terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Centros geodésicos

A primeira vez que prestei atenção nesse termo foi em Cuiabá, observando as placas que indicavam os pontos turísticos. Mas o que será isso? O taxista que me levava do camelódromo até a rodoviária animadamente me explicava o que havia em cada canto da cidade. Mas mostrou-se surpreso quando perguntei o que é “centro geodésico”. “Onde você viu isso?”. “Naquela placa”, respondi. “Puxa, eu nunca tinha reparado nela...”. Ele morava há seis anos em Cuiabá e, aparentemente, já tinha visto todas as placas e conhecido a maior parte dos pontos turísticos, menos o tal “centro geodésico”. Vai entender... Decidi que mataria a curiosidade na internet na primeira oportunidade. O que é que o Google não sabe?

Marco Zero de Nova Xavantina e suposto Centro Geodésico do Brasil

Fui a Cáceres, depois San Matias, de onde retornei a Cáceres assustada e cansada. E nesses dias todos, esqueci de pesquisar o que era centro geodésico. De volta a Cuiabá, fui à Chapada dos Guimarães. Lá também havia a placa: “Centro geodésico”. Seria o mesmo, ou outro? Desta vez havia o guia turístico para explicar. Centro geodésico, disse ele, é o ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico. Sabe aquela música “Um índio”, do Caetano Veloso?

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante
(...)
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito


Pois bem, o local a que Caetano se refere na música é o centro geodésico, o coração da América do Sul, o ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico. No Mato Grosso, temos dois centros geodésicos: o de Cuiabá, que foi marcado por Rondon, quando veio em expedição ao Oeste do país; e o de Chapada dos Guimarães, que foi marcado mais recentemente pela NASA, usando aparelhos sofisticados. Há uma polêmica envolvendo os dois centros geodésicos, porque algumas pessoas acreditam que Rondon estava mais certo e outras tomam o partido da NASA.

Hoje, por exemplo, consultando a Wikipedia, encontrei o seguinte texto:

Cuiabá é abrigo do Centro Geodésico da América do Sul, nas coordenadas 15°35'56",80 de latitude sul e 56°06'05",55 de longitude oeste. Situado na atual praça Pascoal Moreira Cabral, foi determinado por Marechal Cândido Rondon, em 1909, o correto ponto do centro geodésico já foi contestado, mas cálculos feitos pelo Exército Brasileiro confirmaram as coordenadas do marco calculadas por Rondon.

Ou seja, o outor anônimo desse artigo da Wikipedia provavelmente mora em Cuiabá.

Há até quem diga que a definição de Rondon a respeito de um centro geodésico não era a clássica e geográfica. Por exemplo, vejam a opinião de José Antônio Lemos dos Santos, de Cuiabá:

O Centro Geodésico não tem nada a ver com medições prévias. Ele foi um ponto estabelecido pelo marechal Rondon para ser o referencial básico para sua missão de elaborar o primeiro mapa do Brasil ao milionésimo, hercúlea tarefa que lhe havia incumbido o governo brasileiro. Então, ele é um marco ‘zero’ a partir do qual todas as medidas foram tomadas para a elaboração do mapa do Brasil. Estivesse ele lá em Roraima, ou no Rio Grande do Sul, suas medições tinham como origem o centro, aqui no Campo D’Ourique. Depois, esse mapa do Brasil serviu de referência para o mapa da América do Sul. Por isso, é o centro geodésico da América do Sul. (...)

Uma opinião mais interessante, a meu ver, era a do condutor turístico Esmael, que falou em Centro Geodésico histórico (o de Cuiabá, marcado por Rondon) e Centro Geodésico esotérico (o da Chapada dos Guimarães, marcado pela NASA, onde há um mirante e muitos turistas procurando discos voadores). A exploração de ambos os locais ajudaria a incentivar o turismo, portanto não tem por que brigar...

Mesmo tão perto de dois centros geodésicos, não visitei nenhum: faltou tempo. Mas achei interessante a explicação sobre Rondon, NASA e Caetano Veloso e coloquei esses pontos turísticos na minha lista de lugares por onde andarei futuramente. Mal sabia eu que já tinha visto outros centros geodésicos pelo caminho...

Foi um amigo que me explicou, dias depois, que a praça de Nova Xavantina (MT), marco zero da cidade, é um centro geodésico. Mais tarde descobri que o site da prefeitura de Barra do Garças (MT) também diz que a cidade encontra-se no Centro Geodésico do Brasil. E há ainda alguns sites que localizam o Centro Geodésico do Brasil em Palmas (TO).

Mas e aí, qual dessas afirmações está correta? Vejamos no mapa:



Parece que Cuiabá e Chapada dos Guimarães são mesmo boas candidatas ao ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico. Palmas também é uma boa candidata a centro geodésico do Brasil: parece estar no ponto equidistante entre a fronteira oeste, com a Bolívia, e o limite leste, com o oceano Atlântico. Mas Nova Xavantina e Barra do Garças? Essas não entendi direito. Para serem o centro geográfico do Brasil, só se for na orientação norte-sul.

O fato é que todo mundo quer trazer o centro para perto. E por que não? Nessas horas me lembro da frase que há na Praça do Relógio, na USP: NO UNIVERSO DA CULTURA, O CENTRO ESTÁ EM TODA PARTE. Lembro também de uma conclusão a que cheguei recentemente, no meio de uma especulação filosófica: qual é o centro de uma área ou um volume infinito? Na verdade, qualquer ponto pode ser o centro. Ou seja, o que se faz onipresente tem todos os pontos como centro. Inclusive eu, você, o bandido na cadeia ou o mendigo na esquina somos o centro daquilo que é onipresente.

Praça do Relógio, na USP: No universo da cultura, o centro está em toda parte


E assim prossigo com minhas viagens, sentindo que o centro está em todo lugar e que, portanto, encontrar meu centro é bem mais simples do que eu imaginava.

6 comentários:

Anônimo disse...

Ui, que curiosos!!

Legal....
HAUAHuAH

samuel disse...

O maior problema da colocação dos Centros ou Marcos Geodésicos são as divergências de definição de um Marco Geodésico, muitos dizem que são pontos equidistantes do Atlântico para o Pacífico, outros dizem que são pontos de encontro entre o Geoide e o Elipsoide e portanto um lugar onde a forma mais fiel da Terra e a forma utilizada para cálculos da Terra estão em sintonia.Na minha opinião podem muito bem ser as duas coisas e por definição da Profa.Dra Luciana Corpas Buccene do Colégio Técnico de Limeira o ponto geodésico é um ponto materializado no terreno, por uma chapa de bronze, com sua localização determinada por coordenadas planialtimétricas que definem com precisão sua posição no terreno e no mapa.Os pontos executam um papel fundamental na localização de qualquer obra ou empreendimento na superfície terrestre, constituindo-se em um importante instrumento para a atualização cartográfica.

Gabi disse...

Que orgulho do meu irmão geomata rsrsrs...
Quer dizer que aqueles círculos de metal que encontrei em Machu Picchu também são centros geodésicos? Vou postar fotos deles aqui depois.
Beijos!

Alexandre Curcino disse...

Oi Gabriela,

Antes do comentário propriamente dito: vc nunca pensou em escrever um livro? Digo isso pois sua escrita é, repito, cativante!

Saindo um pouco da questão técnica, ao ler seu post, imediatamente me veio a mente o conceito de 'umbigo do mundo' dado a Cusco, quando Manco Capac finca seu bastão na Terra. Isso nos remete também ao símbolo antigo do Pramantha (bastão) e do Arani (base onde repousará o bastão, tornando-se o 'centro da vez'). Nesta visão mais abstrata, parece mesmo que o centro estará sempre no lugar em que as coisas estiverem realmente acontecendo...

Gabi disse...

Alexandre, na verdade, várias pessoas sugeriram que eu transformasse os conteúdos do blog em um livro. Estou pensando seriamente em fazer isso... O mais difícil é pensar no que e como relatar, porque há momentos da viagem que foram cruciais, mas são muito delicados para se publicar. De qualquer maneira, estou pensando na ideia com carinho.

É verdade, Cuzco é conhecida como "o umbigo do mundo". Eu nem tinha lembrado disso... Em Machu Picchu havia uma série de círculos metálicos marcando pontos geodésicos... Algum dia vou falar sobre isso no blog.

Legal também a relação com "o centro da vez", eu ainda não havia pensado nisso.

Abraços!

Wilmar D'Angelis disse...

Menina inteligente. Parabéns. O Brasil está precisando muito disso (e de honestidade, que anda em baixa, como temos visto).