez!

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Dormi com a telinha ligada no modo "flight tracking". Lá pelas tantas, abri os olhos e percebi que sobrevoamos o Atlântico! Já ultrapassamos a Linha do Equador. Pela primeira vez, estou no Hemisfério Norte!
Isso me fez pensar se a água da descarga vai girar no sentido contrário quando eu "pushar" (ato ou efeito de apertar o botão "push") a descarga. Verificarei na próxima oportunidade. Mas peraí, para que lado a água virava no Hemisfério Sul, mesmo? Bem, a experiência terá que ficar para a viagem de volta.

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Agora abro os olhos e vejo que nos aproximamos da costa noroeste da África. Quando o mapa se aproxima numa espécie de zoom, vejo que sobrevoamos um arquipélago: Boa Vista, São Nicolau, Santo Antão e... Cabo Verde! Tchau, Cibele! (Cibele é uma caboverdeana que estudou comigo na graduação).
Faltam 4489 Km para Amsterdam. Meu relógio de pulso marca 1h da manhã, mas a tela informa que no horário local, são 2h da manhã, e em Amsterdam, 6h. Começo a pensar na complicada questão da relatividade do tempo...

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Acordo. 4:30 da manhã no meu relógio. As luzes do avião já se acenderam. Peço ao rapaz ao meu lado para abrir a persiana da janelinha. Muitas nuvens abaixo de nós, céu já claro. Primeiro (e estúpido) pensamento: como aqui o sol nasce cedo! Então percebo que no horário local, são 9:30 da manhã.
Sobrevôo a Península Ibérica. Enfim, território europeu!
O café da manhã começa a ser servido.

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O jantar até que estava bom, mas não o café da manhã. Pedi "coffee with milk". "Coffe and milk together?" "Yes, please". Veio café quente e leite frio, formando uma mistura morna.
Para comer, pedacinhos de fruta, um potinho de uva passa (ou algo similar), uma espécie de bolo de cereais, uma pasta amarela quente que parece queijo, um negócio que parece uma esponja doce com creme e nenhum pãozinho!
Algum passageiro comentou logo atrás de mim que isso é comida típica holandesa. Não gostei muito.

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Agora sobrevôo a França, para onde voltarei logo mais. Faltam apenas 577 Km para Amsterdam, que serão percorridos a 920 Km/h! Logo mais, enfrentarei alfândega e conexão em aeroporto estranho. Nice!

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E agora, estou aqui no hall do aeroporto de Amsterdam. Muito bonito, por sinal. Tem museu, local para meditação, um monte de coisas para comprar... E um banheiro com sensor de infravermelho que dá descarga automaticamente tão logo você tire o traseiro do vaso.
Sinto-me completamente perdida! Perguntei diversas vezes para entender onde deveria ir e o que deveria fazer. Acabei conseguindo chegar ao local de "Transfers". Ganhei meu primeiro carimbo no passaporte (ninguém me perguntou nada, só carimbaram e deixaram eu continuar). E agora, pra onde vou?! Uma brasileira percebeu meu problema e me mostrou que eu estava com o cartão de embarque na mão desde Cumbica e não havia percebido. Isso resolveu meu problema: gate D82. Ah, tudo fica mais fácil agora.
Já achei o tal do gate e estou sentada num hall digitando este post em WordPad. Não consegui conectar o computador à rede wireless do aeroporto, embora isso deva ser um problema de BIOS (Besta Ignorante Operando o Sistema), pois vejo várias pessoas à minha volta conectadas. OK, depois tento descobrir como se faz.
Ver Amsterdam de cima é uma experiência incrível. Parece uma cidade montada no jogo SimCity. Tudo extremamente geométrico. Quarteirões quadrados ou retangulares, usinas eólicas de geração de energia, rios e canais passando barquinhos, trem passando nos trilhos, construções geometricamente erguidas e muitas, muitas árvores! Eu nunca havia visto nenhuma cidade no Brasil que, de cima, tivesse tanto aspecto de organizada.
Agora faltam 40 min para o meu embarque. Vou tentar arranjar alguma coisa decente para comer. Em breve, estarei em Paris!

***

Enfim, Paris!
Cheguei cerca de 16h daqui (13h no Brasil). Ninguém me perguntou nada, nem sequer pediu meu passaporte para entrar. Estranhei e fui perguntar na alfândega se era isto mesmo, se eu tinha que passar em algum lugar. O funcionário sorriu e me disse: "just go ahead!".
Esperei pelo Françóis, que foi me buscar. Viemos para a casa dele de carro. Paris, em um primeiro momento, pareceu-me semelhante a São Paulo: cerca de uma hora do aeroporto até aqui, por causa do trânsito. E isso porque viemos pela estrada...
Mas entrando na cidade, percebi diferença na arquitetura das casas, no padrão das ruas. Amanhã devo ver melhor.
Estou bastante cansada. Com essa questão de fuso horário, perdi 5h de sono. Dormi um pouco agora, das 8 às 9:30 da noite. Está claro, ainda: só agora, 10h da noite, o sol começa a se pôr.
Estou ansiosa por conhecer melhor esta cidade... A viagem está apenas começando!


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A comida aqui é fantastica! Jantei so uma saladinha e ja foi maravilhoso! Queijos diferentes, jambon (um presunto gostoso, com pouca gordura e poucos conservantes), angina (uma verdura, não sei se é assim que escreve) e um vinho... hummmmmmmmm...

Estou vendo que vou aproveitar muito essas iguarias!
Ainda não consegui conectar meu computador na rede. Estou usando o daqui, que tem um teclado bem diferente.

Bem, não sai muito daqui por enquanto, mas amahã terei fotos legais da cidade, assim espero.
Vou dormir que aqui é de ,adrugada! Fuso horario é fogo.



quarta-feira, 25 de junho de 2008

Viagens minhas de cada dia...

Fiquei muito feliz com os comentários que recebi nos posts anteriores. Eu ando com a auto-estima-literária baixa: sempre achando que meus textos não têm saído bons como antes, ou ao menos não tão bons quanto eu gostaria. Mas acho que ao menos não perdi a capacidade de perceber a poesia do cotidiano.

Estes últimos dias têm sido muito ocupados. Nove horas por dia na empresa, quatro no trânsito. Considero que viajo todos os dias, como na época em que eu ia e voltava da USP. O tempo passado dentro de veículos é o mesmo, e o cansaço é maior.

Quando eu ia e voltava da USP, pegava apenas um veículo: ônibus com ar condicionado, TV passando filmes, banco confortável. Agora, posso escolher entre várias opções:

1) Pegar o 775V-10 (bizarra a numeração de ônibus em São Paulo, que usa letras, números e outros números separados por tracinho ou barra), que vai direto daqui para lá, mas pega muito trânsito no caminho.

2) Pegar qualquer ônibus até o metrô da Paulista, e de lá dois metrôs (conexão na Ana Rosa da linha verde para a azul) até a estação Santa Cruz. Esse vai um pouquinho mais rápido, mas fica mais caro e tem conexões a fazer.

3) Andar a pé até a USP, pegar o circular até o portão de pedestres que sai na ponte, atravessar a ponte por cima do fedorento rio Pinheiros até a estação de trem Cidade Universitária, onde eu compro um bilhete fingindo que vou pegar o trem, passo a catraca, pego um bilhete do ORCA, passo a catraca de volta, pego uma fila de 20 min até conseguir um ORCA, levo mais 15 min de ORCA até a Vila Madalena, onde pego metrô até a estação Santa Cruz (novamente fazendo conexão na estação Ana Rosa). Ufa! Essa opção é bem cansativa. Valeria a pena se não fossem os 20 min de fila até conseguir um ORCA.

Bem, como todos os trajetos tentados até aqui deram quase que na mesma, tenho optado pelo primeiro, que pelo menos é um ônibus só - cansa menos. A partir da metade do percurso, mais ou menos, eu até consigo sentar, e vou lendo pelo caminho. Às vezes, vou lendo de pé, mesmo: uma mão no ferrinho para não cair, outra segurando o livro. Desse jeito, já li "Admirável Mundo Novo", "Sonhos de uma Noite de Verão", e agora estou lendo "Incidente em Antares". Acabo de arranjar forma de colocar em dia a Literatura!

Outra coisa muito divertida a se fazer no percurso é observar as pessoas. O metrô e o ônibus são excelentes campos de observação para humanólogos (os USPianos que estudam macacos têm se auto-intitulado "macacólogos", acredito que por influência do renomado macacólogo Luiz Biondi, que foi o primeiro que eu vi usar esse termo. Portanto, acabo de criar o neologismo "humanólogo" para os que estudam seres humanos). Tem gente de todos os tipos: crianças, jovens, velhos, pobres, remediados, às vezes até umas pessoas que parecem ricas, intelectuais, inguinorantes, etc. As discussões passeiam por diferentes assuntos, como família, comida, sexo, política, futebol, trabalho, drogas, etc. Qualquer dia farei um (ou vários) post(s) sobre as pessoas que vi no ônibus, e as conversas e fatos que presenciei - certamente dão ótimas crônicas.

Bem, este post não foi poético, nem muito engraçado, talvez nem mesmo interessante, mas eu precisava desabafar! São Paulo é fogo! Odeio ter que ir para onde todo mundo quer ir, ao mesmo tempo que todo mundo quer ir. Mas a vida é assim mesmo, e resta tentar encontrar diversão na Literatura escrita e nos acontecimentos do cotidiano, que são Literatura ao vivo, com potencial para tornarem-se Literatura escrita.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Viagens minhas de cada semana...

Acho que não tem viagem que eu tenha feito mais na vida do que o trajeto Campinas-São Paulo-Campinas.

Houve um tempo em que eu transitava por esse percurso de segunda a sexta feira: 200 km por dia, cinco vezes por semana, totalizando cerca de 5.000 Km por mês, o suficiente para ir e voltar de Rio Branco (capital do Acre, para os que perderam as aulas da 3a série) uma vez a cada um mês e meio! E creio eu que, caso eu tivesse tido a oportunidade de optar por ir e voltar do Acre a cada um mês e meio, minha vida teria sido mais interessante.

Em todo caso, esse tempo passou. Mudei-me para São Paulo e comecei a percorrer o trajeto São Paulo-Campinas-São Paulo uma vez por semana. O que tem seus prós e contras.

O maior contra foi ter-me tornado uma anfíbia. Meio lá, meio aqui. E meio caracol: o tempo todo carregando uma casa nas costas. Há tempos cheguei à conclusão de que minha verdadeira casa é a mochila, que eu praticamente nunca desfaço por completo. Vai roupa suja, volta roupa limpa (bendita seja a mamãe que continua cuidando das minhas roupas!). Ficam sempre nos bolsos da mochila escova de dentes, placa ortodôntica para não ranger os dentes, carregador de celular e umas duas calcinhas limpas. O que pesa mais não são os panos, e sim os papéis. Livros e artigos: muitos! Como pesa o conhecimento!

Apesar de percorrer esse caminho tantas vezes, até hoje não o conheço. Sempre fui de ônibus ou de carona, o que me faz viajar mais para dentro de mim do que para fora. Se não estou dormindo, estou conversando ou lendo ou imaginando mil coisas interessantes que me impedem de prestar atenção na paisagem ao meu redor. E até hoje ainda não sei direito dizer qual é a Bandeirantes e qual é a Anhangüera - por mais que eu tenha consciência de que são totalmente diferentes.

É impressionante notar a diferença de clima entre as duas cidades, relativamente tão próximas. Jundiaí é a linha divisória: o limite entre o cinza-azulado de São Paulo e o azul-amarelado de Campinas; entre o ar gelado de São Paulo e o calor abafado de Campinas; entre a necessidade do guarda-chuva e do agasalho, em São Paulo, e a necessidade da blusa sem manga, em Campinas; entre a cara amarrada e apressada de São Paulo e o sorriso de nariz empinado de Campinas; entre a Rainha de Copas e a Princesa d'Oeste.

E eu há seis anos vivendo no limite...

domingo, 8 de junho de 2008

Iniciando as viagens...

Aqui estou, fazendo um novo blog, depois que o outro ficou preso no servidor, sem condições de ser modificado ou apagado! Coisas do mundo tecnológico...

Na verdade, eu não me preocupei com isso por muito tempo, porque não tenho mesmo muito tempo para mexer em blog.

Mas agora, aproximam-se as viagens para a Europa e tanta gente pede para eu dar notícias, que precisei arranjar um jeito de dar notícias para todos, sem tomar muito tempo, porque vou querer usar muito tempo para passear! Então, quem quiser ter notícias de mim, é só entrar aqui que vou tentar manter atualizado!

Já aviso que viagem, para mim, independe do local. Estou sempre viajando, onde quer que eu esteja. Viajo o tempo todo: deitada na cama, sentada ou de pé no ônibus, andando pela cidade, trabalhando, estudando, lendo, tomando banho, fazendo xixi, comendo... Eu viajo constantemente!

Então, preparem-se para encontrar as viagens físicas e mentais desta viajante.

Alô, alô, planeta Terra chamando, planeta Terra chamando!