sábado, 29 de janeiro de 2011

Encontros e reencontros - Parte II

O auto-conhecimento, muitas vezes, vem de fora para dentro. Algumas conversas com pessoas que passaram brevemente por minha vida e por minha viagem fizeram com que eu me entendesse um pouco mais...

***

- ¿Tienes frio?
- No, no te preocupes.
- Estás helada.
- Sí, pero no tengo frio.
- ¿Has traído un abrigo?
- No, no es necesario. No tengo frio.
- Coge mi abrigo, por favor.
- No, gracias, no es necesario.
- Coge mi abrigo, tus brazos están fríos.

Ele colocou a jaqueta sobre minhas costas.

- Se no te cuidan, no te cuidas. Ya lo he percebido...

É a pura verdade... e nos conhecemos hoje, como foi que ele descobriu tão rápido?

***

Cheguei ao albergue em Cuiabá morrendo de fome, cerca de 21h. Nenhum restaurante ou lanchonete num raio de cinco quadras, mas disseram-me que havia um carrinho de espetinhos muito bom numa esquina ali perto. E enquanto as duas moças simpáticas assavam meu espetinho na churrasqueira e me preparavam um prato com salada, farofa, vinagrete e mandioca cozida como acompanhamento, contei a elas sobre meu percurso de viagem e a árdua tentativa de entrar na Bolívia por San Matias, que acabou me levando a voltar a Cuiabá.

- Então você está viajando há mais de uma semana sozinha?
- Sim, estou andando por aí há pouco mais de uma semana.
- Mas e o namorado?
- Ah, ... bom, não tem não...
- Mas não tinha nenhuma amiga pra vir com você?
- Estamos em outubro... todo mundo estudando ou trabalhando...
- Nossa... eu queria ter sua coragem!

Quando me despedi das moças:

- Quando voltar a Cuiabá, passe aqui pra comer com a gente de novo. É legal conversar com você! Você tem um monte de experiências de vida...


Um monte de experiências de vida... nunca alguém me disse isso.

Fui caminhando pensativa, quando ouvi atrás de mim:

- Lá vai Gabi, a corajosa!

***

Acontece que, cerca de seis meses antes de ouvir uma quase-desconhecida me chamar de corajosa, ...

Amigo: "Coragem" foi a palavra que escolhi pra me definir.. rss
Eu: eu sei, hahahaha
Amigo: Coragem eu tenho.. rss. eu não tenho é sorte! ahahha
Eu: sorte eu tenho, rs...  coragem, em poucas situações... cancerianos são medrosos por natureza
Amigo: dizem que medo e coragem andam lado a lado.. rss tomam café da manhã juntos.. trocam olhares... passeiam e cantam lado a lado!

***

Afastei-me do carrinho de espetinhos a passos ligeiros, de paulistana com pressa. Queria chegar logo ao albergue, pois estava cansada e não sabia se as ruas escuras daquela região de Cuiabá poderiam ser consideradas seguras. Alguns metros depois, passei por um ponto de ônibus, sem olhar para os lados.

- Você caminha bem, hein, moça!

Olhei na direção desse chamado. Era um homem sentado no banco da parada de ônibus, sorrindo. Ele não tinha as pernas.

***

Acontece que, anos antes, eu sonhei...

Havia uma prova da disciplina Comportamento Animal em que os alunos precisavam subir uma montanha. Eu era monitora da disciplina e, por isso, fui acompanhando. Logo ultrapassei todos eles e segui na frente. Vi que alguns ficavam para trás, caíam, se machucavam. Alguns poucos chegaram ao final do trajeto, já cansados, com as roupas rasgadas. Eu estava lá, tranquila, sentindo-me com todo o vigor que havia em mim desde o início da subida. E não entendi o porquê, já que, mesmo sendo monitora, eu nunca tinha subido aquela montanha ou feito qualquer outra atividade que me garantisse algum condicionamento físico ou habilidade especial.

No final da trilha, havia uma fenda e era necessário pular para o outro lado, para a outra montanha. Havia um senhor que admiro bastante parado ali, de braços cruzados, aguardando. Os alunos perguntaram: "nós precisamos mesmo pular?" Ele disse: "Vocês é que sabem. Por terem chegado até aqui, já garantiram nota sete, que é o mínimo para passar. Se quiserem chegar à nota dez, precisarão arriscar. Mas sabem que é perigoso, então é por sua conta e risco. Não posso decidir por vocês".

Os alunos desistiram, resolveram voltar. Perguntei: "E eu, posso pular?". Ele disse, com a mesma serenidade e sorriso irônico: "A resposta que dei a eles vale para você, com exceção de que você nem sequer precisa ou quer nota alguma. Você já passou por esta matéria.".

Pulei. Já do outro lado, sem um arranhão, fiquei feliz e gritei: CONSEGUI! E aquele senhor, que guadava a fenda da montanha, me disse: "Eu sabia que você conseguiria! Você, em outras vidas, foi Aquela que Percorre Caminhos. Você sabe como percorrer um caminho.".

O sonho de repente voltou à minha mente, quando ouvi o inesperado comentário do deficiente físico que eu não conhecia:



- Você caminha bem, hein, moça!

Sim, parece que reaprendi a caminhar.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Foi bom paramim

As melhores viagens são as de improviso: gosto dos planos frouxos, com espaço para me esticar. Logo que descobri que teríamos um feriado prolongado em Valinhos, graças ao padroeiro São Sebastião e à festa do figo, comecei a escolher uma cidade para visitar. Pensei em muitas ideias, de interior de Minas a litoral de São Paulo e por alguns dias acreditei que iria para Ilha Comprida com a amiga Lia. Mas de última hora, Lia não pôde ir e a escolha seguinte foi Paraty. De repente, eu e meu irmão Samuel - sobrevivente de uma maratona de vestibulares - reservamos hotel e consultamos mapas e GPS para organizarmos nossa viagem em poucas horas.

Nada como um vestido florido e uma cidade a conhecer...


A primeira alegria foi encontrar o restaurante de beira de estrada Vaca Preta, que fica no comecinho da Tamoios (ou finalzinho, para quem vem de Paraty a São Paulo). Era o lugar onde sempre parávamos para comer quando íamos a Ubatuba com a família. Lá tem lanches grandões, banheiros razoavelmente limpos e uma vaca preta com certificado de vacinação, num cercado, onde se pode tomar leite tirado na hora. Durante a viagem, estávamos imaginando se o Vaca Preta ainda existia ou se havia virado um posto com sobrenome Graal, quem sabe com o nome Profissional do Sexo Afrodescendente, para ser mais politicamente correto do que Vaca Preta. E a vaca, quem sabe seria de plástico, uma teta jorrando capuccino, outra iogurte, outra leite com nescau, outra milk shake. Mas o Vaca Preta continua no mesmo lugar, o mesmo de sempre, a vaca ainda de carne e osso!

Eu e Samuel nos revezamos na direção e estreamos o nosso novo GPS. Um pouco além de Ubatuba, o bichinho começou a endoidar. Achou que estávamos saindo da pista e, quando chegamos a Paraty... a telinha indicou que caímos no mar! Eu sempre soube que Samuel era um péssimo motorista rsrsrs

Homem ao mar!


Ficamos no Historic Centre Hostel, num quarto coletivo para 12 pessoas, no sótão (calooor!), com um único banheiro, que era lavado apenas uma vez ao dia. A vantagem, além do preço, eram as pessoas legais que ficavam por lá. Hóspedes de vários países. Funcionários que passavam o dia sentados na sala, sem camisa, tomando cerveja com os hóspedes. Pessoas extravagantes e aleatórias que apareciam por lá do nada para bater um papinho, apesar de não estarem hospedadas no albergue, como a mulher que, uma noite, chegou falando inglês conosco e, após descobrir que éramos brasileiros, falou: "Ai, que chiquérrimo, nunca esperei encontrar alguém do Brasil aqui!". Na noite seguinte ela chegou chapada e, após falar sobre astrologia e cartas, perguntou se a gente tinha um béqui pra arrumar pra ela. "Perguntar não ofende", completou.

Béqui a gente não curte, mas álcool de vez em quando vai bem. Todas as noites saíamos pelo centro histórico para pegar ar fresco, olhar as lojas de artesanatos, ouvir Bossa Nova (que sempre tocava em algum bar ou restaurante), sentar numa mesinha ao ar livre e tomar cerveja. Experimentamos também a cachaça Gabriela, minha xará, que é curtida com cravo, canela, gengibre e mel. Muito doce e saborosa. Também tomamos capirinha de açaí e cachaça com pimenta: misturas exóticas.

Os barcos


Fizemos um passeio de escuna de oito horas, parando para nadar na Ilha dos Cocos, Mangaguá e Praia Natural. Quando comprei o passeio, haviam me dito que o barco pararia em Paraty Mirim, mas a informação estava errada. Se por um lado fiquei desapontada por não conhecer essa praia, por outro arranjei mais um motivo para voltar a Paraty. As três paradas eram muito boas para nadar. A água era tão cristalina que eu conseguia enxergar o fundo, mesmo em regiões com dez metros de profundidade. Na Praia Natural, nadei junto a um cardume de peixinhos listrados que estavam felizes comendo pedaços de frutas que as pessoas atiravam do barco. Logo que saímos do local, cruzamos com dois golfinhos que iam na direção dos peixes, provavelmente querendo comer aqueles que comeram as frutas...

Peixinhos listrados


Também passeamos de jipe pelas cachoeiras e alambiques de Paraty. Lugares muito bonitos, uma pena que estivessem sempre cheios de gente e que a excursão tenha passado por eles com bastante pressa. Mas deu para sentir a pressão da água gelada nas costas, levando embora as preocupações e ziqueziras, deixando-me renovada para mais algumas semanas de trabalho no CREAS.

Um lugar, em especial, merece ser mencionado: Cachoeira do Tobogã. Uma pedra enorme e lisa, com uma leve inclinação, que funciona como um escorregador natural. Os turistas e criancinhas escorregam sentados, mas há profissionais de Surf na Pedra que descem de pé, fazendo acrobacias. Vi moleques descerem de costas, dando rodopios, usando as imperfeições do declive para saltar, em altas exibições arriscadas de habilidade e equilíbrio. Desci duas vezes, sentada, é claro. Perguntei ao Samuel se ele não iria, e ele disse que não era doido. Por inferência, confirmei mais uma vez que ele me acha doida.

video


No domingo saímos logo depois do café da manhã e fomos a Trindade, uma praia que fica a uns 20 minutos de Paraty, já a caminho de Ubatuba. Muito limpa e não muito lotada, a praia tinha um mar bravo no qual não ousei entrar. No entanto, as psicinas naturais formadas por um rio que desemboca no local são maravilhosas para refrescar. Andamos bastante até a ponta da praia, já povoada por bares e guarda-sóis. Voltamos às piscinas naturais e, então, escorreguei e bati meu pé numa pedra, com tanta força que fiquei até sem ar. Deixei o pé por alguns minutos dentro da água gelada do rio, tentando evitar inchaço. Voltei mancando para o bar, perto de onde paramos nosso carro. Enquanto comíamos uma grande e deliciosa porção de camarões, eu gelava o pé com a latinha de Coca-Cola.

Trindade


Na volta, Samuel precisou dirigir o caminho todo: eu não estava em condições de pisar na embreagem. Dia seguinte, pé ainda inchado e dolorido, fui tirar raio X. Felizmente, não era fratura, mas foi preciso passar um dia todo de molho. O feriado prolongou-se mais um pouco e pude dar um gás na pesquisa de doutorado, enquanto mantinha meu pé para cima com a ajuda de um banquinho e passava óleo de andiroba com cravo de tempos em tempos para controlar a dor.

Ainda voltarei a Paraty com mais tempo, porque vale a pena. Em alguns poucos quilômetros, a cidade reúne cultura, história e áreas de preservação ambiental, tornando-se um destino bastante acolhedor para as minhas necessidades de viajante.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Crematório

Eu deveria estar finalizando o relatório da CAPES, mas enquanto não despejar o sonho em algum lugar, não funciono...



Com o coração acelerado, eu entrava na escola em que cursei o Ensino Médio. O prédio estava um pouco mudado... parecia mais um shopping. Adolescentes andavam juntas, usando uniforme: bermuda verde e camiseta amarela. Estranhei... no meu tempo não se usava uniforme neste colégio. Mas logo percebi que, na verdade, era o figurino característico de um time de futebol de salão. Dei risada, lembrando do quanto eu odiava as aulas de educação física e qualquer coisa que remetesse a esportes.

Eu já havia entrado naquela escola muitas vezes como aluna, mas era a primeira vez que entrava como profissional. Um porteiro cochichou comigo, explicando que havia uma audiência numa sala de aula do terceiro andar. Três famílias estavam sendo processadas, "e todos sabem que são inocentes, mas como tem muito filhadaputa no mundo, resolveram meter processo...".

Subi para acompanhar. Em uma sala de aula, as famílias se reuniam com profissionais do Fórum. Bem no centro da outra, havia uma estante cheia de livros e três homens, um negro e dois brancos, colocavam sobre ela mais alguns volumes. Uma moça surgiu na sala, retirando do corpo as jóias de ouro: "tomem, preciso entregar isto também". Tratava-se da execução da sentença, apreendendo objetos das famílias acusadas. As jóias seriam recolhidas e devolvidas ao final do julgamento, em caso de absolvição, mas os livros seriam queimados ainda naquela tarde. A jovem que entregava as jóias parecia ter cerca de 18 anos, era alta, meio cheinha, cabelos pretos cacheados, bonita. Eu sabia que ela se chamava Bruna. O senhor que recebeu as jóias sussurou: "você não deveria me entregar, não precisava... poderíamos fingir que já está tudo aqui.". Mas ela disse: "Não importa, quero fazer tudo dentro da lei. Vou reaver as jóias quando terminar o processo e provarmos que somos inocentes". O homem prendeu colares e pulseiras num tubo, de forma que os fechos engancharam lá dentro, mas os pingentes ficaram pendurados para fora. Pendurou o tubo num gancho de parede.

Nesse momento, começou uma cerimônia. Dois homens e uma moça acomodavam os livros na estante, derrubando-os para que ficassem na posição horizontal, preparando-os para serem queimados. Trechos de música soavam e, em seguida, eles derrubavam mais uma parte dos livros. Isso aconteceu três vezes. Uma das músicas me tocou profundamente e fiquei me contendo para não chorar. Então, o homem negro que fazia o papel de carrasco dos livros me abraçou, em prantos. Compreendi que a música havia tocado a ele também, e lembrei que isso acontecia por causa de uma conversa que tivemos dias antes... Mas as pessoas não sabiam dessa conversa, não sabiam sequer que eu conhecia aquele homem e olhavam para a gente com olhares curiosos e, talvez, um pouco recriminatórios.

Então ele me soltou, jogou álcool sobre os livros e pegou uma caixa de fósforos. Senti que era tudo muito absurdo, uma condenação sem julgamento, a execução de uma sentença irretornável sem que as famílias tivessem tido oportunidade de defesa. E queimar livros me parecia ainda mais absurdo, como é que se queima o conhecimento assim, sem mais nem menos? Como se eu estivesse assistindo a um filme, pensei com todas as forças: "Não é possível... não vai terminar assim... alguma coisa tem que acontecer! vai acontecer alguma coisa... por favor, alguma coisa..."

Salva pelo despertador.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Duas pequenas colisões e um grande contraste de Caráter

Valinhos, 28 de dezembro de 2010. Tocou o telefone do CREAS, era meu irmão: "Gabi, estou ligando para avisar que o vô faleceu hoje cedo". Resolvi ir à casa de minha avó, abraçá-la e ficar com a família. Alguém ainda me perguntou: "Você está bem para dirigir? Quer que alguém te leve?". Ainda não consegui melhorar o radar para avaliar a dimensão dos meus sentimentos em situações extremas. Acreditei que estava bem e dispensei o auxílio. Quando dei ré no carro, para sair do estacionamento, ouvi um barulho de colisão: bati num carro estacionado atrás do meu, que eu simplesmente não tinha visto.
 

Ainda meio passada, pedi para chamarem a dona do veículo, que estava sendo atendida no Plantão Social. Quando ela viu o próprio carro naquela situação, desesperou-se, gritou, quase chorou, dizendo que havia comprado o veículo há menos de um mês. Procurei acalmá-la e garanti que eu pagaria o prejuízo. Pedi para ela tirar o carro dali, pois na posição em que estavam, se eu tirasse o meu primeiro, o estrago seria maior. Foi então que constatei que os danos haviam sido pequenos, principalmente para ela: apenas uma pequena rachadura no parachoque. Reforcei que pagaria o prejuízo e a moça sorriu: "Ah, não, isso já estava assim quando comprei!". Fiquei sinceramente feliz por perceber a honestidade da moça, e ela por descobrir que nada havia acontecido ao seu carro recém-comprado. Inesperadamente, abraçou-me e pediu desculpas, ao mesmo tempo em que eu me desculpava novamente. Alguns colegas de trabalho lhe disseram que eu estava meio nervosa pelo falecimento de meu avô e ela, compreensivamente, falou: "sei bem como é, perdi meu pai há menos de um mês".

Mas nem sempre topamos com pessoas honestas por aí. Hoje voltei de Valinhos para Campinas, bem devagar, devido à chuva. Quando cheguei no final da Rodovia Magalhães Teixeira, naquele ponto em que a pista se estreita para pegar a D. Pedro I, havia um pequeno congestionamento, que me obrigou a parar o carro. Percebi o perigo da situação e liguei o pisca alerta. Atrás de mim, vinha um carro desses bem chiques e poderosos, que estava distante e certamente teria tempo de parar, mas em vez disso acelerou. Vi pelo retrovisor quando deu uma guinada brusca para a esquerda, tentando desviar, e senti um impulso forte quando a frente do carro dele pegou, de lado, a traseira do meu. Uma peça voou longe, felizmente era do carro dele. Em seguida, simplesmente acelerou, correndo pelas faixas brancas que indicavam o estreitamento de pista e fugiu. Anotei a placa e vim muito nervosa para a casa da minha mãe, com as pernas tremendo e a boca seca.

Chegando aqui, eu estava realmente muito nervosa, ou, para usar uma expressão melhor, puta da vida. O prejuízo material certamente foi pequeno: um leve amassado, uns arranhões na pintura. O que me revoltou foi a falta de consideração do motorista, que fugiu sem dar nenhuma satisfação. Decidi registrar boletim de ocorrência e fazê-lo pagar, não por precisar do dinheiro, mas para que pelo menos assumisse a responsabilidade pelos seus atos.

Entrei na internet e encontrei uma informação interessante:
Saiba onde fazer o boletim de ocorrência on line em caso de acidentes de trânsito. De acordo com essa notícia da Uol, no estado de São Paulo, é possível fazer o BO no site da Polícia Militar, em caso de acidente de trânsito sem vítima. Entrei lá. Se alguém entender como funciona essa droga, me avisa. O formulário pede o número do boletim, que obviamente não tenho, entendo que deveria ser gerado pelo próprio sistema. Não tem campos para eu preencher os dados do outro veículo, nem para descrever como foi o acidente. E também não achei nenhuma página de Ajuda.

Decidi ir pessoalmente fazer o BO, mas quando telefonei na PM para perguntar aonde deveria ir, descobri que o posto de atendimento fica a 14 Km de minha casa. Decidi averiguar se valeria a pena sair daqui com chuva para fazer isso. Então percebi, por diversos sites e fóruns, que não basta ter a placa do carro: preciso também provar que foi esse veículo que colidiu com o meu. No meu caso, não há testemunhas. Então imaginei que eu poderia usar as imagens das Câmeras nas rodovias do Corredor D. Pedro para essa finalidade. Telefonei na Rota das Bandeiras para checar e fui informada de que eles só poderiam ceder as imagens mediante ordem judicial, e isso caso a colisão tenha sido realmente filmada, pois nem todos os trechos da estrada são monitorados.

Resumindo, o procedimento envolveria: 1. Fazer boletim de ocorrência do outro lado da cidade; 2. Abrir processo no Pequenas Causas, pagando advogado; 3. Torcer para que a Justiça tivesse a competência de pedir as imagens para a Rota das Bandeiras, bem como para que as imagens estivessem disponíveis; 4. Comparecer às audiências, encarar os diversos trâmites, para ver se o proprietário do veículo resolve pagar o prejuízo e/ou se o juiz considera que ele deve pagar, porque quando o proprietário não tem muito dinheiro, o juiz meio que deixa para lá. Claro que esse processo todo levaria alguns anos, muita energia e dinheiro.

Resultado: já estou pensando como as diversas pessoas do Fórum que encontrei via Google, que sugerem que a solução para batidas pequenas em que o responsável foge é pagar do próprio bolso o prejuízo e ficar quieto, ou quem sabe descobrir o endereço do cara e enchê-lo de porrada. Sim, porque o sistema judiciário favoresce o comportamento de bater e depois fugir sem pagar e pune o comportamento do cidadão que exige seus direitos.

Espero que um dia mais pessoas tenham o Caráter da usuária do CREAS, a honestidade de assumir o que é sua responsabilidade e o que é a do outro, para que as coisas possam ser resolvidas na base do abraço e da compreensão... Ah, e dizem por aí que essa mulher é doida! Fico feliz de ser doida como ela...

Paranapiacaba

A viagem estava programada desde novembro. De repente, percebi que as festas de final de ano poderiam fazer sentido se fossem tratadas como um simples feriado em que se pode passear por aí... Mas o contexto em que viajei foi inesperado: meu avô faleceu na terça-feira, dia 28. Como funcionária pública, tive direito a três dias de folga. Após estar com a família e participar de todo o ritual fúnebre, segui meu rumo. A partida do meu avô antecipou minha partida... e senti que esses dias de luto que prolongaram meu feriado, proporcionando algum repouso e tempo para refletir, foram o último presente que ele me deu.

Ainda me impressiono com as mudanças de paisagem que se dão numa curta distância. É o caso de Paranapiacaba: menos de 50 Km de São Paulo e muda a arquitetura, o calçamento das ruas, o clima, a cabeça dos moradores, a qualidade do ar e da vida, os preços, os transportes, os meios de comunicação. Sentia-me como se estivesse em outro país, até porque a maior parte das conversas foi em esperanto.

Trem em exposição em paranapiacaba


A primeira aventura foi dirigir até lá. Até pouco tempo atrás, eu tinha tantos medos de encarar o trânsito e tanta dificuldade de me localizar... Esperei em vão que o GPS que comprei dia 14 de dezembro chegasse a tempo. O jeito foi verificar o trajeto no Google Maps e prestar muita atenção nas placas. Assim, depois de atravessar São Paulo de norte a sul, com uma pausa para deixar a avó e a tia avó no Itaim Bibi, perder o rumo algumas vezes até encontrar a rodovia Anchieta, atravessar o trilho do trem e uma estrada de terra de mais de dez quilômetros, cheguei a Paranapiacaba e à Pousada Shamballah, onde aconteceu o 2o NOVA (Novjara Aranĝo).

As flores de Paranapiacaba me encantaram

Assim que cheguei, a neblina mais parecia uma nuvem que caiu do céu sobre o vilarejo. Logo percebi que tudo em Paranapiacaba é úmido e enevoado: garoa, orvalho, chuva, água brotando do solo em nascentes espalhadas por todo lugar. Tudo no vilarejo tem um cheiro meio molhado de ferro, trem e coisas antigas... Criada para abrigar as ferrovias da SPR (São Paulo Rail), a vila tem um estilo inglês e muito patrimônio histórico preservado. Além disso, há também o patrimônio ecológico: Mata Atlântica, com muitas possibilidades de trilha. Caminhamos durante 4 horas até Taquarussu, guiados pelo simpático Lalas, professor de biologia que gostava muito de falar os nomes das plantas e dos animais pelo caminho.


Paranapiacaba me lembrou Águas Calientes: talvez pela presença marcante da ferrovia, mas certamente também pela estrutura pequena de serviços. Tudo o que se vende tem de vir de fora por caminhos complicados, o turista tem poucas opções dentro do vilarejo e, portanto, tudo é caro. Uma refeição sempre custava pelo menos 15 reais, uma latinha de cerveja custava uns 3 reais. A cidade não tem padaria e, pelo menos na parte baixa, também não vi farmácia, supermercado ou outros estabelecimentos comerciais que garantissem uma certa conveniência.


Esperantistas em Taquarussu

Naquele vilarejo pequeno, claro que a chegada de cerca de 30 esperantistas é um evento que chama a atenção. Despertávamos olhares curiosos quando saíamos pela cidade falando uma língua que, para eles, deveria soar estranho. E eu, que não falava esperanto há alguns meses, fui reacostumando o ouvido e a boca, de forma que a linguagem foi se automatizando. Quando éramos forçados a falar português, pela presença de algum não esperantista, era até difícil mudar a sintonia...

A atmosfera toda da cidade remetia ao passado, não só pelas construções preservadas, mas também porque me parecia propícia para a prática de magia de um estilo com o qual não estou mais acostumada... algo que parece que fiz há muito tempo e já quase me esqueci como era, embora ainda retorne nos meus sonhos. Disseram-me que a cidade é ponto de encontro de bruxos e que costuma haver convenções de bruxas e magos, sempre com abertura nas sexta-feiras 13. Imagino o quanto deve ser interessante acompanhar o evento...

Ainda que a viagem remetesse ao passado, havia novidade nas pessoas que conheci, sempre muito antenadas e sintonizadas com o presente. Os jovens esperantistas costumam ter a mente aberta, uma forma carinhosa de tratar uns aos outros e uma grande responsabilidade perante o mundo, o que não os impede de encher a cara e falar bastante besteira misturada aos assuntos sérios. Estranhamente, eu tinha vontade de tomar cerveja ou a famosa cachaça de cambuci, mas com doses pequenas já sentia uma espécie de alergia, começava a espirrar sem parar, ficava irritada... e acabei passando uma das viradas de ano mais sóbrias dos últimos tempos.

Cachoeira no Parque das Nascentes

De repente, lembrei daquele sonho que tive algumas semanas atrás, quando descobri que "a língua que falo é esperanto". Depois disso me surgiram tantas associações que fiquei bastante introspectiva, apenas contemplando o que surgia de dentro de mim, um tanto quanto inspirada pela chuva e pelo tempo quase sempre fechado. "Esperanto não é minha língua nativa, obviamente. Aliás, não é, ou pelo menos não deveria ser, a língua nativa de ninguém. O propósito do esperanto é ser usado como meio de comunicação por pessoas que não falam a mesma língua. Então, é possível construir um idioma comum entre os que falam idiomas diferentes..." Uma parte do passado morria junto ao membro mais velho de minha família, levando consigo uma série de mágoas e traumas. Tudo o que posso dizer, sem me alongar, é que na segunda-feira seguinte fui trabalhar, pedi marmitex no almoço e, quando me dei conta, tinha comido quase a metade do arroz... Para quem me conhece, sabe a importância desse inesperado acontecimento.

Pode parecer que os assuntos no parágrafo acima são desconexos, mas podem acreditar: estão interligados e fazem muito sentido.