segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O complicado retorno ao Brasil

Sei que este post está longo, mas prometo que será emocionante!

O taxista me deixou no aeroporto de Lima por volta das 21h e eu estava tranquila, pois o check-in já estava feito, a mochila já havia sido despachada e o voo só sairia às 22:55. Fiquei andando feliz e contente pelo aeroporto, já ansiosa por voltar ao Brasil. Chegaria em São Paulo às 5:30 da manhã, a tempo de votar no segundo turno das eleições presidenciais.

Cerca de 22h resolvi ir à sala de embarque. Foi então que descobri que para entrar nela, era preciso passar pelos caixas e pagar "la taja aeroportuária". Sim, assim como no Brasil, no Peru também existe taxa de embarque. Mas, ao contrário do Brasil, essa taxa é paga no momento do embarque, e não quando se compra a passagem. Eu já tinha pago uma taxa em Cuzco, que era de 18 soles. Por algum motivo, no alto de minha ignorância, achei que aquilo valesse para todo o percurso: Cuzco, Lima, São Paulo, já que em Lima eu estava apenas fazendo uma conexão. Mas foi muita burrice não ter perguntado antes: era preciso pagar outra taxa no aeroporto de Lima, e essa era de 90 soles ou 30 dólares. Eu tinha comigo 40 soles, 1 real e nenhum dólar. O pagamento poderia ser feito apenas em dinheiro, cartão de crédito não era aceito.


A principal paisagem da minha última noite no Peru


Ok, respirei fundo e fui ao caixa eletrônico sacar dinheiro (o Interbank tem conexão com a maior parte dos bancos do mundo, permitindo sacar diretamente da conta corrente). "Sua operação não pode ser realizada agora. Por favor, tente mais tarde". Querido caixa eletrônico, meu voo sai em menos de uma hora! Não tenho como tentar mais tarde! Pode colaborar? Tentei de novo. Mesma mensagem. Ok, esse caixa eletrônico está de mal, vou tentar em outro. Desci as escadas rolantes e, já meio assustada, tentei sacar dinheiro. Mesmo problema. Foi então que uma outra turista brasileira disse: "você também está com problemas no caixa eletrônico? Não consigo sacar.". Ok, não era um problema pessoal, era o "Sistema".

O Sistema é uma coisa que apareceu nas últimas décadas e está dominando o mundo. Ninguém sabe quem está por trás, só se sabe que quando ele não funciona, nada funciona, nem a cabeça das pessoas. Teoricamente há uma forma de resolver tudo sem Sistema, porque havia vida antes do computador. Mas o advento da tecnologia provocou um apagão mental nos seres humanos e agora tudo depende do Sistema.

Claro que fiquei absolutamente nervosa, mas não me permiti desesperar, nem desistir naquele momento. Mandei a criancinha medrosa que mora dentro de mim calar a boca e dormir, enquanto a parte de mim com algum senso prático tomava providências.

Primeira providência: entrei em contato com a central de informações ao turista, que me sugeriu ir à agência do Interbank. Chegando lá, disseram-me que não poderiam me ajudar, porque a Visa estava sem Sistema, portanto não havia conexão com nenhum banco através dos cartões Visa.

Segunda providência: fui para a praça de alimentação e fiz uma proposta para o primeiro restaurante que encontrei. Após explicar a situação, pedi para que passassem meu cartão de crédito (sim, o cartão de crédito funcionava) como se eu tivesse feito uma compra e me entregassem o valor em dinheiro. Sugeri passarem 70 soles e me entregarem apenas 50, para dar uma margem de lucro ao proprietário do restaurante. Pedido negado. Ok, 100 soles! Passem 100 soles e me entreguem apenas 50! Negado também. Percorri seis ou sete lojas fazendo a mesma proposta, mas ninguém aceitou. Ouvi a última chamada para o meu voo e vi que era hora de jogar a toalha: perdi. Não volto ao Brasil agora.

Voltei à central de informações ao turista e perguntei como poderia recuperar minha mochila, se é que ela não havia sido enviada ao Brasil. Disseram que a TACA checa se os passageiros embarcaram e, caso contrário, retiram a bagagem do compartimento de cargas. Porém, o escritório da Taca já estava fechado e eu teria que procurar algum funcionário. Posicionei-me estrategicamente na frente do desembarque (todos os passageiros e funcionários são obrigados a sair por lá) e abordei o primeiro ser que apareceu com crachá da Taca. Ele conversou com outro funcionário, encarregado pela bagagem, que disse que assim que encerrasse os procedimentos burocráticos do voo devolveria minha mochila. Aguardei ansiosamente em frente ao escritório fechado, até que, finalmente, recuperei minhas coisas. Alívio!

Toda vez que eu passava pelo saguão do aeroporto, taxistas me abordavam com a tradicional frase: "taxi, señorita!". De repente, perdi a paciência. Um jovenzinho de seus 19 anos aproximou-se e, antes que abrisse a boca, gritei: NO QUIERO TAXI! ENTIENDES? NO QUIERO! QUIERO UN VUELO. UN AVIÓN! TIENES UN AVIÓN? QUIERO IR AL BRASIL! Espero que o rapaz assustado perdoe a indelicadeza de uma brasileira sozinha, sem dinheiro, sem voo, sem hotel e sem juízo no aeroporto de Lima.

Central de informações ao turista novamente: pedi ajuda para remarcar minha passagem. A moça foi muito solícita, telefonou à Taca e me passou a ligação. O próximo voo para São Paulo sairia no dia seguinte, às 22:55. Tarde demais, muito tarde, mas pedi para remarcarem mesmo assim (já pensando em providenciar passagem por outra companhia aérea, mas querendo garantir o pouco que eu conseguia). Porém, após mais de meia hora no telefone, informaram-me que a Taca estava sem Sistema e que eu deveria ligar no dia seguinte, após as 8h da manhã.

Foi o fim. Eu tinha 40 soles, que mal davam para ir até a cidade (seriam cerca de 35 soles de taxi e naquela hora eu não me arriscava a pegar a tal da van até a Plaza Dos de Mayo). Também não daria para pagar hotel ali perto, pois todos estavam na faixa de 50 a 100 dólares para passar a noite. Eu não tinha voo definido, porque a Taca estava sem Sistema. Sem Sistema, sem voo, sem hotel, sem dinheiro, sozinha, eu me sentia desamparada pela primeira vez desde que botei o pé na estrada.

Cala a boca, criancinha medrosa que está gritando dentro do meu peito! Continuei tentando resolver o problema de forma fria e calculista. O maior desejo era voltar ao Brasil o mais rápido possível. Todos os guichês das companhias aéreas estavam fechados àquela hora, mas eu poderia tentar comprar passagem pela internet. Eu tinha laptop e a Star Bucks oferecia internet wi-fi de graça, mas eu não tinha mais limite no cartão internacional para comprar outra passagem. Precisava de ajuda. Feriado de Finados, papai estava numa chácara, mamãe estava em Belo Horizonte n'outra chácara: ambos provavelmente não teriam acesso à internet. Era cerca de meia noite em Lima, ou seja, 3h da manhã no Brasil. Comecei a elaborar uma lista mental de pessoas para as quais eu pudesse ligar. Os requisitos eram: 1. acesso à internet, 2. cartão internacional, 3. não me xingar muito se eu ligasse de madrugada. As duas primeiras pessoas com quem tentei entrar em contato não atenderam o telefone. Sentei no chão do aeroporto, embaixo do orelhão, com a moeda de 1 nuevo sol na mão, acabada, mal conseguindo pensar.

A terceira tentativa foi a Madrinha, que mora em Brasília (madrinha é mãe substituta, não é?). Quando o tio Alex (esposo da Madrinha) atendeu o telefone, a criancinha medrosa arrebentou a porta do quarto onde estava presa e chorou, desesperada: tio! É a Gabi! Tô ligando do Peru! Eu sei que são 3h da manhã. Tá tudo bem aqui, mas estou com problemas! Por favor, pede pra Madrinha entrar na internet que preciso falar com ela. Vai acabar a moeda... Pede pra madrinha entrar, fala que eu tô bem! [fim da moeda]

O coitado do tio Alex merece ir para o céu depois dessa! E a Madrinha também: prontamente levantou e foi para o computador. Eu estava tão nervosa que não conseguia nem pesquisar horários de voo junto com ela na internet. Só queria voltar o mais breve possível, não importava o preço. E a Madrinha foi ótima, porque conseguiu passagem para o dia seguinte, 11h da manhã, pela Tam. Só então pude respirar aliviada, sabendo que pelo menos teria como voltar (desde que os caixas eletrônicos voltassem a funcionar até o dia seguinte).

Despedi-me da Madrinha, comecei a desligar o computador e me deu dor de barriga. Guardei o notebook na mochila, suando frio, levantei da cadeira e senti aquela coisa molhada, quente e fedida descer por minhas pernas. Não, não me envergonho de contar: quem nunca teve caganeira que atire a primeira pedra! Fui andando de pernas abertas até o banheiro, agradecendo aos céus por ter conseguido minha mochila de volta, caso contrário eu teria que viajar daquele jeito e coitado de quem se sentasse ao meu lado no avião. Também agradeci à minha providencial iniciativa de sempre viajar com lenços umedecidos na bolsa, para o caso de não ter como tomar banho em algum lugar. Troquei a calça suja por uma saia comprida e estampada (era a coisa que estava mais na superfície na mochila), me senti uma GATA (borralheira) combinando-a com camiseta desenhada e tênis de fazer trilha. Não era hora de me preocupar com aparência. Saí para o saguão me sentindo fraca, meio tonta, com fome e com enjoo ao mesmo tempo.

Voltei à Star Bucks e encontrei companhia no MSN (agradeço ao Batata, Felipe Queiroz e João Pedro Ramos, que fazem serões internéticos). Já mais calma, desci para o térreo e me acomodei numa cadeira acolchoada, usando a toalha como travesseiro, cobrindo-me com um cobertorzinho boliviano nascido em Cobija, estendendo as pernas sobre o carrinho de carregar mala. Esse episódio mostra a importância da toalha para os mochileiros, tal qual havia sido descrito por Douglas Adams no Guia dos Mochileiros da Galáxia.


Duas coisas que um mochileiro das galáxias precisa sempre ter em vista: 1. toalha e 2. NÃO ENTRE EM PÂNICO!


Por volta das 3h da manhã no horário de Lima, fui ao banheiro outra vez, despejar mais comida peruana processada no vaso. Aproveitei para tentar sacar dinheiro novamente e... funcionou! Quando saíram da máquina os sofridos soles, quase chorei de alívio. Era o que faltava para confirmar minha volta para dali algumas horas...

No avião da Tam, eu me sentia fraca, muito fraca. Falta de comida (depois do desarranjo intestinal), somado ao empenho extremo de energia em manter a sanidade mental para resolver o problema. Cheguei exausta ao Brasil. Normalmente, quando chego ao aeroporto, ninguém está me esperando e dessa vez eu desejava muito que houvesse alguém. Pois havia o amigo Batata, que eu não via, talvez, desde os tempos de graduação na USP, e que gentilmente me deu carona no transporte VIP do aeroporto. E o Daniel, que me pegou no metrô e me levou até em casa de carro, encerrando de vez a saga.

Todo esse episódio foi muito longo, angustiante e exaustivo, mas me fez pensar em diversas coisas. O principal foi o quanto precisei e obtive ajuda nessa viagem, apesar de ter ido sozinha. Há diversas pessoas, algumas conhecidas e outras não, algumas que estavam fisicamente próximas, outras distantes, que me ajudaram muito e, graças a elas, consegui superar obstáculos. Isso é relevante para mim, porque sempre hesitei muito em pedir ajuda. Sou daquelas pessoas que se levantam para pegar o saleiro do outro lado da mesa, em vez de pedir para alguém que está mais perto me passar. E tive que vencer essa relutância a admitir fragilidade diversas vezes durante a viagem.

Sendo assim, agradeço imensamente a todos os que estiveram disponíveis para me auxiliar nos mais diversos momentos, seja com suporte físico, emocional, afetivo, intelectual... E agradecimentos especiais aos que me socorreram na maior crise da viajem, que foi a volta ao Brasil, seja providenciando as coisas de ordem prática ou me dando suporte emocional por internet ou telefone. Tentei listar os nomes, mas são tantos que tenho medo de esquecer de alguém. Então, fica aqui, a todos os que participaram de alguma maneira, o meu muitíssimo obrigada!

7 comentários:

Cake disse...

coisas assim acontecem, qdo fui pra italia, eu tinha que fazer uma conexão florença -roma, e fariamos de avião e ja estava reservado daqui. porém nosso voo de ida do brasil foi cancelado...qdo mudamos achamos q lá tb estava certo...só que n estava...no fim fomos de trem...n de avião, mas n chegamos ao aeroporto e não pudemos embarcar...e uma longa saga até chegarmos...mas o importante é que nunca estamos sozinhos de verdade, sempre uma alma boa existe pra nos ajudar quando n vemos nenhuma alternativa. Vivemos em sociedade e fazer qqr coisa que seja sozinhos sempre é mais dificil, acredito que dar chance a nos mesmas de vermos isso é fundamental, dar chance de recomeçar de tentar denovo e denovo até funcionar...

Alexandre Curcino disse...

Esses contratempos fazem parte, considerando a extensão de sua viagem...
Bom que sobram muitas histórias boas para contar depois!
você escreve muito bem. O leitor consegue visualizar as cenas relatadas com muita clareza. Parabéns. Um abraço.

Anônimo disse...

Ai que bom que vc contou sua história. Agora a gente já vai previnido.

Maria Inez Carlos disse...

Obrigada, querida Gabi, pelo seu relato!De alguma forma poderá, talvez um dia nos ajudar, qdo lembrarmos do q vc passou. Foi um sufoco!
E tbm nos deu uma idéia do que seria enfrentarmos a famosa frase: Está fora de Sistema. Aí tudo pára... menos, a hora de nosso vôo.Bjs

Gilson Teles disse...

Meu Deus !!!
Gabi, sofri com o seu relato. Agora imagino, tal situação, in loco no tal aeroporto.
Portanto, se for possível, evitem viajar sozinhos.
E esse negócio de conexões é um "pé no saco". Comigo aconteceu o seguinte alguns anos atrás. Estava indo para Viena. E partimos de São Paulo num voo da TAM. Chegando em Paris teríamos que pegar um outro voo, da Air France, até Viena.
Tempo estimado da viagem normal.
(previsão de chegada as 14:30 se não estiver enganado) E sem problemas. Um ou outro funcionário da empresa nos encaminhou para o local necessário para tal conexão.
Detalhe: o tal do aeroporto estava "transbordando" em passageiros que chegavam de várias partes do mundo e que também necessitavam de alguma conexão. Chegando ao local...não acreditei. Eram milhares de passageiros...que encontravam-se numa das 5 ou 6 filas. Meu Deus !!!
E a tal conexão já programada era para as 16 horas daquele mesmo dia, horário local. E quando tentei...uma, duas, três vezes furar a fila...faltou pouco para não apanhar. E ouvi várias vezes brigas, discussões naquelas tais filas. E não teve jeito....enfrentar uma das filas e quando conseguimos chegar num dos guichê....já passavam das 18 horas. E conseguimos o embarque para as 20 horas. Um detalhe....como estávamos indo para o interior da Áustria, estava previsto que uma pessoa, por volta das 18 até umas 20 horas, estaria nos aguardando com um automóvel. ( numa viagem prevista para uns 90 minutos desde Viena )
O avião não era mais da Air France...uma pequena empresa austríaca. E num voo tranquilo.
( com poucos passageiros a bordo )
E chegando a Viena...cadê as nossas malas? A maioria que desceu do avião nem utilizava-se de malas. E poucos minutos depois o saguão do aeroporto ficou vazio.
E quando conseguimos encontrar com algum funcionário...não falava inglês.Depois com outros funcionários, a mesma coisa...nenhum falava inglês, é mole?
Depois de meia hora, uma hora...sei lá...através de gestos, mimicas conseguimos convencer um funcionário mostrar, ainda na má vontade, aonde poderia estar as nossas malas.
Num dos salões daquele aeroporto...sem mesmo com alguma identificação, em inglês...encontramos uma montanha de malas jogadas num canto.
Podem acreditar, levamos mais de hora para encontrar as nossas malas. Nunca vi nada igual.
E o pior...perceber que parte das nossas coisas estavam fora da mala. Ou seja, brasileiro, sul americano, até que provem o contrário...suspeitíssimos, principalmente quanto a drogas.
Mais uma surpresa...saindo do aeroporto não conseguimos encontrar nenhum funcionário, que verificasse se os tais comprovantes eram das respectivas malas. Ou seja....poderia sair com mais malas, outras malas e não aconteceria nada.
E para chegar na tal cidade prevista...resolvemos ir de trem. ( a partir das 6 da manhã ) Cruzamos Viena, de madrugada, de ônibus na base de gestos, até chegarmos na estação. Embarcamos no trem. O condutor do trem, óbvio, não falava nada além do alemão. E mesmo assim, mostrei o bilhete e o local aonde pretendíamos descer. Pronto. E viajando num trem tão silencioso...mas tão silencioso...que desmaiamos.
Acordamos com o condutor balançando as nossas "carcaças" e provavelmente xingando. O que aconteceu? O trem chegou na estação que tínhamos que descer...e como ninguém estava acordado...em seguida o trem partiu. E por sorte o condutor percebeu a nossa presença e disparou o alarme, travando o tal trem. E nem assim acordamos...rsrsrs.
O condutor praticamente nos expulsou, jogando as nossas malas no trilho do trem. ( bem fora da plataforma ) E fiquei com medo do tal condutor...faltou, talvez, bem pouco para apanhar....rsrsrs.
E desculpas pelo longo relato, Gabi e aos demais.

Abraços.

Gabi disse...

Gilson, relato muito interessante! Viajar tem dessas aventuras... Mas depois que passa, restam as risadas e a experiência de vida, né? Abraço!

Anônimo disse...

Oi Gabi! Lii seu relato e gostei, oh, desculpa me senti muito por tudo. Bom, segunda, 16/06/2014, estou deixando Manaus para Lima. Por favor, me diz alguma pousada barata no centro de Lima. tem que ser barata e de qualidade. Ei, lá tem muito ladrão (nas ruas, pousadas...)? marefo777@yahoo.com.br
Obrigado, Rene